“Fizeram de Assad um bicho-papão”

Foto: Serguêi Kúksin / Rossiyskaya Gazeta

Foto: Serguêi Kúksin / Rossiyskaya Gazeta

Em visita ao jornal russo Rossiyskaya Gazeta, chanceler russo fala sobre a continuidade do confronto na Síria e a falta de consenso entre os atores externos.

O conflito na Síria é um dos mais prolongados desde o início da Primavera Árabe. O poder no país continua dividido entre a oposição e o atual chefe de Estado, Bashar Assad. Paralelamente, a comunidade internacional continua enfrentando dificuldades para chegar a um consenso.

Enquanto os EUA e a União Europeia acreditam que o presidente Assad é a principal fonte de instabilidade no país e, portanto, sua renúncia é fundamental, a Rússia e a China consideram que tal atitude não é uma condição necessária para a restauração da paz no país.

Em visita à redação da Rossiyskaya Gazeta, jornal diário russo que detém o projeto RBTH e a Gazeta Russa, na última segunda-feira (22), o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguêi Lavrov, comentou sobre a continuidade do conflito e as razões pelas quais a comunidade internacional não consegue chegar a acordo sobre a situação na Síria. Confira a transcrição abaixo:

A Síria está na boca do mundo inteiro. É preciso fazer alguma coisa tanto no espaço mediático quanto no plano prático para dar fim ao derramamento de sangue no país. Infelizmente, slogans simplificados como aqueles que dizem que, “se não fossem a Rússia e a China, a paz teria se feito há muito tempo naquele país”, são metidos na cabeça dos cidadãos comuns e propagados. Na realidade, a situação é muito grave e toda a região está sendo afetada.

A Primavera Árabe é um fruto das sementes lançadas por George W. Bush e seu conceito de “Grande Oriente Médio” e democratização da região. Agora estamos colhendo os frutos dessa política de mudanças imposta externamente e não apoiada por quaisquer planos, previsões ou  avaliações a longo ou, pelo menos, a médio prazo. O pior de tudo é que essas iniciativas de mudanças e democratização não foram levadas ao conhecimento dos países da região.

Dissemos isso quando os acontecimentos da Primavera Árabe começaram. Ao mesmo tempo, pedimos insistentemente que os atores externos fizessem o possível para criar um cenário externo favorável para que as forças políticas de cada país árabe ou outro pudessem chegar a acordo sobre as vias de realização dessas mudanças. O mesmo foi dito no caso da Síria.

Fizeram de Assad um bicho-papão. Na verdade, todas as acusações categóricas lançadas contra o presidente sírio visam disfarçar um grande jogo geopolítico. Estamos assistindo a uma nova formatação do mapa geopolítico no Oriente Médio. Nesse processo, os diferentes atores estão tentando consolidar sua posição. Muitos deles têm na mira nem tanto a Síria, mas o Irã, e dizem sem rodeios que querem privar o Irã de seu aliado mais próximo, como Bashar Assad.

Se encararmos a presente situação de uma forma mais abrangente, veremos que aqueles que estão sinceramente interessados ​​na estabilidade da região e na criação de condições favoráveis à prosperidade da mesma (os recursos para tanto existem na região) devem abandonar a lógica de isolamento, aplicada atualmente em relação ao Irã e, antes, em relação à Síria, e optar por uma lógica de envolvimento. Para nossa tristeza, nossos parceiros ocidentais optam, em muitos casos, pela lógica de isolamento, instrumentos de coerção e sanções unilaterais e contornam o Conselho de Segurança das Nações Unidas para derrubar um governo.

Entendemos que tal política é contraproducente. As prescrições impostas externamente jamais darão um resultado estável e duradouro. Tal resultado só pode ser alcançado através de um diálogo. Esses princípios podem ser completamente aplicados em relação à situação na Síria.

Aplicando o princípio do envolvimento, defendemos, desde o início da crise, a ideias de todas as partes beligerantes pararem de praticar a violência e iniciarem um diálogo inclusivo com a participação de todos os grupos oposicionistas e do governo.

Foi por isso que, no ano passado, apoiamos a iniciativa da Liga Árabe de criar uma missão de observadores árabes na Síria. A iniciativa começou a trabalhar nesse país com a aprovação do governo sírio. Havíamos feito muitos esforços para persuadir o governo sírio a aceita-la. No entanto, assim que os observadores fizeram o primeiro relatório dizendo que a responsabilidade pela escalada de violência era não só das forças governamentais, mas também da oposição armada, a Liga Árabe infelizmente encerrou a missão.

Em seguida, veio o plano Kofi Annan que também previa o início de um diálogo, entre outras coisas. A fim de criar condições necessárias para sua concretização, foi proposto instalar no país uma missão de observadores da ONU. Com nossa ajuda, as candidaturas foram aprovadas pelo governo de Damasco. No entanto, assim que surgiram os primeiros resultados e a violência começou a diminuir, os observadores viraram alvo de provocações armadas. As condições no país ficaram tão difíceis para o funcionamento da missão que os observadores internacionais foram retirados.

Tem-se a impressão de que, assim que a situação começa a apresentar sinais de melhoria, alguém faz esforços para impedir que ela tome um rumo pacífico e fomenta o derramamento de sangue e a guerra civil na Síria.

Repito: a Rússia tem se esforçado para a Síria e todas as forças da oposição entenderem que o cessar-fogo e as negociações não têm alternativa. Por nossa iniciativa e de Kofi Annan, o Grupo de Ação se reuniu em 30 de junho, em Genebra, aprovando um acordo conhecido como comunicado de Genebra. Segundo o documento, as partes beligerantes devem cessar a luta armada enquanto todos os atores externos devem usar de sua influência sobre as partes do conflito para coagi-las a declarar simultaneamente o cessar-fogo e iniciar as negociações.

Esse comunicado foi aprovado por consenso e reflete a posição acordada entre todos os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Liga Árabe, Turquia, União Europeia e ONU. Bashar Assad acolheu favoravelmente o documento em causa e designou seu delegado às negociações. Já a oposição síria ignorou nosso apelo unânime lançado em Genebra e não designou seus negociadores nem aceitou o documento.

É especialmente triste ver que a oposição síria usa cada vez mais a tática de atentados terroristas. Ao contrário da prática tradicional criada há muito tempo, nossos parceiros ocidentais começaram a se recusar a condenar esses atos terroristas no Conselho de Segurança da ONU. Nossos parceiros norte-americanos chegaram ao ponto de dizer por intermédio do porta-voz de seu departamento de Estado que a permanência de Bashar Assad no poder só fomenta as tendências extremistas. Acredito que enfrentamos uma posição muito perigosa que pode ter efeito bumerangue e se virar contra seus autores.

Publicado originalmente pelo jornal Rossiyskaya Gazeta

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