Uma fortaleza desintegrada

Mínin e Pojárski, os lideres que uniram o povo russo no ano 1612, no retrato de  Mikhail Scotti.

Mínin e Pojárski, os lideres que uniram o povo russo no ano 1612, no retrato de Mikhail Scotti.

Feriado da Unidade Nacional, comemorado oficialmente na Rússia em 4 de novembro, deveria suscitar valores unificadores. No entanto, o que se observa é exatamente a ausência da principal razão dessa data: a unidade nacional.

Todos os anos, vários grupos de reflexão liberais liderados pelo Centro Levada encomendam novas pesquisas de opinião sobre a atitude dos russos em relação a essa data. E a cada ano os sociólogos chegam à mesma conclusão: o cidadão russo comum não sabe qual evento é comemorado no país em 4 de novembro.

Pior ainda, as pessoas não sabem quais qualidades humanas tal feriado supostamente promove ou quais emoções deveria inspirar. Para a maioria da população do país, trata-se apenas de mais um dia de folga.

Os liberais, por sua vez, raramente essa situação. Para a maioria deles, é apenas o que os alemães chamam de schadenfreude, isto é, um sentimento de alegria ou prazer diante do sofrimento alheio – no caso, a falha de mais uma iniciativa do Estado.

Se todos esses inúmeros sociólogos irônicos, editores de jornais e radialistas mantivessem o mínimo sentimento de lealdade civil, eles se culpariam em vez de apontar para o amaldiçoado e demonizado “regime”.

A intelligentsia na Rússia deveria tradicionalmente desempenhar o papel de disseminador da tradição e memória nacional, educando as pessoas e tratando suas deficiências, tanto morais quanto físicas.

Portanto, se as pessoas não sabem que no início do século 17 a Rússia estava à beira de ser destruído por um conflito civil, incitado por uma intervenção polaca, não é só culpa das autoridades que cortaram horas de aulas de história nas escolas e permitiram que a televisão passasse a desinformar ao invés de informar as pessoas. É também culpa da intelligentsia, que logo após o fim do regime comunista voltou a seguir seus caminhos destrutivos do século 19 e início do século 20.

A situação atual de schadenfreude difundida entre as classes intelectuais da Rússia tem pouco precedente em toda a história da Rússia. Grande parcela da classe intelectual russa realmente tentou educar as pessoas nos melhores e piores momentos, antes e depois da revolução de 1917.

Apenas uma pequena minoria de extremistas intelectuais, sobretudo os bolcheviques moldados por Lênin e Trótski, demonstraram uma indiferença marcante à herança da Rússia, tratando a própria palavra “patriotismo” com desprezo. No entanto, essa pequena minoria deixou uma pegada terrível na história da Rússia que teriam feito deles um modelo desinteressante em qualquer país com o mínimo senso de memória histórica.

É realmente triste ouvir sua retórica repetida hoje nos discursos de alguns dos “reformadores radicais” contemporâneos. Como acontece frequentemente na história, a orientação de direita ou esquerda pouco importa, o que conta é a radicalismo.

Não foi à toa que até mesmo comunistas impenitentes da Rússia concordaram em chamar Anatóli Tchubais, o “pai” da radical privatização da Rússia, de “bolchevique”.

Apesar de os bolcheviques da história terem lutado pela nacionalização das indústrias e Tchubais ter buscado sua “desnacionalização” e privatização, ele utilizou métodos bolchevistas, como coerção, manipulação de votos e regime ditatorial direto por decreto presidencial. Além disso, Tchubais e pessoas como ele são vistas como personagens com desrespeito total pelo próprio país e povo.

E como permitimos que esses bolcheviques determinassem nosso destino histórico? Por que os apresentadores de programas das estações de rádios russas mais sofisticadas no passado mostram tamanha alegria ao reportar notícias tristes se a única parte prejudicada é a própria Rússia?

Por que, ao encontrarem um jornalista estrangeiro, os intelectuais russos começam imediatamente a usá-lo como uma espécie de psicoterapeuta político, espalhando boatos terríveis e inanidades sobre seu próprio país? Porque essas pessoas não têm senso de unidade nacional, elas têm apenas a vontade de pertencer a um grupo.

Não muito tempo antes do Dia da Unidade Nacional do ano passado, ao tentar identificar os pontos fracos das forças armadas da Rússia, o analista militar Ruslan Pukhov forneceu um diagnóstico preciso: “Falta de lealdade civil”.

O que é realmente perigoso é o fato de essa falta de lealdade ser apresentada como uma virtude, e não como um pecado, por grande parte da imprensa russa. Qualquer iniciativa de estimular esse sentimento na sociedade é denunciada como uma “tentativa de incutir uma mentalidade de fortaleza sitiada”.

Porém, é preciso acordar e observar as manchetes dos jornais de Vancouver a Tóquio, onde a Rússia é apresentada como “uma força do mal” e “um perigo para seus vizinhos”.

Viver sem inimigos e ter uma mentalidade de fortaleza sitiada é realmente burrice. Mas viver em uma fortaleza sitiada e não ter uma mentalidade de fortaleza sitiada é absolutamente estúpido.

Dmítri Babitch é analista político da estação de rádio Voz da Rússia.

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