Crise é lenta, mas regime cai rápido

Olga Krishtanóvskaia Foto: TASS

Olga Krishtanóvskaia Foto: TASS

Socióloga fala sobre riscos políticos dos protestos para o sistema político russo.

A socióloga Olga Krishtanóvskaia fala sobre os riscos políticos para regime russo em crise.

Seus discursos recentes são alarmantes. Por que você acha que a situação é explosiva?

A queda da União Soviética pode ser um exemplo. Ninguém previa um colapso iminente. Parecia que o sistema tinha enfraquecido, mas ainda era poderoso. 

A experiência de outras revoluções também mostra que a crise se forma lentamente, mas o regime desmorona rapidamente. Acontece um efeito dominó. Alguns elementos do sistema começam a cair e se torna impossível frear a derrocada. A única dúvida é o que será o estopim.

É impossível prever isso em uma situação instável?

Não é bem assim. Em primeiro lugar, as eleições podem ser o estopim. Todas as revoluções dos últimos anos foram engatilhadas pelas eleições. Isso aconteceu na Ucrânia, Geórgia, Quirguistão e no mundo árabe. 

Outro modo são os desastres causados pelo homem, especialmente quando a oposição convence a população de que o governo é responsável pelas catástrofes. 

Os desastres naturais também podem ser o estopim. O quarto fator são as problemas econômicos. O quinto é a arbitrariedade do sistema judicial.

Desastres acontecem, geram debates e descontentamento mas não levam às mudanças radicais. Todas as camadas da sociedade preferem o status quo...

Existe uma pirâmide de protesto. No topo estão os que querem tomar o poder, políticos revolucionários. Abaixo deles estão seus partidários e a juventude desesperada. Mais abaixo estão os ativistas. 

Depois ficam aqueles que simpatizam, especialmente pessoas mais cultas e universitários. E na base da pirâmide ficam grandes massas menos abastadas. 

Essa base ainda não está envolvida no protesto. Por que os líderes da oposição chamam as manifestações de "Marcha dos milhões"? Por que seu objetivo é atrair esses milhões de pessoas.

Quais devem ser os motivos para fazer com que milhões de pessoas saiam para as ruas?

No momento são poucos. Mas isso não significa que os manifestantes não possam atrair as camadas mais baixas da sociedade. Se essq quantidade de genre sair às ruas, a situação se tornará realmente perigosa. 

Essas massas são irracionais e espontâneas. Mas esta espontaneidade é dirigível, porque existem líderes ideológicos nos protestos. Para ações radicais é preciso de uma estrutura, unidades de combate, dinheiro, meios de comunicação e uma rede. Tudo isso já existe, só falta o estopim.

Se alguém começar a ação, o governo poderá impedi-la?

O regime sempre tem mais força e meios. No entanto, as revoluções continuam a ocorrer no mundo todo. Aparecem rachaduras no próprio poder. Já existe insubordinação no sistema e fragmentação das elites russas.

Neste momento, o governo prefere “abafar e prevenir” os protestos, não é?

É essencial tranquilizar as pessoas. Um líder forte restabelecerá a segurança das elites, punirá alguns, apoiará os outros e ajudará outros ainda. 

As forças de segurança sabem como lutar contra os elementos radicais. Mas a pergunta principal não muda: "O que acontecerá depois?". 

Os problemas causadores dos protestos não estão sendo resolvidos. É preciso modernizar o sistema, aumentar a flexibilidade do poder. Caso contrário, haverá uma explosão social.

Olga Krishtanôvskaya é autora do livro “Anatomia da elite russa” e professora honorária da Universidade de Glasgow.

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