Falem mal, mas falem dele

Ilustração: Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

Antes endeusado, Pútin começa a sofrer os sintomas negativos do excesso de popularidade.

É frequente ouvir que a popularidade do presidente russo Vladímir Pútin está caindo. Em agosto, o índice realmente baixou quatro pontos em relação a julho, mas apenas um ponto se comparado com junho. Ainda assim, 63% manifestam aprovação às ações de Pútin, resultado inédito ao longo dos últimos doze anos.

Apesar disso, os números não se referem exatamente ao chefe de Estado, mas sobre a condição social nos dias de hoje. Para uma sociedade que, a partir de 1990, começava a experimentar a diversidade, era importante ter um símbolo unificador, e a figura de Pútin cumpriu essa importante função no ano 2000.

A popularidade de Vladímir Pútin não se parecia, assim, com os índices da maioria dos líderes políticos mundiais e distinguia-se por sua extraordinária estabilidade.

Em geral, o índice de aprovação dos dirigentes nacionais é reflexo dos êxitos e fracassos de sua política. Já para Pútin, não havia essa dependência, e a sua popularidade já foi chamada de “teflon”.

Aparentemente, o líder existe não para se preocupar com política e assuntos administrativos, como qualquer outro homem de Estado, mas para a glória da Rússia. Os problemas da nação não contam, eles não estão na sua esfera de responsabilidade.

Isso tem sido comprovado, principalmente, pela resposta a duas perguntas que nos fazem desde 2001. A primeira: “de quem é o mérito do êxito da Rússia?” Das cinco opções sugeridas, os russos escolheram sempre a resposta “Pútin”, com grande margem de diferença.

A segunda pergunta: “quem é o principal responsável pelos problemas do país”. As opções eram as mesmas. Para os entrevistados, os responsáveis eram “o governo”, “Medvedev” (na época de seu mandato como presidente), mas não Pútin.

Se julgarmos pelo índice de popularidade, a relação da população com a figura do presidente não mudou. Os êxitos da Rússia na arena internacional, na economia e no aumento do bem-estar da população são considerados méritos de Pútin por quase 60% da população do país.

Esse mesmo resultado também foi registrado por nós, do instituto de pesquisa Centro Levada, repetidas vezes. Entretanto, pela primeira vez nesses últimos anos, os nossos especialistas observaram que a maioria absoluta (51%) decidiu creditar “a responsabilidade pelos problemas do país e pelo crescimento do custo de vida” a Pútin.

Antes, essa resposta era dada por um máximo de 31%; no ano passado, por 29%. Naquela época, falava-se de responsabilidade do governo (mas não o de seu líder) em 40% das respostas, enquanto 41% dos entrevistados consideravam que o então presidente devia responder por esses problemas.

Ao que tudo indica, os tempos mudaram, e, atualmente, pelo menos metade dos cidadãos tratam Pútin como um presidente comum, que merece seus agradecimentos pelos êxitos, mas que também responde diante deles pelos problemas do país que ainda não foram resolvidos.

Aleksêi Levinson é diretor da seção de pesquisas socioculturais do Centro Levada.

Originalmente publicado no jornal Vedomosti

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