Embargo não é obstáculo

Foto: Getty Images

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Enquanto Rússia diminui importações do Brasil e aumenta produção, seca pode virar o jogo para exportadores ao país.

O mercado russo de carne continua a mudar rapidamente. Desde a crise financeira internacional de 2008, a importação da carne de aves caiu para quase um quarto – de 1,252 milhão de toneladas em 2009 para 330 mil em 2012.

“O acontecimento mais marcante neste ano foi o primeiro registro de aumento no número de cabeças de gado nos últimos vinte anos, ou seja em 20,9 milhões de unidades, ou 1% a mais do que o indicador de 2011”, disse à Gazeta Russa a analista do portal Meatinfo.ru, Anna Evangueléieva.


Apesar disso, o Serviço Alfandegário Federal surpreendeu o mercado ao anunciar um crescimento significativo na importação de carne de aves desde o início do ano. De janeiro a julho, o aumento chegou a quase 40%, o que contradiz informações anteriores sobre a intensificação da produção interna e redução da dependência externa. 


Em termos financeiros, o crescimento foi ainda mais impressionante, e o país injetou 60% a mais na importação de carne. 


Mas esse crescimento é explicado pelo embargo ao produto norte-americano pela Rússia em 2010. Assim, durante os primeiros quatro meses do ano passado, observou-se uma queda significativa no fornecimento, que gerou indicadores altos nas importações nos primeiros sete meses de 2012.


A produção avícola continua sendo o segmento que mais cresce na produção agropecuária russa. De acordo com dados oficiais do Ministério da Agricultura da Rússia para o setor, o balanço deste ano deve estar em 3,5 milhões de toneladas, ou seja, 10,3% a mas que em 2011.


Desde 2006, mais de 400 pontos de criação avícola foram retomados no país e a produção desse tipo de carne mais que dobrou, de acordo com o ministro de Agropecuária da Federação Russa, Nikolai Fiodorov. 

Estrangeiros

 


O desenvolvimento do setor chamou a atenção de redes estrangeiras de supermercados. No primeiro semestre deste ano, por exemplo, a francesa Auchan, líder no país, se propôs a distribuir o produto de um dos maiores pecuaristas da França se esse se dedicasse à criação no próprio território russo. 


O objetivo, segundo a rede, é suprir o mercado de carne vermelha e branca resfriadas, das quais hoje ele carece, já que os os russos não podem assegurar seu fornecimento regular durante o ano todo devido a problemas de logística. 


“A ênfase estaria justamente na produção de carne na Rússia, uma vez que os consumidores russos preferem o produto nacional”, explica a porta-voz da companhia no país, Maria Kurnôssova.


Segundo ela, os investimentos seriam da ordem de milhões de dólares e dariam retorno em um período que pode variar de 5 a 15 anos. Os consumidores russos parecem concordar com a lógica da companhia. 

“A carne russa é melhor, é mais natural”, diz a médica Olga Issakova, 35, em uma feira moscovita. “Eu quero carne resfriada, não congelada, e importar carne resfriada é impossível”, completa. 

“Eu compraria a carne de um só produtor, se eu confiasse na sua qualidade”, diz a dona de casa Svetlana Smirnova, 27. 

Produto brasileiro  


Em segundo lugar entre os exportadores de carne para a Rússia, atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil forneu ao país um total de 40,4 mil toneladas neste ano, ou seja, 19% a m enos que no período correspondente em 2011.


“Em 2010, o Brasil ocupou 29% do total de importações de carne e derivados pela Rússia. Essa participação caiu para 25% no ano passado e, nos primeiros meses de 2012, fechou em apenas 19%”, explica Evanguelêieva. Segundo ela, a queda se explica pelos embargos periódicos aplicados sobre o Brasil pela Rússia devido a problemas no controle das medidas fitossanitárias exigidas.


No final de agosto, uma missão de especialistas da Vigilância Sanitária russa desembarcou no Brasil para inspecionar 20 estabelecimentos produtores de carne bovina, suína e de aves. Até o fechamento desta reportagem, mais de um mês depois da missão, a Rússia ainda não havia divulgado seus resultados. 


Corte geral 


A redução das importações brasileiras pela Rússia ocorre em praticamente todos os segmentos de carnes. Embora mantenha a posição de líder no setor bovino (como antes, a participação brasileira no setor é de mais de 40%), o Brasil apresenta uma diminuição de 29% nas exportações dos primeiros sete meses de 2012, quando entraram na Rússia 118 mil toneladas de carne. 


De acordo com Evangelêeiva, a carne suína brasileira ficou ainda mais escassa na mesa russa. Em comparação com o ano passado, o volume de importações dessa caiu 49%, de 117 mil toneladas entre janeiro e julho de 2011, para 59 mil toneladas no mesmo período de 2012. Hoje, a participação do produto brasileiro no volume total das importações de carne suína da Rússia é de 16%.


“Precisamos de qualidade. Não digo que a carne brasileira é ruim: tem boa e tem ruim, mas eles vendem a boa para outrem”, disse à Gazeta Russa o médico-sanitarista-chefe da Federação Russa, Serguêi Onischenko.


Com a entrada da Rússia na OMC (Organização Mundial de Comércio), porém, muita coisa deve mudar, já o país terá que modificar as políticas de regulação do mercado e derrubar cotas. 

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