Ministério critica direitos humanos dos EUA

Vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguêi Riabkov. Foto: TASS

Vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguêi Riabkov. Foto: TASS

Vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia criticou duramente as autoridades norte-americanas na última segunda-feira (22) durante a apresentação de um relatório sobre direitos humanos nos países estrangeiros.

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguêi Riabkov, condenou o que o relatório descreveu como “condições cruéis nas prisões norte-americanas, pena de morte e maus tratos a crianças adotadas nos EUA”.

“As tentativas de Washington de ensinar princípios de democracia não têm fundamento”, disse Riabkov durante a reunião promovida pela Comissão de Assuntos Internacionais da Duma (câmara baixa do parlamento russo) sobre a situação dos direitos humanos nos EUA.

Recomeço ou retrocesso?


As relações russo-americanas têm mostrado sinais de desgaste desde o retorno de Vladímir Pútin à presidência neste ano, embora o governo do presidente dos EUA, Barack Obama, não tenha respondido agressivamente a retórica antiamericana por parte da Rússia ou às iniciativas russas para limitar a influência dos EUA no país. Obama, contudo, elogiou o reajuste da política entre os dois países como um de seus sucessos em política externa.

Riabkov reiterou um dos motivos para a ação mais significativa da Rússia para conter a atividade norte-americanas no país: a expulsão da Agência norte-americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), que foi seguida pela acusação de Pútin de que o departamento de Estado vinha financiando a oposição por meio de doações a ONGs. “A sociedade civil russa acordou e não precisa mais de incitadores”, disse Riabkov.

O relatório, apresentado na última segunda-feira (22) antes mesmo de ser lançado oficialmente, é o segundo trabalho de autoria do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia sobre os direitos humanos no exterior e foi exposto em meio à corrida presidencial nos EUA.

A primeira edição do relatório, lançada em dezembro do ano passado, foi vista por especialistas em relações internacionais como uma resposta a um documento semelhante publicado pelo departamento de Estado dos EUA que geralmente apresenta diversas críticas à postura russa.

A embaixada dos EUA, que enviou pelo menos um diplomata ao encontro de segunda-feira, disse que o país acolheu bem o diálogo sobre direitos humanos.

“O governo norte-americano sempre demonstrou disponibilidade para participar de diálogo aberto sobre democracia e direitos humanos ao redor do mundo. Como a nossa própria história demonstra claramente, discussões sinceras e factuais sobre essas questões fortalecem a democracia”,  declarou o porta-voz da embaixada Joseph Kruzich.

A maior parte da informação apresentada durante a audiência pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros foi cedida por organizações norte-americanas, como a Human Rights Watch. Inclusive, Konstantin Dolgov, funcionário do ministério responsável pela supervisão de direitos humanos, fez questão de esclarecer as fontes do estudo.

Espelhando-se nas críticas norte-americanas a uma suposta repressão do Kremlin contra manifestantes, Dolgov condenou ainda a “brutalidade policial” contra os participantes do movimento Occupy Wall Street, em Nova York.

O chefe do partido nacionalista Liberal Democrático, Vladímir Jirinóvski, aproveitou a oportunidade para criticar o embaixador dos EUA na Rússia, Michael McFaul, por não comparecer à reunião.

“McFaul poderia ter vindo, mas ele não gosta de ouvir duas horas de críticas dirigidas ao seu país”, disse Jirinóvski. “Mas seus diplomatas registraram tudo e irão contar a ele. Seu almoço será arruinado.”

 

Eleições à vista

O relatório do ministério foi apresentado duas semanas antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos, na qual Obama enfrenta o candidato republicano Mitt Romney, que recentemente chamou a Rússia de “inimigo geopolítico número 1 dos EUA”.

Mas Riabkov negou que o momento da audiência e da apresentação do relatório tivesse qualquer ligação com a votação do dia 06 de novembro, afirmando que qualquer tentativa de relacionar a proposta russa ao calendário político dos EUA seria “um golpe barato”.

Mas isso não impediu que os participantes da reunião deixassem de criticar o sistema eleitoral para presidência dos EUA e classificá-lo como “ultrapassado”.

Embora muitos especialistas preveem que as relações EUA-Rússia podem piorar se Romney vencer, Pútin elogiou o candidato republicano por ser um homem “direto e sincero” e disse que era grato a ele por ter articulado claramente sua posição em relação à Rússia.

O ex-deputado pelo partido Rússia Unida, Vladímir Semago, que também compareceu ao encontro da segunda-feira, acredita que a discussão foi um exemplo da política “fragmentada” da Rússia em relação aos EUA.

A opinião de Semago foi ecoada pelo analista de política externa Gueórgui Bovt, que descreveu a audiência como um “trabalho de relações públicas” de diplomatas e especialistas em relações internacionais.

“Quando você não tem nada para mostrar sobre a política norte-americana, basta tentar mostrar o quão patriota você é”, arrematou Bovt.

Publicado originalmente pelo The Moscow Times

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