Como será a agenda entre Rússia e EUA após a vitória de Obama

Aleksêi Puchkov, presidente da Comissão da Duma de Estado. Foto: wikipedia.org

Aleksêi Puchkov, presidente da Comissão da Duma de Estado. Foto: wikipedia.org

Aleksêi Puchkov, presidente da Comissão da Duma de Estado (câmara baixa do parlamento russo) para assuntos internacionais, e Aleksêi Malachenko, membro do Conselho Científico do Centro Carnegie de Moscou, analisam temas como o escudo antimíssil na Europa Oriental, o conflito na Síria e a questão do Irã.

Nos próximos quatro anos, o principal parceiro do governo de Moscou em Washington será Barack Obama. Apesar de Obama assumir uma posição mais moderada em relação à Rússia do que o concorrente derrotado nas eleições americanas, o republicano Mitt Romney, os problemas nas relações bilaterais não serão menores.

Para saber quais são os obstáculos e as prioridades da agenda entre os dois países e como Vladímir Pútin e Obama irão resolvê-los, o jornal Izvéstia conversou  com o presidente da Comissão da Duma de Estado (câmara baixa do parlamento russo) para assuntos internacionais, Aleksêi Puchkov, e com o membro do Conselho Científico do Centro Carnegie de Moscou, Aleksêi Malachenko.

Aleksêi Malachenko, membro do Conselho Científico do Centro Carnegie de Moscou. Foto: carnegieendowment.org

Escudo antimíssil na Europa Oriental

Puchkov: "Estou cético em relação às negociações sobre a defesa antimíssil, apesar de Obama ter prometido assumir uma posição mais flexível sobre o assunto. Sempre vai depender da situação no Congresso norte-americano, onde qualquer passo ao encontro da Rússia será encarado como traição dos interesses nacionais".

Malachenko:"Penso que uma nova rodada de negociações começará em um futuro próximo. Como resultado, os EUA vão corrigir seus planos de defesa antimíssil. Não porque a Casa Branca e o Pentágono abdiquem de seus planos, mas porque o projeto é muito dispendioso. Face a uma crise, os norte-americanos se verão forçados a limitar suas ambições. Por outro lado, não é claro se a Rússia ficará satisfeita com esse desfecho".

Lei Magnítski (que dispõe sobre restrições para a concessão de visto de entrada a algumas autoridades russas)

P.: "Já é tradição dos EUA manter em vigência uma lei antirussa. No lugar da emenda Jackson-Vanik virá a lei Magnítski. Essa lei será necessariamente aprovada, embora seja do interesse da  administração Obama tornar suas fórmulas mais vagas e não apresentar a Rússia como o único alvo de críticas".

M.: "Esse projeto de lei será aprovado em versão moderada. A Casa Branca não está interessada em agravar as relações bilaterais. É óbvio que nem tudo depende do presidente Obama, embora, após sua reeleição, seu peso político tenda a aumentar".

Síria

 

P.: "Poderíamos aproximar nossas posições se o governo de Washington compreendesse que devemos falar sobre o início de um diálogo intersírio e não sobre o apoio a uma das partes beligerantes. Infelizmente, a perspectiva disso acontecer parece muito obscura".

 

M.: "Na minha opinião, a opção mais provável é que os EUA apoiem uma intervenção externa. Essa intervenção, porém, será realizada por países árabes e não pelo Ocidente, a pretexto de a situação na Síria ser um problema puramente árabe. Essa solução seria, aliás, mais ponderada do que a de intimidar as partes beligerantes com uma intervenção militar americana". 

Irã

 

P.: "Obama será pressionado ainda mais por Israel, com o lobby israelense nos EUA irritado com a derrota de Romney e os republicanos começando a agir de forma mais resoluta. Nesse contexto, a probabilidade de um roteiro militar contra o Irã prevalecer é grande".

M.: "Nada de importante acontecerá na vertente iraniana. Não acho que Washington se atreva a atacar o país. Suas relações com todo o mundo muçulmano estão em jogo".

"Reinício" das relações com a Rússia

 

P.: "O conceito de ‘reinício’ está esgotado. Teve por objetivo alterar o tom do relacionamento bilateral. Se o encararmos como manobra tática com fins limitados, podemos dizer que atingiu as expectativas de seus autores. Se foi concebido para elevar as relações entre a Rússia e os EUA a um patamar completamente novo, não atingiu o resultado esperado".

M.: "Eu acho que os EUA vão mudar a terminologia. A própria palavra ‘reinício’ se exauriu e será, provavelmente, substituída por um termo parecido. Obama não é daqueles que gostam de agravar as coisas".

Relacionamento Pútin-Obama

 

P.: "Obama tem uma obrigação moral perante o atual presidente russo. Às vésperas de sua primeira visita a Moscou, ele disse com imprudência e indelicadeza que Pútin tinha um pé no passado e deveria entender que a Guerra Fria havia terminado. Essas declarações criaram um cenário negativo para as relações pessoais entre os dois presidentes. Conheço o caráter de Pútin e posso dizer que se seu colega americano desse um sinal de que está disposto a construir relações pessoais construtivas, ele reagiria de forma favorável".

M.: "É pouco provável que os dois comecem a simpatizar mutuamente. Suas relações nunca foram caracterizadas por uma grande simpatia recíproca. Para Pútin, era mais fácil se relacionar com George W. Bush. As relações com os EUA eram ruins, mas as relações pessoais entre Bush e Pútin estavam em um nível de compreensão mútua. Se Romney tivesse vencido, assistiríamos à mesma coisa".

Publicado originalmente no site do jornal Izvéstia

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