“No final do século é possível que todos queiram marcar presença na Lua”

Projetos Luna-Glob Ilustração: Divulgação

Projetos Luna-Glob Ilustração: Divulgação

Especialista reafirma planos russos de criar base permanente na superfície do satélite da Terra.

Nos últimos tempos, muito se falou sobre a Lua como prioridade do programa espacial russo. Alguns especialistas da área já expuseram, inclusive, o desejo das autoridades de instalar uma base permanente em sua superfície.

Para entender o quão realistas são esses planos, a Gazeta Russa conversou com Ígor Mitrofanov, um dos diretores do Instituto de Pesquisas do Cosmos, departamento que integra a Academia de Ciências da Rússia.

Mitrofanov é um dos coordenadores do grupo responsável pela determinação de locais de pouso de módulos lunares e outros parâmetros importantes de tais expedições.

Gazeta Russa: Algumas autoridades prometeram recentemente dar início às atividades de exploração da Lua. Primeiro foi a vez do presidente da agência espacial russa Roscosmos, Vladímir Popóvkin, e depois do vice-premiê Dmítri Rogózin. Os especialistas estão realmente considerando a instalação de bases lunares?

Ígor Mitrofanov: Sem dúvida, o objetivo mais imediato no espaço deve ser a Lua. É praticamente o continente espacial da Terra. Eu acho que a sua exploração terá início neste século. Haverá bases na Lua assim como hoje temos bases e estações na Antártida.

Gostaria de lembrar que mandamos dois veículos lunares que recolheram amostras do solo da Lua. Os conhecimentos da época soviética não se perderam e, tudo que os nossos antecessores conseguiram fazer, também temos condições de desenvolver.

GR: No programa russo atual, há no momento apenas dois projetos relativos à Lua, o Luna-Glob e o Luna-Ressurs. Em que fase eles se encontram atualmente?

I.M.: No início deste ano, houve mudanças na concepção dos projetos após a análise do fracasso do lançamento da [sonda] Fobos-Grunt. As lições foram aprendidas. Em poucos dias, terminamos os testes de modelos tecnológicos de aparelhos dos módulos de pouso e logo passaremos aos testes dos complexos.

Em 2015, o Luna-Glob deve pousar na Lua e, no ano seguinte, serão feitas pesquisas a partir da órbita. Já em 2017, haverá o pouso de um aparelho mais pesado, o Luna-Ressurs.

Estamos criando, de fato, uma plataforma de trabalho para estudo e desbravamento da Lua. Prevemos o recolhimento de amostras do solo lunar e a sua comparação com as amostras coletadas no século passado.

Estamos considerando uma profundidade de dois metros para a amostragem do solo. Além disso, é preciso tomar cuidado para não perder substâncias voláteis. Lá pode haver água.

 

GR: Na empresa aeroespacial NPO Lavotchkin, existe o projeto “Polígono lunar”, que pressupõe uma base robotizada desenvolvida. Ele ainda é visto como o próximo passo?

I.M.: Eu participei da análise desse projeto. Aprendi uma ótima lição com o trabalho do [pai da cosmonáutica soviética Sêrguei] Koroliov. Ele procurava fazer de cada projeto um degrau para o seguinte. Devemos propor a concretização do polígono a partir do desenvolvimento dos projetos atuais.

Um exemplo: no aparelho de 2015, será instalado um radiofarol que vai continuar funcionando depois que o próprio aparelho estiver desativado.

Ao escolher os lugares de pouso, levamos em conta a potencial conveniência para futura ampliação da infraestrutura. A primeira pequena contribuição são os radiofaróis. Se o local do pouso for interessante, então será possível enviar um veículo lunar de maior porte para a coleta de solo.

Depois, será a vez de robôs para fornecimento de energia. Se houver possibilidade de obter água, serão enviados autômatos para recolher a água e obter dela oxigênio e hidrogênio.

GR.: Não seria melhor aplicar os recursos no desenvolvimento de substâncias mais baratas para lançamento em órbita e só depois pensar em bases lunares?

 

I.M.: Eu tento, com todas as forças, lutar com o estereótipo de que as bases são caras. É claro que o programa tem de ser elaborado com o cálculo dos gastos. Não é necessário retomar a corrida à Lua, como na década de 1960, quando liberavam vários aparelhos em seguida e lançavam foguetes em ritmo de tiros de metralhadora.

Mas temos de lembrar que os primeiros projetos, dos quais estou falando, custam em torno de 10 milhões de rublos (aproximadamente 333 mil de dólares). Se falarmos dos objetivos, trata-se de um valor irrisório. É importante lembrar também que o dinheiro não vai para a Lua; ele fica aqui, na infraestrutura, nos postos de trabalho, nos novos materiais.

Todos já esqueceram que a internet, por exemplo, é um dos produtos do programa “Apolo”. A tecnologia surgiu naturalmente para as necessidades desse programa. Agora parece que ninguém precisa da Lua, mas, no final deste século, pode ser que todos tenham planos de marcar lá a sua presença. Isso já aconteceu com o Ártico, agora está acontecendo com a Antártida.

GR.: Sendo realistas, qual país tem mais chances de ser o primeiro a enviar seus cidadãos para a Lua no século 21?

I.M.: Essa pergunta depende da visão de mundo. Eu considero que seria muito correto se a Estação Internacional na Lua fosse um projeto internacional, subsequente à atual Estação Espacial Internacional. Então, não seria importante a nacionalidade da pessoa que vai pisar na superfície do satélite pela primeira vez.

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