O cárcere na literatura russa

Fiódor Mikháilovitch Dostoiésvki

Fiódor Mikháilovitch Dostoiésvki

Recordações da casa dos mortos, Ilha Sacalina, Arquipelágo Gulag e Contos de Kolimá – quatro relatos do cárcere nas letras russas de Dostoiévski, Tchékhov, Soljenítsin e Chalámov ao longo de dois séculos.

Num fim de semana em Piracicaba, num grupo de amigos, sob uma estonteante primavera em flor, começamos a falar de Fiódor Mikháilovitch Dostoiésvki (1821-1881). O motivo: uma tradução de Recordações da casa dos mortos (1861), publicada em 1936 pela Civilização Brasileira. O livrinho de páginas amareladas, guardado na gaveta da sala, veio à tona por causa de expressões e palavras inusitadas, que discutimos ali na hora e agora Marlei tem me mandado gentilmente por e-mail, à medida que avança na leitura. “De quatro costados”, “de uma feita”, “mui pesado”, “dubitação”, “chelpa”... Marcas do tempo e peculiaridades linguísticas do tradutor, revisor ou editor em traduções merecem um post especial. Por enquanto, vamos ficar com o tema do livrinho amarelado.

Recordações da casa dos mortos, na tradução de Nicolau S. Peticov para a editora Nova Alexandria, ou Memórias da casa dos mortos, na tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes para a Nova Aguilar (reeditada pela L&PM num livrinho de bolso), começa com uma Introdução que explica a origem da história narrada: um conjunto de casos singulares, escritos de modo bem particular por Aleksandr Goriântchikov. Condenado a dez anos de trabalhos forçados na Sibéria pelo assassinato da mulher, Goriântchivov deixa manuscritos sobre a sua vida na prisão que são publicados após a sua morte.

O relato baseia-se nas experiências do próprio Dostoiévski. Em abril de 1849, ele foi preso por participação no Círculo de Petrachévski, grupo de intelectuais que discutiam as principais questões políticas da época. Para julgar o caso, o tsar Nicolau I convocou um tribunal especial, que condenou quinze dos acusados, inclusive Dostoiévski, à pena de morte. No dia da execução, todos estavam sobre o patíbulo, aguardando o fuzilamento, quando o pelotão baixou os fuzis. Em vez dos tiros, eles ouviram a leitura do perdão do tsar e as respectivas penas substitutivas. Dostoiévski cumpriria então quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria.

Para o professor, crítico e tradutor Boris Schnaiderman, Dostoiévski é o grande representante da ficcção-documental e Recordações da casa dos mortos, a sua obra em que mais se evidencia a relação entre literatura e realidade histórica.

Segunda edição (1862) de Recordações da casa dos mortos na Rússia. Fotografia publicada no site da Casa de Leilões Imperia. Foto: auction-imperia.ru

O tema das prisões, casas correcionais e campos de degredo e trabalhos forçados aparece também em obras de outros escritores russos. Em julho de 1890, Anton Pávlovitch Tchékhov (1860-1904), mais conhecido entre nós como contista e dramaturgo, viajou ao extremo oriente da Rússia para registrar as condições de vida na colônia penal da ilha Sacalina, situada entre os mares de Okhotsk e do Japão. Em três meses de contato direto com moradores, degredados, condenados a trabalhos forçados, funcionários públicos e autoridades, Tchékhov recolheu material para os 23 capítulos de Ilha Sacalina (1895), que mistura pesquisa acadêmica, jornalismo e literatura e contém relatos de viagem, trechos de conversas com moradores e prisioneiros, descrições geográficas, dados etnográficos, informações sobre as condições de saúde da população...

Aleksandr Issáievitch Soljenítsin Foto: wikipedia.org

No século XX, o Arquipélago Gulag (1973), de Aleksandr Issáievitch Soljenítsin (1918-2008), denunciou os campos de trabalhos forçados soviéticos, documentando em quase seiscentas páginas episódios ocorridos de 1918 a 1956. No início do livro (p. 11 da edição brasileira do Círculo do Livro, com tradução de Francisco A. Ferreira, Maria M. Llisto e José A. Seabra), Soljenítsin comenta assim a publicação de outros testemunhos: “Quando comecei a escrever este livro, no ano de 1958, não tinha conhecimento de quaisquer memórias ou produções literárias sobre os campos de concentração. Nos anos de trabalho que decorreram até 1967, fui tomando conhecimento, gradualmente, das Narrativas de Kolimá, de Varlam Chalámov, e das memórias de D. Vitkóski, E. Guinsburg e O. Adámova-Sliozberg, a cujos trabalhos me refiro no decorrer da exposição como fatos literários conhecidos por todos (assim há de ser, no fim de contas).”

Varlam Tikhonovitch Chalámov Foto: wikipedia.org

Em breve, Varlam Tikhonovitch Chalámov (1907-1982) será fato literário também no Brasil. O professor e tradutor Nivaldo dos Santos e eu estamos trabalhando na tradução dos Contos de Kolimá (1972), cujo primeiro volume deve sair no ano que vem, pela Editora 34. Como projeto da vez, é claro que ele vai merecer umas palavrinhas a mais, no próximo post.

Quem quiser se adiantar pode assistir o curta de imagens do campo stalinista de Butugitchag, fotografado por Iúri Gorlov e Anatoli Agueiev em meados da década de 1980, depois da desativação:

Ou então dar uma olhada no site dedicado a Varlam Chalámov em inglês.

Na próxima semana: o cárcere soviético nos contos de Varlam Chalámov

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