“Quando simplificarmos nosso sistema, capital deixará de fugir do país”, diz vice-ministro do Desenvolvimento Econômico

Vice-ministro do Desenvolvimento Econômico, Serguêi Beliakov. Foto: Kommersant

Vice-ministro do Desenvolvimento Econômico, Serguêi Beliakov. Foto: Kommersant

“Se conseguirmos concretizar tudo o que planejamos–me refiro aos planos de reduzir o prazo para o exame de documentos, a quantidade de documentos a apresentar para obter a permissão para a realização de um negócio e, como consequência, as despesas daí decorrentes para o empresário–, subiremos no ranking Doing Business[que analisa o ambiente de negócios de diversos países].”

Em entrevista a repórter Nadejda Petrova, da revista Kommersant Vlast, sobre o ambiente de negócios na Rússia, o vice-ministro do Desenvolvimento Econômico, Serguêi Beliakov, afirmou o que deve ser feito para atrair mais capital para o país, o que a Rússia pode oferecer aos investidores e quais suas vantagens competitivas.

Kommersant Vlast: Entre outras coisas, o ambiente de negócios é o que torna um país atrativo para o investimento. Agora, a Rússia ocupa a 112ª posição no ranking  Doing Business.

Serguêi Beliakov: Quer saber se conseguiremos passar para a 20ª posição? Para mim, o importante é que nossos esforços para facilitar o ambiente de negócios tenham efeito junto a nossos clientes, os empresários. Se conseguirmos concretizar tudo o que planejamos e isso tiver efeito prático junto à comunidade empresarial –me refiro aos planos de reduzir o prazo para o exame de documentos, a quantidade de documentos a apresentar para obter a permissão para a realização de um negócio e, como consequência, as despesas daí decorrentes para o empresário–, subiremos para uma posição mais alta no ranking.

K.V.:O sr. acredita que isso será suficiente? Acho que agora estamos assistindo a um processo inverso: os investimentos vêm diminuindo.

S.B.: O volume de investimentos está diminuindo também nos EUA e nos países do Brics. Durante a crise, os detentores de capital preferem poupar seu dinheiro a fazer investimentos, porque investir durante a crise implica grandes riscos. Portanto, a redução do volume de investimento não é um traço marcante da Rússia.

No ano passado, tivemos o ingressos de investimento estrangeiro direto no valor de US$  52,3 bilhões. Nos três primeiros trimestres deste ano, ingressaram no país cerca de US $ 38 bilhões. A projeção para o fim deste ano é de cerca de US$ 52 bilhões. Mas isso não é o suficiente. O montante mínimo de investimento de que precisamos é de cerca de US $ 75 bilhões por ano. Essa quantia é necessária para atender aos desafios da modernização da economia. Os recursos públicos são insuficientes para isso.

K.V.:Está falando sobre investimentos estrangeiros?

S.B.: Quando digo US $ 75 bilhões por ano, sim. Vale notar que quando falamos sobre a necessidade de melhorar o ambiente de negócios paras as empresas, não as dividimos entre nacionais e estrangeiras. O ambiente deve ser confortável tanto para os negócios quanto para o capital, e o capital não tem nacionalidade.

K.V:Mas os problemas existem não só na área de investimentos estrangeiros.

S.B.: Acentuamos a questão do investimento estrangeiro por duas razões. Em primeiro lugar, com o investimento estrangeiro vêm tecnologias e competências, o que tem importância fundamental para um salto tecnológico do país. Em segundo lugar, as empresas estrangeiras globais têm a possibilidade de escolher onde investir, procurando maximizar os rendimentos e minimizar os riscos.

A economia que recebe investimentos estrangeiros ganha assim mais uma fonte de desenvolvimento. Portanto, se as decisões de investimento de empresas estrangeiras não forem favoráveis à Rússia, o país não só não receberá bilhões de dólares ou euros, mas ficará ainda mais atrasado em tecnologia e terá que lidar com o problema da fuga não só de capitais como também de cidadãos.

Outro problema são as limitações de infraestrutura. A falta de infraestrutura limita a demanda por investimento. Portanto, é preciso investir nisso. Mas os investimentos nos bens de capital vêm diminuindo porque tais projetos são de longo prazo e têm taxas de retorno mais baixas. Portanto, nesse segmento, os investimentos por conta de recursos públicos têm sido sempre muito relevantes. Só que não podemos agora nos permitir gastar em infraestrutura tanto quanto antes.

Outro aspecto: o atual sistema motiva os empresários a resolver informalmente seus problemas. O sistema existente está configurado de modo a obrigar os empresários a sempre superar obstáculos. Isso está errado. O Estado só deve intervir quando surgirem ilegalidades ou riscos para os consumidores. É preciso reduzir ao mínimo possível a lista de atividades passíveis de licenciamento. Quando simplificarmos o sistema existente de modo que os empresários comecem a ganhar e o Estado comece simplesmente a ajudá-los a fazer isso, em vez de requerer licenças, o capital  deixará de sair do país para empresas off-shore.

K.V:Antigamente, a Rússia tinha vantagens competitivas importantes, como o capital humano e a qualidade da educação.

S.B.: Segundo as avaliações de executivos de grandes empresas estrangeiras que têm unidades operacionais na Rússia, o capital humano continua a ser uma importante vantagem competitiva da Rússia. A questão é saber por quanto tempo faremos durá-la. Não estou inclinado a idealizar a atual situação em termos de qualidade da educação.

Outro problema, porém, é a mobilidade da mão de obra. Por exemplo, em Kaluga, os investidores ficaram impressionados com a qualidade da mão de obra local e esgotaram rapidamente os recursos humanos no mercado de trabalho local. Agora não conseguem encontrar profissionais para trabalhar em suas empresas.

Para a versão na íntegra da entrevista em russo, acesse: http://kommersant.ru/doc/2056727

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