A história na memória dos intérpretes

Foto: Flickr / koraxdc

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Na última quarta-feira (26), o Clube do Regimento Presidencial do Kremlin de Moscou sediou as celebrações do Dia Internacional do Tradutor. Intérpretes dos chefes de Estado da URSS e da Rússia estiveram no Kremlin, ou mais precisamente voltaram ao Kremlin, onde relembraram histórias memoráveis.

Posando diante da exposição fotográfica “A história em tradução”, em que líderes de várias nações aparecem ao lado dos homenageados no evento, os tradutores trocaram lembranças vívidas com evidente entusiasmo.

Em uma mesa-redonda, Andrêi Tsibenko, intérprete que recentemente trabalhou com Vladímir Pútin e Dmítri Medvedev, lembrou o episódio mais difícil de sua carreira, quando teve de traduzir a famosa resposta de Pútin a respeito do submarino “Kursk”: “Ele afundou”. Isso aconteceu no estúdio do canal CNN.

Tsibenko foi colocado em uma sala à parte e não recebeu os fones de ouvido na hora certa. A primeira frase que escutou foi essa e teve de adivinhar o contexto. Aproveitando o ensejo, o intérprete reiterou a importância de estudar e tentar entender de tudo, pois “nunca se sabe o que vai ser útil”.

“Na Universidade Estatal de Linguística de Moscou Maurice Thorez, estudamos a história do Kremlin. Quando surgiam aquelas pausas incômodas durante a visita de convidados ilustres ao Kremlin, preenchíamos o silêncio com relatos históricos, algum enredo bíblico e assim dávamos aos convidados uma ideia de onde eles estavam”, conta o intérprete.

O lendário Víktor Sukhodrev, que trabalhou com Nikita Khruschov e Leoníd Brejnev, primeiros-secretários da URSS, completou que é também essencial “traduzir corretamente, observando a gramática”. Segundo ele, é preciso conhecer bem a língua, não ter medo de falar em público e ser capaz de tomar decisões em segundos.

Sukhodrev foi o primeiro agraciado com o prêmio “Tradutor do ano”, instituído pela Empresa Russa de Tradução e entregue pela primeira vez na ocasião da última quarta-feira.

Durante o evento, o premiado recordou uma história triste da vida do líder soviético Brejnev. “Em 1979, ele já não discursava, só lia textos previamente preparados”, disse.

Em um encontro com o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, ele teria de responder a algumas perguntas, cujas respostas haviam sido preparadas com antecedência.

“Para cada pergunta, havia uma resposta curta e outra longa, dependendo do modo como Carter faria o questionamento. O presidente dos EUA formulou uma pergunta curta, e eu entreguei a Brejnev a resposta longa. Mas ele não entendeu direito a dinâmica. Acabamos travando um diálogo alto porque, naquela época, a audição de Brejnev já estava muito ruim. Foi um tanto vergonhoso”, contou Sukhodrev

Sukhodrev falou também sobre sua relação com outros líderes da URSS. Ele chamou Kosiguin, presidente do Conselho de Ministros da URSS de 1964 a 80, de “o mais intelectualizado e mais culto” da cúpula soviética.

Com Khruschov, o intérprete manteve boas relações pessoais, “apesar de todas as suas características revoltantes”. Segundo o intérprete, Nikita Khruschov era quem dava mais trabalho, pois costumava ler só o início do que fora previamente preparado, depois deixava o papel de lado e falava livremente, enchendo o discurso de provérbios, ditados e expressões populares, sempre difíceis para o tradutor.

Para finalizar, os homenageados conversaram ainda sobre as diferenças no trabalho na época soviética e nos tempos atuais, evidenciando a dificuldade de trabalhar horas a fio em viagens longas.

O Dia Internacional do Tradutor é comemorado em 30 de setembro, mas nessa data os principais tradutores russos estarão em Kazan, onde será realizado o 4o Fórum de Colaboradores e Dirigentes de Agências de Tradução.

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