Crise síria é um teste para a ONU

Serguêi Lavrov ante Assembleia Geral da ONU. Foto: mid.ru

Serguêi Lavrov ante Assembleia Geral da ONU. Foto: mid.ru

A discussão do conflito sírio na última sessão da Assembleia Geral da ONU não extravasou os limites de um duelo propagandístico. Em vez de estabelecer diretrizes para conter a escalada da violência, ONU simplesmente reafirma seu papel de árbitro nas disputas entre os líderes da política internacional.

Os chanceleres chegaram a Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU na semana passada num momento em que os esforços diplomáticos para resolver a crise síria chegaram a um impasse.

Enquanto a Rússia e a China vetaram três vezes o projeto de resolução do Conselho de Segurança para realizar uma intervenção militar externa na Síria, o plano do representante especial da ONU, Kofi Annan, falhou porque a oposição síria não aceitou dialogar com o regime de Bashar al-Assad.

Paralelamente, os acordos de Genebra, que previam a criação na Síria de um governo de transição, a revisão da constituição do país em referendo nacional e a realização de eleições multipartidárias, também não saíram do papel.

“Verificamos a tendência de alguns parceiros em rever os consentimentos alcançados e assumir uma pressão unilateral sem atentar ao fato de que na Síria existem grupos de pessoas muito bem armadas”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguêi Lavrov, nos bastidores da Assembleia.

Nesse contexto, é importante lembrar que Assad não é uma figura favorita em Moscou nem em Pequim. “Não estamos dizendo que ele é capaz de governar a Síria nem estamos procurando alguém que possa substituí-lo. Nossa intenção é garantir os direitos de todos os sírios, independente de sua etnia, assim como a estabilidade econômica e segurança do país”, acrescentou Lavrov.

Moscou sugere que todos os principais atores externos obriguem as partes sírias beligerantes a cessar fogo e começar um diálogo político, posição compartilhada pelos demais países do Brics (Brasil, Índia, China e África do Sul).

Mas a oposição síria é apoiada, pelo menos, moralmente, pelo Ocidente, e a guerra civil no país prossegue. Diante da inércia do Conselho de Segurança da ONU, os apelos para ignorar o órgão internacional vêm ganhando força.

Na última terça-feira (25), o emir do Qatar, xeque Hamad bin Khalifa Al Thani, afirmou que os países árabes devem pensar sobre uma intervenção militar na Síria, lembrando que, em 1976, as tropas da Liga Árabe entraram no Líbano para dar fim à guerra civil. “Essa intervenção foi eficaz e proveitosa”, salientou o líder.

A mesma opinião foi compartilhada por Hillary Clinton. “Em um momento quando assistimos a um derramamento de sangue cada vez maior, o Conselho de Segurança está ocioso. Estou exortando a tentar outra vez encontrar uma maneira de chegar a um acordo para acabar com a violência”, repetiu a norte-americana.

No entanto, ainda que as posições de Moscou e Pequim sejam alvo de críticas, os EUA, Reino Unido, França e a maioria dos países árabes não se atrevem a ignorar a ONU e a agir sem sua aprovação, como ocorrido antes no Iraque.

Por mais ineficaz que pareça, a única alternativa ainda é um consenso e as ações conjuntas dos países membros da ONU. “Parafraseando a famosa frase de Churchill sobre a democracia, posso dizer que a ONU não é perfeita, mas até hoje ninguém inventou nada melhor”, disse Lavrov em uma entrevista antes de partir para os EUA. 

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