“Stálin não via Pasternak como ameaça”

A família Pasternak dividiu-se em 1921. Foto: Divulgação

A família Pasternak dividiu-se em 1921. Foto: Divulgação

Sobrinho do autor de Doutor Jivago fala sobre isolamento familiar do escritor e explica por que o tio não foi condenado apesar da reprovação pública durante a URSS.

Nicolas Pasternak Slater, sobrinho do renomado escritor russo Boris Pasternak, está colaborando com o departamento de estudos eslávicos na Universidade de Viena para publicar uma edição trilíngue dos poemas escritos por sua mãe. Lídia Pasternak Slater vive há tempos na sombra do irmão famoso, um dos poetas mais amados do século 20 e autor de “Doutor Jivago”.

Entretanto, sua poesia lhe confere um espaço exclusivo nessa célebre família literária. Escritos em alemão, russo e inglês, as obras transbordam lirismo e variedade, abrangendo passagens engenhosas escritas para colegas, bem como reflexões sobre os períodos infelizes de sua vida. Também reflete o amor da poeta pela natureza, uma paixão também compartilhada pelo irmão Boris.

A família Pasternak dividiu-se em 1921, quando os pais de Boris e duas irmãs emigraram da incipiente União Soviética para Berlim. A família tinha esperança de reintegrar-se, mas a situação política e a determinação de Boris de viver e trabalhar na Rússia acabaram impossibilitando esse desejo.

Ao longo de toda sua vida, distante da família, Boris Pasternak dedicou-se à literatura, movida pela forte crença de que sua visão artística era correta. Seu romance épico ultrapassou sorrateiramente as fronteiras soviéticas e tornou-se uma sensação internacional. No entanto, o escritor foi obrigado a rejeitar um Prêmio Nobel e enfrentou a reprovação e o desdém da sociedade soviética até sua morte em 1960.

Nicolas Pasternak Slater é uma hematologista aposentado que hoje palestra em conferências e festivais literários, fora os trabalhos de tradução. Ele cresceu em um lar onde o tio ausente era uma presença constante, uma figura que sentia conhecer intimamente embora nunca estabelecido qualquer comunicação direta.

Suas memórias da animação quando a família recebia uma carta do exterior inspiraram Nicolas a traduzir e editar uma coleção de cartas do tio, publicadas como “Boris Pasternak: Correspondência de Família, 1921-1960”. Essas cartas trocadas com os parentes era o mais próximo que Boris Pasternak mantinha como um diário, e oferecem uma visão dentro da mente de um homem sustentado por uma inabalável confiança interior.

Gazeta Russa: O que inicialmente o levou a traduzir as correspondências entre Boris Pasternak e sua família? 

Nicolas Pasternak: Guardava memórias vívidas de minha infância e a grande excitação em casa nas raras ocasiões em que uma carta chegava da Rússia.

Bem no final da guerra, quando eu tinha sete anos, cartas chegavam clandestinamente por diplomatas ingleses, e minha mãe ficava bastante emocionada. Ela costumava ligar para sua irmã e juntas discutiam se havia coisas não ditas, e preocupavam-se com a possibilidade de algo horrível ter acontecido com a família.

 

Gazeta Russa: Elas conseguiam tomar conhecimento da realidade de Boris na Rússia?

 

N.P.: Ele não escrevia sobre coisas pessoais terríveis; sempre usava termos gerais como “se vocês soubessem de tudo, não posso continuar, eu começaria a berrar”. Elas estavam cientes de que coisas terríveis realmente aconteciam, pessoas desapareciam e presas, e ele não podia escrever sobre essas coisas. Então procuravam pistas e alusões, tentando decifrar os códigos usados por ele. Por exemplo, quando Vladímir Sillov foi preso e baleado, Boris escreveu que “ele morrera da mesma doença do falecido marido de Liza, ele pensava demais e, às vezes, isso leva àquele tipo de meningite”. A família sabia que o marido de Liza tinha sido baleado em 1918, portanto, essa alusão à “mesma doença” era uma indicação clara do que havia acontecido.

GR: Como essas cartas nos ajudam a entender sua personalidade?

N.P.: Elas mostram sua enorme força interior. Ele não dependia de outras pessoas para dar-lhe apoio. Boris era muito solitário, mas tirava uma grande força da confiança de que estava fazendo a coisa certa. Ele acreditava em sua poesia e, mais tarde, no romance que estava escrevendo, e isso compensava por todo o resto. Mesmo na década de 1950, quando estava escrevendo “Doutor Jivago” e era perseguido e caçado, ele escrevia: “não se preocupem comigo, estou feliz; provavelmente, nunca estive tão feliz”.

GR: Essas cartas lançam alguma luz à obra “Doutor Jivago”?

N.P.: “Doutor Jivago” é uma história das coisas que aconteceram na Rússia durante e após a revolução. Mas é uma história contado sob a perspectiva interna das pessoas retratadas. Acima de tudo, ele está interessado na vida interior de seus personagens e como isso sustenta todo o resto. Boris acreditava firmemente na vida como um tipo de força muito maior e mais interessante do que os acontecimentos externos. Isso era realmente a única coisa que importava para ele; viver sua vida de uma maneira honesta e criativa.

GR: Você se sente tentado a produzir uma tradução própria de “Doutor Jivago”? 

N.P.: Sinceramente não. Em primeiro lugar, já existem traduções muito boas e não acho que seria capaz de acrescentar alguma coisa só pelo fato de ser membro da família. Atualmente estou trabalhando na tradução das poesias de minha mãe, irmã de Boris. É difícil publicá-las porque foram escritas em três idiomas: russo, alemão e inglês. Vai resultar em um livro trilíngue, o qual espero com muita ansiedade.

GR: Conte-nos um pouco sobre a poesia dela. 

N.P.: Seus poemas são muito pessoais, bastante relacionados à sua vida própria vida, que é um tanto infeliz e cheia de história de amores frustrados de um tipo ou de outro. Há também poemas muito emocionais e líricos, sobre paisagens, natureza, mar. Ela era uma pessoa apaixonada e amava a natureza. Os poemas em alemão foram escritos quando ela trabalhava em um instituto científico em Munique. Ela era muito popular entre suas colegas e estavam sempre comemorando alguma coisa: aniversários, novas chegadas, pessoas que partiam. Qualquer coisa que estivesse para acontecer, Lídia Pasternak tinha que escrever um poema comemorativo sobre isso para seus amigos. Assim, esses poemas mostram seu lado emocional. Também são um tanto irônicos, satíricos e divertidos de ler.

GR: Houve grande animação quando “Doutor Jivago” foi publicado. Quais são as suas percepções sobre a cultura russa nos dias de hoje?

N.P.: Acho que a percepção ocidental sobre atual cultura russa é fraca. Raramente se lê sobre escritores russos contemporâneos e progressos da cultura russa. E não é por falta de interesse. Recentemente palestrei em um final de semanal cultural sobre a Rússia na Casa Stonehill, em Oxfordshire, no qual recebi um ótimo retorno dos presentes. Apresentei um filme que mostrava o modo extraordinário pelo qual a opinião pública foi mobilizada contra Boris, com grandes reuniões de trabalhadores e intelectuais, que unanimemente condenavam Boris de difamação a sociedade soviética em suas obras. Essas pessoas obedientes levantavam as mãos para condenar o que estava escrito nos livros sem sequer ter lido nenhum deles.

GR: Como é que Pasternak sofreu tamanha condenação pública, mas ainda assim escapou do [campo de trabalho forçado] gulag?  

N.P.: Acima de tudo, Stálin também era um poeta. Sua poesia é um tanto pessoal e lírica. Talvez ele percebia Boris como outro poeta que não tinha agenda política, que estava somente interessado em temas íntimos. Talvez Stálin enxergasse que, a seu modo, Boris não representava uma ameaça. Isso ia na contramão do pensamento crítico soviético, que pressupunha o engajamento político. Qualquer tentativa de não ser politicamente engajado é por si só um ato de traição política. O sistema estava certamente contra ele; e não tanto pelas críticas severas à sociedade soviética, mas por se sentir orgulhoso da distância que mantinha em relação a ela.

GR: Você acha que a literatura como forma de protesto está perdendo força, não só na Rússia, mas na sociedade como um todo? 

N.P.: Não acredito que um trabalho literário vai reformular a sociedade russa, assim como em nenhum outro lugar. Uma das possíveis razões para isso é o fato de estarmos submersos em palavras, seja on-line ou em meios impressos.

Hoje em dia, ao invés de um grande e monolítico protesto, presenciamos manifestações em massa na internet, que, pelo seu caráter massificador, podem ser bem eficazes. Creio que continuaremos tendo grande trabalhos literários com esse viés, mas provavelmente meios muito mais eficazes de protestos estarão condicionados aos dispositivos de comunicação em massa, tais como Twitter. 

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