Perspectivas da indústria de carvão russa

Ilustração: Serguêi Iólkin

Ilustração: Serguêi Iólkin

Quando se fala sobre a competitividade da economia russa, é comum acentuar o desenvolvimento de setores de alta tecnologia, em cuja lista raramente aparece o setor energético. O tema da atualização tecnológica das refinarias petrolíferas é por vezes abordado, porque a qualidade e o preço da gasolina são questões de relevância não só para os atores do mercado, enquanto a indústria do carvão fica geralmente à margem das discussões.

Enquanto isso, a produção do gás de xisto (a propósito, uma indústria de alta tecnologia) é uma ameaça séria para todo o setor energético russo e para a indústria do carvão em particular. O excesso de combustível no mercado doméstico dos EUA estimulou os exportadores americanos a aumentar rapidamente as vendas externas de carvão, sobretudo na Europa. Em 2011, os países da União Européia importaram 17,8 milhões de toneladas de carvão energético americano, ou seja, 10 milhões de toneladas a mais do que em 2010.

Quais consequências isso vai ter para o balanço energético da Rússia? Evidentemente que os europeus empenhados em reduzir sua dependência da gigante russa Gazprom irão diminuir as compras do gás russo. Como resultado, o gás russo se acumulará no mercado interno, o que provocará, por seu turno, à redução do consumo interno de carvão.

Resultado: o balanço energético combustível da Rússia se tornará ainda mais desproporcional. Ainda hoje, a cota parte do gás é de 53,4%, cabendo ao carvão apenas 15,8%. Nas usinas termelétricas, a proporção é de 70% a 25%. O gás natural já suplantou o carvão como combustível para usinas termelétricas na zona européia da Rússia e começou a substitui-lo no Extremo Oriente.

Como resultado, as empresas carvoeiras russas continuam aumentando, como antes, suas vendas externas. Em 2012, a exportação de carvão pode ultrapassar 120 milhões de toneladas contra 111 milhões de toneladas em 2011.

Assim, a Rússia vai ser o terceiro maior exportador mundial de carvão, atrás de Indonésia e Austrália. Por um lado, isso assegura o afluxo de divisas necessárias à atualização tecnológica e renovação das minas de carvão. Por outr, em consequência da recente baixa prolongada dos preços no mercado mundial, as empresas carvoeiras perderam cerca de 50 bilhões de rublos de lucros (cerca de US$ 1,5 bilhão). Como resultado, os investimentos irão diminuir, até o final do ano, em 40% – para 60 bilhões de rublos (cerca de US$ 1,9 bilhão).

A situação atual da indústria de carvão da Rússia é caraterizada por alguns processos positivos. A orientação para o mercado externo obriga as empresas carvoeiras a desenvolver a indústria de beneficiamento do carvão dentro do país.

Agora, a indústria de beneficiamento apresenta um crescimento muito maior do que a produção de carvão. No exterior, carvão beneficiado tem alta demanda. Na Rússia, não.

A única solução para as empresas carvoeiras russas é ampliar o uso de carvão e derivados no local de extração, nomeadamente para a geração de eletricidade para suas próprias necessidades. Nesse contexto, merece especial referência a tecnologia de gaseificação do carvão e criação de produtos com caraterísticas funcionais melhores e valor agregado mais elevado.

Mas isso requer a implantação de novas soluções na estrutura organizacional e tecnológica das empresas de carvão.

Dentre os primeiros projetos inovadores aplicados na Bacia Carbonífera de Kuznetsk (Kuzbas) podemos citar o de criação de um núcleo de produção de carvão e energia elétrica de Karakan iniciado em 2010.

Esse projeto visa concentrar empresas de mineração, unidades de geração de energia elétrica e instalações de beneficiamento à volta da jazida de carvão de Karakan (distrito de Belov, no Kuzbas).

Trata-se de criar um complexo de mineração de carvão com capacidade de 8 milhões de toneladas de carvão por ano (expansível para 10 milhões de toneladas), um complexo de beneficiamento com capacidade de 6 milhões de toneladas por ano, uma fábrica para a produção de carvão térmico, uma usina termelétrica de 45 MW de potência  e um complexo de transporte capaz de movimentar 10 milhões de toneladas de carga por ano.

Uma das grandes vantagem de tais núcleos ou clusters é a possibilidade de reproduzi-los em outros locais. Além disso, o complexo de Karakan permitirá à Região de Kêmerovo se tornar auto-suficiente em energia elétrica, diminuir a dependência de suas empresas carvoeiras do mercado federal, reduzir as despesas com o transporte de grandes quantidades de carvão e substituir o carvão de coque dispendioso pelo carvão térmico mais barato em suas  empresas metalúrgicas.

O crescimento do consumo de carvão no país não é apenas uma questão da otimização do balanço energético. É também uma questão da segurança energética e utilidade econômica.

A aplicação de tecnologias de processamento profundo de carvão permitirá à Rússia se adaptar melhor à conjuntura externa e impulsionar o desenvolvimento sócio-econômico de monocidades (uma cidade com uma única fábrica onde trabalha a maioria de sua população).

Gueórgui Krasniânski, presidente do Comitê Organizador do Congresso de Mineração Mundial 

Para a versão na íntegra do artigo em russo, acesse RBС

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