O poder simbólico da Otan

Ilustração: Serguêi Iólkin

Ilustração: Serguêi Iólkin

Aliança internacional deixou de ser tanto ameaça insidiosa como parceiro cobiçado.

Recentemente, a Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Rússia recebeu uma conferência representativa em comemoração a duas datas: o 15º aniversário da assinatura da Ata Fundadora Rússia-Otan e o 10º aniversário do Conselho Rússia-Otan.

Durante o evento, a discussão tomou o rumo habitual das acusações recíprocas, embora a situação internacional nesse espaço de tempo tenha mudado muito.

A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) tem sido sempre objeto de polêmica na Rússia. Os tradicionalistas encaram todos os passos da Aliança como uma ameaça ao país. Enquanto isso, os reformadores contemplam as relações com o órgão internacional como um indicador para analisar se o país está caminhando na direção certa do “mundo civilizado”.

Assim, comunistas, esquerdistas e geopolíticos internos condenam o governo por se associar à Otan, e os liberais encaram a eventual adesão da Rússia à Aliança como a consolidação da “escolha civilizacional” do país em prol da “modernização”.

Porém, a Otan não atende mais aos anseios de seus seguidores nem às expectativas de seus oponentes. Embora seja a maior aliança político-militar do mundo, as numerosas tentativas de formular sua nova missão não tiveram resultado. Mais do que isso, a Aliança registra falta de disciplina entre seus membros, inconsistência ideológica e, nos últimos anos, escassez de recursos financeiros.

A tentativa de substituir o desenvolvimento qualitativo pela ampliação de atividades saiu pela culatra. A campanha no Afeganistão, a primeira operação fora de sua área de responsabilidade tradicional, virou uma antipropaganda do papel da Otan. É pouco provável que Washington consiga novamente mobilizar seus aliados europeus para uma nova campanha militar, sobretudo contra os países emergentes da região Ásia-Pacífico.

Para o Ocidente, a Otan assumiu, assim, um significado mais simbólico. É uma prova fictícia de que em meio aos caos mundial ainda existe algo inabalável e sublime, como as relações transatlânticas e os valores comuns.

A atitude da Rússia em relação à Aliança também traz consigo estereótipos ideológicos herdados dos períodos soviético e pós-soviético, como suspeita e admiração, respectivamente. O  problema é que fora do campo de conceitos nostálgicos as relações com a Otan não têm valor prático algum.

Diz-se que, no Afeganistão, os interesses da Rússia e da Otan coincidem. Até certo ponto, isso é verdade. Ambas as partes, cada uma por suas razões, estão interessadas na estabilidade no território afegão.

Mas, enquanto o interesse do lado ocidental se limita ao controle sobre a situação no país pelos próximos dois anos para garantir a retirada tranquila de seu contingente, a Rússia quer manter a situação estável no Afeganistão pelo maior tempo possível, ainda que isso signifique a permanência da Otan no país.

Portanto, ao contrário da cooperação situacional entre a Rússia e a Otan no Afeganistão, o único pretexto que poderia servir de base para uma parceria a longo prazo entre os russos e os norte-americanos se desloca para a região Ásia-Pacífico.

A Rússia e os EUA podem continuar discutindo o destino do Tratado CFE (sobre as Forças Convencionais na Europa) e da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) e as perspectivas do escudo antimíssil europeu até isso deixar de ser interessante a todos, menos para os diplomatas.

Seria mais prático, contudo, se as partes olhassem para a Ásia, onde muitos processos importantes e alarmantes estão se desenvolvendo, desde um rápido crescimento econômico até as disputas territoriais. Na região Ásia-Pacífico, elas têm muito menos contradições e a Otan não tem nenhuma relevância por simples razões geográficas.

Por isso, não faz mais sentido conferir à Otan qualidades de que a Aliança não dispõe mais. Esse órgão internacional não é mais uma ameaça insidiosa nem um parceiro cobiçado. Os contatos com a Aliança do Atlântico Norte são importantes para a imagem da Rússia no Ocidente, mas não têm importância prática.

Fiódor Lukianov é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs

 

Originalmente publicado pela Rossiyskaya Gazeta

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