Detritos espaciais dificultam atividades na órbita da Terra

Foto: Divulgação

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O problema dos detritos espaciais se torna crucial para a Estação Espacial Internacional.

O estágio superior russo Briz-M de veículos lançadores de satélites responsável pelo acidente dos satélites Express-MD2 e Telkom-3 ocorrido em agosto passado, se desintegrou em órbita, em meados de outubro.

De acordo com especialistas do centro de controle de missões espaciais, no subúrbio de Moscou, cinco grandes fragmentos do Briz-M se espalharam no espaço em órbitas de 5 mil a 250 km de altitude e representam uma ameaça potencial para todos os veículos espaciais que orbitam nessa faixa de altitudes, inclusive a ISS que opera a uma altitude de cerca de 400 km.

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Por sua vez, o astrônomo australiano Robert McNaught disse à imprensa russa que o estágio superior russo havia se desintegrado em mais de 100 fragmentos. "Nas imagens, aparecem mais de 60 peças diferentes. Não consegui fotografar toda a sequência de detritos, pois alguns encontravam-se abaixo e outros acima de meu campo de visão. Acredito que, no total, há mais de 100 peças", disse McNaught.

Enquanto isso, o contato com o lixo espacial pode ter consequências fatais para a Estação Espacial Internacional, ISS na sigla em inglês.

Há vários anos, a NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço dos EUA) calculou em mais de 8000 o número de resíduos medindo acima de 10 cm, em dezenas de milhares, o número de objetos de tamanho de 1 a 10 cm, e em centenas de milhares, o número de fragmentos menores que 1 cm.

Os EUA têm observado, por meio de seu sistema de rastreamento, mais de 19 mil objetos, considerando que o número de fragmentos maiores que um centímetro pode chegar a 600 mil.

A Agência Espacial Russa (Roskosmos) afirma que, no final de 2008, havia cerca de 12,5 mil objetos espaciais maiores que 10 cm, dos quais apenas mil, ou 6%, continuavam em operação. Cerca de 40% eram dispositivos sem uso ou estágios superiores de foguetes – 54% eram vestígios gerados por explosões ou colisões de veículos espaciais. Mais de 300 mil objetos variavam em tamanho de 1 a 10 cm e tinham um peso total de mais de 5 toneladas.

A situação vem se agravando. Em meados de 2010, a Roskosmos calculou em 200 mil o número de peças menores que 10 cm e em dezenas de milhões, os detritos inferiores a 1 cm. O lixo espacial se acumula principalmente a altitudes entre 850 a 1,5 mil km. Sua concentração também é grande a altitudes em que operam espaçonaves (250-350 km) e a ISS (350-400 km).

Os detritos espaciais obedecem à lei da gravidade e tendem a se aproximar da superfície da Terra. Como resultado, acabam desintegrados nas camadas densas da atmosfera terrestre (a dezenas de quilômetros de altitude).

Mas esse processo leva muito tempo. Pode durar entre alguns anos (caso os detritos tenham sido gerados a altitudes abaixo de 600 km) a dezenas de anos (se isso acontecer a altitudes de 800 km) e até centenas de anos (a altitudes superiores a 1.000 km). Os detritos espaciais são produzidos mais rápido do que se desintegram de forma natural.

O lixo espacial é perigoso devido a alta velocidade com que se desloca no espaço (cerca de 10 km/s). De acordo com especialistas russos, nessa velocidade, até mesmo um fragmento de 0,5 mm pode perfurar a roupa de um astronauta.

O representante da Academia de Ciências da Engenharia, Iúri  Záitsev, adverte que, se não forem tomadas medidas para melhorar a situação em termos de detritos espaciais, os voos tripulados e lançamentos de satélites se tornarão impossíveis. Na presente etapa, os dois líderes do setor espacial mundial, os EUA e a Rússia, só têm condições de rastrear a trajetória dos detritos espaciais para evitar colisões e não possuem técnicas eficazes de remoção do lixo espacial nem podem evitar que se acumule no espaço.

Segundo Iúri Záitsev, os estágios superiores dos veículos lançadores podem ser trazidos de volta para a atmosfera da Terra por meio de um impulso de frenagem. Mas quando é preciso colocar um veículo espacial em órbita geoestacionária, o estágio superior usado permanece no espaço.

Quanto aos satélites no final de sua vida útil, a legislação espacial internacional obriga a retirá-los da órbita geoestacionária para uma órbita cemitério a centenas de quilômetros de altitude.

As nações líderes do setor espacial oferecem uma variedade de maneiras para combater a poluição orbital. Em meados de outubro, a agência espacial russa anunciou que iria investir US$ 2 bilhões no programa de coleta e neutralização dos detritos espaciais.

A corporação estatal espacial russa Enérguia anunciou os planos de construção de um "aspirador" espacial para retirar da órbita cerca 600 satélites em desuso. Seus testes serão realizados em 2020 e seu  lançamento está previsto para 2023. A Enérguia afirma ainda estar trabalhando em um projeto de interceptor espacial destinado a neutralizar objetos perigosos vindos do sistema solar exterior.

Enquanto isso, os cientistas russos estão focados em aperfeiçoar o sistema de rastreamento da situação no espaço sideral. No centro astronômico de Moscou, foi construído um novo sistema de rastreamento dos objetos espaciais e alerta para situações de emergência no espaço. Segundo o vice-diretor do centro, Anatóli Zaiats, o novo sistema acumula dados de quase todos os observatórios do mundo e é capaz de avisar antecipadamente sobre um eventual perigo para os veículos espaciais.

Ainda de acordo com Zaiats, esse sistema de alerta não tem equivalente na vertente civil das atividades espaciais e, no futuro, será usado para tratar diretamente o problema do lixo espacial. 

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