A ilusão de um mundo compreensível

"A linha de Bush-Cheney-Ramsfeld foi considerada um erro e a essência da presidência de Barack Obama consistiu em se livrar da herança dos seus antecessores". Foto: AP

"A linha de Bush-Cheney-Ramsfeld foi considerada um erro e a essência da presidência de Barack Obama consistiu em se livrar da herança dos seus antecessores". Foto: AP

A situação no Oriente Médio está tão confusa que já não é possível entender quem luta com quem e de qual lado estão as diversas partes. A morte do embaixador norte-americano em Benghazi, cidade cujos habitantes receberam com empolgação os bombardeios da Otan contra o país um ano atrás, apenas confirma o nível dos conflitos.

Há 11 anos, quando baixou a poeira sobre o local da explosão das Torres Gêmeas, destruídas por um ataque de árabes camicases, parecia estar surgindo uma nova linha de frente que colocaria todos em seus devidos lugares. Além do bem e do mal estavam os “terroristas internacionais”, inimigos do “mundo livre”. Contra eles, um recurso universal despontou: a democracia, que, em sua concepção, deve crescer por si só, mas, caso isso não aconteça, pode ser instituída à força.

Surgiram os neoconservadores a partir de duas premissas. Em primeiro lugar, uma vez que os EUA são uma superpotência global, as medidas para garantia de sua segurança devem ter um caráter mundial. Somado a isso, a garantia do progresso mundial profetizado são os dispositivos democráticos e, quanto maior o número de países que adotam esses dispositivos, menor o nível de ameaça à América. Os acontecimentos subsequentes – Afeganistão, Irã, eleições na Palestina e apoio às “revoluções coloridas” – personificaram essas concepções na prática.

A linha de Bush-Cheney-Ramsfeld foi considerada um erro e a essência da presidência de Barack Obama consistiu em se livrar da herança dos seus antecessores. Por ironia do destino, aquilo que os neoconservadores desejavam começou de fato a acontecer justamente na administração de Obama.

O Oriente Médio despertou e multidões passaram a exigir uma democratização de verdade, varrendo os regimes ditatoriais ora por conta própria, ora com ajuda externa. Inabaláveis aliados norte-americanos do passado na luta contra o terrorismo mudaram de rumo, enquanto surgiam como beneficiários das revoluções (totalmente populares)  aqueles que há pouco eram considerados senão terroristas, pelo menos seus cúmplices e, portanto, suspeitos.

Esse movimento relembra a experiência do Afeganistão nos anos 1980, quando os Estados Unidos apostaram nos mujahidin (“guerreiros santos”) para a luta contra a União Soviética e, depois, deles surgiu a Al Qaeda, que voltou suas armas contra o ex-padrinho.

Naquela época, a aposta foi feita de modo consciente. Afinal, a tarefa de infligir perdas ao comunismo e aos soviéticos era considerada tão prioritária que simplesmente não se mediam gastos. Além disso, ainda não era possível prever quanto o islã fortaleceria suas posições políticas nem supor o confronto ideológico ao modelo anterior.

Hoje em dia, é praticamente impossível ter ilusões em relação ao desenrolar dos acontecimentos. O antiamericanismo no mundo árabe e muçulmano como um todo é um fenômeno disseminado sobretudo entre as amplas massas populares que compõem o corpo do eleitorado. Ainda mais que as sementes da oposição religiosa e cultural, lançadas no início do século 21 durante o processo da campanha antiterrorista, germinaram.

O islã político, que, desde o início dos anos 2000, tem sido julgado no contexto da Al Qaeda e da coalisão antiterrorista global, adquire agora dimensões completamente diferentes. Nos países árabes, os islamistas têm chegado ao poder por vias legítimas. Os “irmãos muçulmanos” estão governando o Egito e, ao contrário de todas as expectativas, Mohamed Mursi não se transformou em um presidente de fachada no contexto da junta militar, mas tomou decisivamente as rédeas da situação.

Entre ele e os companheiros de armas extremistas al-Zawahiri há, é claro, grande diferença. Porém, não mais como aquela entre eles e Mubarak. E o abismo tende, mais provavelmente, a se estreitar. De um lado, com a socialização dos radicais, do outro, com o deslocamento dos moderados em sua direção.

O mais importante, contudo, é que o apoio às revoluções no mundo árabe não foi escolha consciente e premeditada de Washington, mas uma tentativa de acomodar-se à tormenta de acontecimentos, somada ao mencionado instinto ideológico.

Dez anos atrás, esperava-se que os atos terroristas em Nova Iorque e Washington deixassem clara a situação global, definindo com precisão os inimigos e os amigos. Mas a Primavera Árabe misturou todas as cartas. Na Líbia, Egito, Síria e Iêmen, os EUA transformaram-se, na realidade, em aliados daqueles com os quais haviam lutado no combate ao terrorismo.

O Oriente Médio está passando por um deslocamento tectônico, por mudanças fundamentais, cujos contornos apenas foram esboçados. Tanto Osama bin Laden quanto George Bush participaram da criação das precondições desses movimentos, mas o que foi iniciado possui sua lógica própria e os cenários praticamente não dependem de forças externas. Desse modo, as mudanças no Oriente Médio põem fim às ilusões de que o mundo do século 21 seria organizado de acordo com um esquema simples e compreensível.

Fiódor Lukianov é redator-chefe da revista Russia in Global Affairs

Texto integral originalmente publicado pela Gazeta.ru

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