O cárcere soviético nos contos de Varlam Chalámov

Varlam Chalámov no campo de trabalhos forçados soviético. Foto: Divulgação

Varlam Chalámov no campo de trabalhos forçados soviético. Foto: Divulgação

O poeta russo Varlam Chalámov passou vinte anos em cadeias e campos de trabalhos forçados soviéticos. Descreveu sua experiência de condenado em Contos de Kolimá. Não há testemunho mais contundente do que a sua própria voz. Vai neste post a tradução de trechos de seus contos.

Sobre Contos de Kolimá, Varlam Tikhonovitch Chalámov (1907-1982) escreveu: “é uma tentativa de colocar e solucionar questões morais importantes em nossa época, questões que simplesmente não podem ser resolvidas em outros materiais. A questão do encontro do ser humano com o mundo, da luta da pessoa com a máquina do Estado, a verdade dessa luta, da luta em defesa de si mesmo”.

Em “O que vi e compreendi no campo de prisioneiros”, Chalámov lista 46 itens desenvolvidos literariamente em seus contos, e é com eles que abro os trechos selecionados.

 

Item 8. Vi que o único grupo de pessoas que consegue manter um pouco da humanidade diante da fome e dos ultrajes, são os religiosos, praticamente todos os que pertencem a seitas e grande parte dos sacerdotes ortodoxos.

“Quando destronquei o pé ao escorregar e cair da escada de varas no poço de sondagem, a chefia percebeu que eu ia mancar por bastante tempo e, como era proibido ficar à toa, mandaram-me trabalhar de ajudante do marceneiro Adam Frizorguer, o que deixou nós dois, Frizorguer e eu, muito contentes.” [...]

“Todos os dias, de manhã e de noite, Frizorguer rezava em silêncio, afastado de todos, com o olhar no chão; se tomava parte das conversas gerais, era apenas sobre temas religiosos, ou seja, muito raramente, pois detentos não gostam desses assuntos.” [...]

“Nossos catres ficavam próximos, conversávamos com frequência, e às vezes Frizorguer surpreendia-se e agitava as mãozinhas, como uma criança, ao descobrir que eu conhecia alguma das histórias populares do evangelho.” (“O apóstolo Pável”, 1954)

Item 18. Eu compreendi porque o ser humano vive não de esperanças, não há esperança alguma, nem da força de vontade, que força seria essa?, mas do instinto, do senso de autoconservação, do mesmo princípio que há na árvore, na pedra, no animal.

“Eu sabia que nunca me mataria porque já colocara à prova o instinto de sobrevivência. Pouco tempo antes, num poço como esse, só que mais fundo, havia soltado uma pedra grande com um golpe da picareta. Por muitos dias, fui liberando com cuidado aquele peso terrível. Daquele peso ruim pensei criar algo maravilhoso, como dizia o poeta russo. Pensei salvar minha vida, quebrando a própria perna. Na verdade, a intenção era maravilhosa, um fenômeno inteiramente natural. A pedra desabaria e partiria a minha perna. E eu: inválido para sempre! Esse sonho apaixonante foi submetido a cálculos; preparei o lugar onde colocar a perna, previ como virar de leve a picareta, então a pedra desabaria. Chegaram o dia, a hora e o minuto determinados. Coloquei a perna direita sob a pedra pendente, elogiei a própria calma, ergui o braço e virei a picareta alojada sob a pedra como uma alavanca. A pedra deslizou pela parede para o lugar calculado e esperado. Mas não sei como isso aconteceu: puxei a perna. No poço estreito, a perna ficou amassada. Duas equimoses, três arranhaduras: eis aí todo o resultado de um negócio tão bem preparado.” (“Chuva”, 1958)

Item 32. Estou convencido de que os campos de prisioneiros, todos eles, são uma escola negativa; passar neles uma hora que seja é uma defloração. O campo de prisioneiros não dá, nem pode dar, nada de positivo a ninguém. Sobre todos, encarcerados e trabalhadores contratados, o campo age de modo deflorador.

“Savielev aproximou-se de um tronco de larício curto e grosso, em que sempre cortávamos a lenha; o tronco estava retalhado, a casca, toda arrancada. Ele colocou a mão esquerda sobre o tronco, abriu os dedos e ergueu o machado.

O capataz deu um grito esganiçado e penetrante. Fiedia lançou-se na direção de Savielev; quatro dedos voaram e caíram sobre a serragem; em meio a galhos e estilhaços, não eram vistos logo de cara. Um sangue rubro jorrou dos dedos. Fiedia e eu rasgamos a camisa de Ivan Ivánovitch, apertamos um torniquete na mão de Savielev, amarramos a ferida.

O capataz levou todos nós para o campo de prisioneiros. Savielev à enfermaria, para um curativo, e à seção de investigação, para o início do processo por automutilação. Fiedia e eu voltamos para a mesma barraca de onde tínhamos saído duas semanas antes com tantas esperanças e expectativas de felicidade.” (“Ração seca”, 1959, sobre a reação de Savielev ao suicídio de um colega durante um trabalho de derrubada de árvores)

Item 34. A repressão atingia não apenas a cúpula, mas todas as camadas da sociedade, em qualquer aldeia, em qualquer fábrica, em qualquer família, havia parentes ou conhecidos golpeados pela repressão.

 

“Fiedia Schapov, adolescente da república de Altai, acabou-se antes dos outros, pois seu corpo semi-infantil ainda não se fortalecera. Por isso ele aguentava umas duas semanas menos do que os outros, logo ficava sem forças. Era filho único de uma viúva e fora condenado por abate ilegal de rebanho: apunhalara uma única ovelha. Os abates eram proibidos por lei. Fiedia recebeu dez anos de pena; o trabalho acelerado na lavra de ouro, em nada parecido com as atividades da aldeia, era pesado para ele. Fiedia encantava-se com a vida livre da marginalidade prisional, mas sua natureza o impedia de se aproximar dos bandidos. A origem camponesa saudável, o amor que lhe vinha naturalmente, em vez da aversão, repetidas vezes o ajudou bastante.” (“Ração seca”, 1959)

 

Os Contos de Kolimá serão publicados em seis volumes, pela Editora 34, a partir de 2013.

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