Novos tempos pedem aliados novos

Ilustração: Sergêi Iólkin

Ilustração: Sergêi Iólkin

O “Relatório sobre Terrorismo nos Países em 2011” divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA em julho deste ano, destaca “o separatismo, o ódio étnico, o banditismo e a ideologia extremista” como fatores favoráveis às atividades terroristas na Rússia. Especialistas locais contestam, entretanto, as limitações do documento e propõem o fortalecimento da parceria Rússia-EUA como melhor estratégia para combater o terrorismo internacional.

 

“Os autores desse relatório focaram na situação presente há 10 anos, quando o separatismo no Cáucaso Setentrional era o principal fator estimulante das atividades terroristas na Rússia”, argumenta o analista político Dmítri Oréchkin, ao expor que as lacunas da lista apresentada.

A influência crescente do wahhabismo, uma das formas mais agressivas do fundamentalismo islâmico é um dos aspectos que, segundo o especialista, foi ignorado governo norte-americano ao redigir o documento.

“O recenteatentado terrorista na república russa do Tartarstão, na região do rio Volga, contra o xeque Ildus Faizov é uma prova disso”, aponta Oréchkin. O próprio comitê de investigação responsável pelo caso não descarta que o duplo atentado tenha sido organizado pelos wahhabitas.

“O atentado no Tartarstão extravasa os conceitos traçados no relatório do Departamento de Estado. O mais provável é que tenha como causa o extremismo religioso”, acrescenta Andrêi Iachlavski, do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia de Ciências da Rússia.

Fato é que norte-americanos e russos estão juntos no combate ao terrorismo. “A ameaça terrorista enfrentada pelos Estados Unidos é também perigosa para a Rússia e vice-versa. Por isso, os serviços secretos, especialistas e políticos dos dois países devem unir forças”, continua Iachlavski.

A cooperação entre os EUA e a Rússia nessa área poderia e deve ser mais produtiva, eficaz e multidisciplinar. Mas nem tudo vai bem nas relações entre nossos dois países. “E, infelizmente, isso também afeta a cooperação no combate ao terrorismo”, lamenta Iachlavski.

Ainda assim, o relatório Departamento de Estado fala sobre a aparente aproximação entre os EUA e a Rússia ao citar a assinatura do acordo bilateral de cooperação no combate ao terrorismo entre os ministérios da Defesa de ambos os países em 2011.

Os exercícios militares conjuntos realizados no Colorado, em maio passado, são um exemplo da iniciativa. Na ocasião, ambos os exércitos foram treinados em operações para eliminação de bases de terroristas.

Apesar de o documento destacar a melhoria da cooperação russo-norte-americana por meio das organizações de inteligência de ambos os países, não há qualquer menção sobre um auxílio americano aos esforços da Rússia na luta contra os grupos terroristas no Cáucaso.

Isso mostra que a cooperação antiterrorista entre os dois países está se desenvolvendo a passos lentos. Afinal, a inteligência americana poderia usar seu grande potencia para fornecer aos serviços secretos russos dados necessários e, assim, salvar muitas vidas.

Nesse contexto, cabe lembrar quando, em 2003, a justiça norte-americana prendeu, graças à ajuda dos serviços secretos russos, um indivíduo que tentava vender nos EUA um lote de 50 unidades dos sistemas de mísseis portáteis. O então presidente dos EUA, George W. Bush, enviou uma carta ao diretor do FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia), Nikolai Pátruchev, agradecendo à parte russa suas “ações rápidas e altamente eficazes” durante a operação conjunta com o FBI.

Infelizmente, a reciprocidade dos Estados Unidos parece estar fora de questão. Os representantes do serviços secretos da Rússia manifestam, informalmente, a esperança de que, um dia, o processo saia do ponto morto e que o próximo relatório do Departamento de Estado dos EUA contenha disposições relativas a uma assistência real dos norte-americanos. 

Andrêi Kisliakóv - analista da emissora “Voz da Rússia”

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