Em meio a críticas, Roscosmos dá início à reforma estrutural

Foto: правительство.рф

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Premiê russo Dmítri Medvedev acredita que o setor espacial russo pode evitar uma crise sistêmica se aplicar um controle da qualidade semelhante ao existente nos tempos soviéticos. Segundo ele, a própria agência espacial russa Roscosmos deveria arcar com a responsabilidade financeira por todas as falhas.

A reunião do primeiro-ministro Dmítri Medvedev com a diretoria da Roscosmos e os executivos das maiores empresas da indústria espacial russa, na última segunda-feira (10), teve como meta estabelecer medidas para reestruturação do setor espacial.

A iniciativa de mudança foi impulsionada por uma série de acidentes de grande repercussão em 2011 e 2012 que colocaram o setor espacial russo à beira de uma crise sistêmica.

Para tanto, foram discutidas a troca de dirigentes e a reforma do sistema de gestão, cujos problemas já custaram o cargo de muitos executivos, embora nem isso tenha gerado resultados expressivos.

Entre as medidas apontadas por Medvedev para resgatar o setor estão melhorar a disciplina no processo de produção das estruturas especiais, bem como obrigar a Roscosmos a responder financeiramente por suas falhas.

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“Aprendemos a operar em órbita circunterrestre e trabalhamos com sucesso na Estação Espacial Internacional (ISS). Por que não tentar trabalhar em baixa gravidade no satélite natural da Terra?”, sugeriu em uma entrevista à emissora de rádio Vesti-FM o vice-primeiro-ministro russo, Dmítri Rogózin, responsável pela indústria de guerra e pelo setor aeroespacial.

Em sua opinião, o projeto de estação lunar impulsionaria o desenvolvimento da ciência fundamental e do setor espacial do país.

No início deste ano, o presidente da Roscosmos, Vladímir Popóvkin, havia anunciado que a agência estava desenvolvendo um sistema de transporte tripulado capaz de voar para a Lua, e que, até 2020, a Rússia deveria lançar dois veículos automáticos ao satélite natural da Terra.

“Devemos forçar a agência, como pessoa jurídica, a responder financeiramente pela qualidade inadequada de seus produtos e serviços”, disse o premiê.

O presidente da Roscosmos, Vladímir Popóvkin, justificou que a agência conta apenas com 200 funcionários, número insuficiente para o bom gerenciamento do setor. Popóvkin garantiu a Medvedev que tais problemas poderiam ser evitados se o número de funcionários do órgão fosse dobrado.

Soluções X Críticas

O mais recente acidente aconteceu no último dia 6 de agosto. Devido a uma falha no estágio superior do lançador Briz-M, construído pelo centro de desenvolvimento em tecnologias espaciais Khrúnichev, os satélites de comunicação russo Express-MD2 e indonésio Telkom-3 não atingiram o resultado esperado.

O incidente veio na esteira de uma série de desastres no setor espacial russo ocorridos desde o ano passado. Cabe lembrar ainda que dois dos cinco acidentes ocorridos em 2011 foram gerados por problemas com o equipamento construído no mesmo centro Khrúnichev.

Na tentativa de eliminar o problema, a Roscosmos sugeriu realizar uma reforma abrangente do setor. No lugar dos atuais 15 departamentos, há planos de criar outras sete estruturas integradas. Isso permitirá evitar a duplicação de funções nas fases de desenvolvimento de projetos e produção e aproveitar melhor o potencial das empresas envolvidas.

Para os especialistas, a reforma do setor mostrará se a Roskosmos será realmente capaz de cumprir os compromissos assumidos com o governo.

No final de abril passado, a agência já havia apresentado uma “Estratégia de Desenvolvimento das Atividades Espaciais até 2030” repleta de planos ambiciosos, como a construção de espaçonaves de todo tipo, ampliação dos serviços espaciais, realização de voos tripulados à Lua e instalação de estações em Marte, além de investigações em Vênus e Júpiter.

No entanto, por receio de que um acidente semelhante ao da sonda Fobos-Grunt se repetisse, o projeto da estação em Marte foi postergado. Em seu lugar, a agência espacial decidiu fechar 15 programas de estudo dos planetas do sistema solar e sugeriu construir um  sistema espacial de múltiplas funções, o Arktika, para monitorar as regiões árticas.

Os especialistas mostram ceticismo em relação à relevância desse projeto. “Se surgir a necessidade de monitorar as regiões polares, podemos usar os veículos já existentes”, contesta o diretor do Instituto de Política Espacial, Ivan Moiséev.

Falta de investimento

A falta de recursos financeiros é um dos principais problemas do setor espacial. Um terço das empresas em operação na área estão falidas. Em comparação com os países desenvolvidos, a Rússia investe 10 vezes menos em pesquisa e desenvolvimento do setor espacial e cinco vezes menos em bens de capital e formação de pessoal.

“Mais de 70% das tecnologias usadas na produção são obsoletas. Fora isso, a idade média dos trabalhadores do setor é superior a 50 anos, e 60 anos nos institutos de pesquisa que trabalham para a defesa do país”, afirma o general aposentado Vladímir Dvórkin, ex-diretor de um dos Institutos de Pesquisa focado em desenvolvimento de programas de aprimoramento dos arsenais nucleares estratégicos da Rússia.

O general acredita que, em vez de conjugar os esforços e tentar lançar uma sonda para a Lua, a Rússia deveria partir do bem-sucedido exemplo norte-americano e estimular o setor privado nessa área.

“Aumentar o quadro de funcionários administrativos ou atrair turistas para viagens espaciais não vai contribuir para recuperar nosso atraso, não importa quantas reuniões forem realizadas”, conclui o general.

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