Marcha dos Milhões reúne 14 mil pessoas no centro de Moscou

Foto: Sukhúchin / Gazeta Russa

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Neste sábado (15), a mais recente Marcha dos Milhões reuniu, pelo menos, 14 mil pessoas na avenida Sakharov, em Moscou. Contudo, o movimento deixou muitos se perguntando qual será o futuro dos protestos da oposição que começaram como um movimento em prol de eleições honestas.

Fotos: Sukhúchin / Gazeta Russa

Os policiais temiam uma onda de conflitos durante o evento, uma vez que os oposicionistas preparavam um contingente mais radical após o veredito concedido ao grupo punk feminino Pussy Riot no mês passado e a pressão de líderes da oposição como Guennádi Gudkov, que foi afastado de seu cargo no parlamento na última sexta-feira (14). Mas a marcha deste sábado foi pacífica e quase “entediante”, de acordo com alguns observadores que relataram a repetição de slogans.

“Esse tipo de protesto deve ser motivado por alguma razão – você não pode simplesmente sair na rua para dizer que [o presidente Vladímir] Pútin é culpado por tudo”, diz Olga Krichtanovskaia, socióloga que recentemente deixou o partido pró-Kremlin Rússia Unida para estudar o que chama de “revolução”.

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“Essas manifestações eram mais emocionantes quando se tratavam de algo novo e inesperado. Hoje em dia, meus pesquisadores notaram que a idade média dos participantes subiu e as pessoas estavam comparecendo ao protesto como se estivessem ao trabalho”, completa.

De acordo com os relatórios oficiais da polícia, cerca de 14 mil pessoas estiveram presentes no auge da manifestação. O líder da Fronte de Esquerda, Serguêi Udaltsov, que usava óculos escuros “para expressar sua ira” ao subir ao palco, declarou que existiam, ao menos, 100 mil pessoas reunidas no local.

No final do evento, momento em que as pessoas começaram a se dispersar, os líderes do movimento leram uma resolução com as exigências, que incluíam a renúncia do presidente Vladímir Pútin, eleições antecipadas e a libertação de, pelo menos, uma dúzia de manifestantes detidos durante a ação do dia 6 de maio.

Proteção reforçada

A segurança durante o protesto foi reforçada, com a polícia de choque e as tropas de interior alinhadas ao longo da avenida Sakharov. Havia receio da repetição de atos violentos ocorridos na primeira Marcha dos Milhões, em maio, quando diversas pessoas foram feridas em confrontos.

“Não permitimos que as coisas saíssem do controle”, afirmou um integrante da polícia de choque que preferiu não ser identificado, ao confirmar a ocorrência de confrontos durante o protesto deste sábado. “Algumas pessoas vieram até nós e começaram a dizer coisas desagradáveis, mas não respondemos. Apenas fizemos nosso trabalho.”

O patriótico Movimento da Juventude Euroasiática havia levantado a possibilidade de confrontos ao anunciar que iria enfrentar os manifestantes da oposição com cruzes ortodoxas e balas de prata. Um conflito realmente eclodiu entre seus membros e manifestantes perto da estação de metrô Tchistie Prudi, mas a polícia rapidamente deteve um dos membros do grupo juvenil, segundo informações da rádio Russian News Service.

No entanto, não houve registro de nenhum outro confronto durante a manifestação deste sábado.

Mudança de perfil

Os participantes da manifestação deste sábado tinham um perfil diferente dos jovens de classe média que tomaram as ruas nos protestos anteriores.

Vários grupos representando o setor de defesa – incluindo paraquedistas militares e guardas de fronteiras – participaram do movimento, reivindicando direitos sociais e aposentadorias.

“Vim aqui pedir justiça social”, disse Andrêi Nekosov, um marinheiro que serviu a Frota do Norte. “Sou totalmente a favor da substituição de Pútin. Questionado sobre quem poderia ser o novo presidente, Nekosov disse que “esse homem existe, mas ele está escondido de nós”.

Os representantes militares foram poucos claros em relação às suas demandas, embora a maioria estivesse ali para pedir justiça social.

Krichtanovskaia acredita que as futuras eleições regionais no dia 14 de outubro podem reacender o espírito urbano e jovem presente nas manifestações que seguiram as eleições parlamentares de dezembro.

Novos caminhos

O líder da Fronte de Esquerda, Serguêi Udaltsov, anunciou que a próxima Marcha dos Milhões irá acontecer no dia 20 de outubro, coincidindo com as eleições do Conselho de Coordenação da Oposição. Esse órgão é visto por muitos como uma oportunidade de reunir os diferentes grupos da oposição na Rússia.

De acordo com Krichtanovskaia, as ondas de protesto são desencadeadas pelas eleições e dificilmente existiriam sem elas.

“A única forma de trazer resultados reais para o país é se a oposição começar a trabalhar dentro da lei, registrar partidos e pressionar o governo por meios legais, e não em protestos de rua”, completamente a socióloga.

“Então, gradualmente, eles vão conseguir o que desejam. Mas se eles desistirem agora, nada vai mudar”, arremata Krichtanovskaia.

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