Revendo o conceito de defesa antimíssil

Interceptores dos EU baseados no mar (Aegis). Foto: Divulgação

Interceptores dos EU baseados no mar (Aegis). Foto: Divulgação

Parcela europeia do escudo antimíssil norte-americano é ineficaz e cria tensão desnecessária na região, dizem especialistas.

O escudo antimíssil norte-americano já rendeu desentendimentos com a Rússia no passado. Mas Moscou continua tentando chegar a um consenso sobre o assunto.

"Ainda há tempo de chegarmos a um acordo", declarou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguêi Riabkov, no final de setembro. "Mas esse tempo não é ilimitado. Quando começarem as fases seguintes da criação [pelos EUA] de um sistema de defesa antimíssil global, a situação poderá mudar para nós", completa.

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O ministro acrescentou que Moscou necessita de garantias de que o escudo antimíssil não será apontado contra a Rússia, sob risco de uma ação de resposta do país para os EUA.

Só neste ano, Washington disponibilizou mais de US$ 10 bilhões para a construção do escudo antimíssil.

Em um comunicado, o Pentágono afirmou que "apoiando o programa de defesa antimíssil, a administração de Obama contribui para a estabilidade no mundo. O sistema irá defender os EUA e seus aliados contra os ataques com mísseis balísticos armados com ogivas nucleares ou convencionais".

O Pentágono falou na possibilidade de adquirir 46 mísseis interceptores baseados no mar SM-3 Block-1B e adaptá-los para que possam ser lançados a partir da superfície terrestre, além de elementos de infraestrutura para a construção de uma rampa de lançamento para mísseis Sm-3 na Romênia.

Leste Europeu


A intenção é criar uma base de mísseis na Romênia até 2015 e na Polônia, até 2018.

O descontentamento de Moscou não depende de modificações nos elementos do escudo antimíssil americano na Polônia ou em outros países.

A administração George W. Bush planejava instalar na Polônia 10 mísseis interceptores baseados em terra que poderiam neutralizar, ainda que parcialmente, os arsenais nucleares estratégicos da Rússia. Com aversão à iniciativa, figuras oficiais russas fizeram incontáveis declarações a esse respeito. 

Barack Obama refez os planos de seu antecessor. Assim, a Europa receberá, por enquanto, equipamentos para interceptar os mísseis táticos e tático-operacionais.

"Queremos que esse sistema seja transparente e que a Federação Russa tenha certeza que esse equipamento está sendo construído para atender aos objetivos declarados. Para tanto, iremos possibilitar inspeções", disse o chanceler polonês, Radoslaw Sikorski.

Já a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, declarou que o sistema "tem natureza defensiva e não representa ameaça para a Rússia".

"Queremos cooperar com nossos parceiros russos na questão da defesa antimíssil porque isso é de nosso interesse", disse Hillary.

Enquanto isso, Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), disse que as garantias de que o escudo não ameaça a Rússia foram estipuladas há mais de dez anos na Ata Fundadora Rússia-Otan de 1997.

É verdade. Mas, nesse caso, a Rússia pede garantias jurídicas dos EUA. Ao atender ao pedido russo, os EUA poderiam demonstrar que encaram realmente a Rússia como parceiro econômico e militar.

Entretanto, a eficácia do escudo antimíssil americano na "versão polonesa" causa muitas dúvidas. "A Polônia tem de criar seu próprio sistema de defesa antiaéreo e incorporá-lo ao sistema da Otan. Nossa participação no projeto americano foi um erro", disse o presidente polonês Bronislaw Komorowski em uma entrevista à revista Wprost.

Comando do botão vermelho

No comando do escudo antimíssil europeu, um pequeno grupo de militares de plantão passa a maior parte de seu tempo em frente a computadores.

Ali são coletados e analisados dados sobre possíveis lançamentos de mísseis. Mas nenhum dos plantonistas tem permissão para apertar o botão vermelho.

"Nosso sistema foi projetado principalmente para detectar se algum veículo voador foi lançado de algum lugar do mundo em direção ao território da Otan", explica o vice-comandante da Força Aérea da Otan, general Friedrich Wilhelm Pleger.

Por enquanto, as potencialidades do sistema de defesa antimíssil europeu são bastante limitadas.

"A intercepção só é possível se o míssil entrar na zona protegida por nosso equipamento. Se o míssil se infiltrar em uma área cuja proteção não é de nossa alçada, não podemos fazer nada", completa.

Além disso, não há a certeza de que o sistema de defesa antimíssil europeu seja eficaz, mesmo quando sua instalação estiver completa.

"A fase crítica começará em 2018, quando um novo sistema de defesa antiaérea com capacidade para atingir mísseis de longo alcance entrar em funcionamento”, diz Oliver Mayer, analista do  Instituto de Problemas da Paz e Política da Segurança, em Hamburgo.

“Não há nenhuma garantia de que esse sistema possa fazê-lo", arremata.

Aí os EUA precisarão de um parceiro confiável. 

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