Na mira de Choigu

Ilustração: Serguêi Iólkin

Ilustração: Serguêi Iólkin

Recém-nomeado ministro da Defesa, Serguêi Choigu supostamente assumiu difícil missão de continuar as reformas militares iniciadas por seu antecessor.

A demissão abrupta de Anatóli Serdiukov do cargo de ministro da Defesa nesta terça-feira (6) nos relembra que políticas pessoais são de extrema importância na Rússia moderna. Aparentemente, Serdiukov foi afastado do cargo em decorrência da acusação de uma fraude milionária envolvendo a Oboronservice, holding controlada pelo Ministério da Defesa.

Mas outros ministros já resisitiram a situações piores e, até bem recentemente, Serdiukov parecia desfrutar de total apoio do presidente Vladímir Pútin. Algo mudou para torná-lo vítima.

Não foi porque o alto comando do Exército desprezava Serdiukov. Eles vinham reclamando de sua postura há anos e, de certo modo, quanto mais resmungavam, mais Serdiukov poderia usar isso como prova de que estava realmente cumprindo seu trabalho. Afinal de contas, qualquer reforma tende a ser dolorosa.

Mas, ao que tudo indica, ele foi derrubado por relações pessoais e rumores de um caso extraconjugal. Seu sogro, o ex-primeiro-ministro e aliado próximo de Pútin, Víktor Zubkov, queria sua cabeça.

Serdiukov era um funcionário confiável, mas Zubkov é uma figura poderosa e também membro do círculo íntimo de Pútin. Forçado a escolher entre o ministro e o presidente do conselho de administração da Gazprom, Pútin ficou do lado do último. A moral da história (além da necessidade de ser fiel à sua esposa) é que um poderoso amigo pessoal do presidente tem muito mais influência do que um ministro competente ou, na verdade, o alto comando inteiro.

Esse fato também representa uma encruzilhada para a reforma militar. Serdiukov tinha apenas iniciado o processo, e o impacto prático de muitas de suas medidas específicas ainda está em aberto. O exército não está mais estruturado no estilo das divisões soviéticas, mas em brigadas menores e batalhões táticos, que devem ser mais flexíveis. Além disso, foram realizadas incursões nos insuflados órgãos oficiais. Apesar de muitos problemas permanecerem, Serdiukov realmente merece crédito por começar a distanciar o poderio militar russo do seu passado soviético.

Os próximos passos são melhorar as condições dos militares e, sobretudo, dos oficiais júnior e não contratados (tendo certeza de que têm aposentos decentes e não estão sendo intimidados), desenvolver táticas que permitam o exército usar suas armas novas e certificar-se de que esses equipamentos atendem às necessidades dos militares. Afinal, hoje em dia, muitos itens recebidos pelo órgão estão desatualizados e representam o que as indústrias de defesa querem construir.

Esse conjunto de funções representa uma série de desafios para o sucessor de Serdiukov, Serguêi Choigu, ex-ministro para Situações de Emergência e atual governador da região de Moscou. Pútin claramente considera Choigu um de seus executivos preparados, alguém em quem pode confiar para resolver problemas difíceis. Em seu mandato de 18 anos como ministro, Choigu assumiu um conjunto díspar e à beira do colapso formado por bombeiros, tropas de defesa civil e outros trabalhadores de emergência – e conseguiu fazer com que tudo funcionasse.

Ele tem potencial para ser ainda mais eficaz como ministro da Defesa. Embora tenha patente de general, é também engenheiro e administrador. Sabe como trabalhar com o os homens que compõem o aparato de segurança do Estado, bem como conhece o processo para modernizar estruturas conservadoras e disfuncionais.

A próxima etapa da reforma vai exigir olhar para além do ministério, assumindo as indústrias de defesa e defendendo o orçamento militar, mesmo quando for preciso travar discussões com os generais. Isso vai exigir um toque político mais hábil do que Serdiukov – assim como uma disposição para assumir o controle de interesses estabelecidos.

Choigu pode ter as habilidades e o vigor para essa luta, mas será ele vai optar por isso?

É preciso olhar para o cenário como um todo. Com Pútin cada vez mais distante, os membros da elite estão começando a refletir sobre o impensável: quem poderia acabar sendo seu sucessor. As opiniões variam desde o “showman” nacionalista Dmítri Rogozine e o prefeito de Moscou, Serguêi Sobiânin, ao vice-premiê e experiente solucionador de problemas Dmítri Kozak. Choigu também está nessa lista. Mesmo porque é visto como o ministro mais popular do governo, além de enérgico e capaz. Como um futuro primeiro-ministro, e até mesmo presidente, trata-se de um candidato credível.

Até agora, Choigu pareceu um funcionário leal e prático – exatamente do que o Ministério da Defesa precisa. Mas se ele realmente acolher as ambições descritas acima – e ninguém ainda manifestando tais ideias –, isso poderia levá-lo a avançar com a reforma para mostrar seus poderes de modernização.

Ainda assim, é mais provável que isso irá estimulá-lo a ser menos agressivo. Afinal, será que ele realmente quer ser caracterizado como o homem que fechou fábricas de armas e comprou ainda mais equipamentos de fabricação estrangeira (mesmo que isso seja melhor e mais barato)? O homem que reduziu o poderio militar, mesmo quando as tensões aumentam no Cáucaso do Norte (ainda que a Rússia não consiga prover mais pessoal para suas unidades existentes)?

O resultado da próxima etapa da reforma militar vai depender muito de qual campanha Choigu decidir apoiar.

Mark Galeotti é professor de Assuntos Globais na Universidade de Nova York. Seu blog, “Nas sombras de Moscou”, pode lido em http://inmoscowsshadows.wordpress.com

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