Petróleo amortece choques financeiros globais

Foto: Iliia Pitaliev / RIA Nóvosti

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Grau de influência dos choques financeiros globais sobre os mercados em desenvolvimento é determinado, em grande medida, por indicadores macroeconômicos. No entanto, por ser um dos principais produtores de petróleo do mundo, Rússia consegue levar vantagem na concorrência.

Todos os choques financeiros globais desde 1990 manifestaram-se, antes de tudo, na fuga de capital dos países em desenvolvimento, independentemente de as causas da crise terem sido geradas por esses países ou por acontecimentos sem nenhuma relação com eles.

Essa foi uma tendência natural, pois os investidores aplicaram seu dinheiro em fundos de investimento nos mercados de capitais desses países contando com uma alta rentabilidade, mas, desde o início, perceberam que os investimentos eram mais arriscados do que os mercados de capitais dos países industrializados.

No entanto, assim como choques financeiros geram o crescimento abrupto da instabilidade das ações no mundo inteiro, os investidores em pânico procuram se livrar das ações dos países em desenvolvimento.

Além disso, nos períodos de recessão financeira, o custo dos empréstimos tomados pelos países em desenvolvimento tende a aumentar de maneira drástica. Para os credores estrangeiros, esses países transformam-se automaticamente em devedores mais incertos do que, por exemplo, os EUA.

Um mês após o início do choque gerado pela crise da dívida russa, em 1998, o custo dos empréstimos estrangeiros para todos os mercados em desenvolvimento aumentou oito vezes; dois meses depois, após o choque causado pela falência da corretora Lehman Brothers, ele subiu quatro vezes.

Não é nem preciso dizer que para os choques financeiros globais afetarem determinados países, eles precisam estar integrados no mercado financeiro mundial. Por volta de 2010, em termos de integração financeira, a Rússia estava à frente de muitos mercados em desenvolvimento. Do mesmo modo, cada novo choque financeiro global pode ter uma influência muito significativa sobre o país.

Paralelamente, o grau de influência dos choques financeiros globais sobre os mercados em desenvolvimento é determinado, em grande medida, por indicadores macroeconômicos.

É claro que, quanto mais rápido e profundo é o desencanto de investidores e especuladores com determinado país, piores vão ficando os seus indicadores, como as relações entre o PIB e o déficit do balanço de pagamentos corrente, a dívida pública, o endividamento externo e o déficit orçamentário.

Durante esse período, a Rússia não apresentou déficit, mas superávit do balanço de pagamentos corrente. Por esse motivo, o país parecia e ainda se mostra, teoricamente, mais resistente a choques do que a maioria dos outros países.

No que diz respeito à relação entre a dívida pública e o PIB, de 2000 a 2010, a porcentagem caiu muito. A Rússia pode, então, ser considerada líder de todos os mercados em desenvolvimento e despertar, assim, menor temor nos investidores em caso de um novo choque.

A relação do endividamento externo com o PIB russo também caiu notavelmente e agora se encontra em um nível muito baixo (o mesmo aconteceu com o Brasil, Peru e Tailândia). Porém, quanto ao orçamento, a situação não é tão favorável.

Em 2000, na relação entre o superávit e o PIB, a Rússia cedia lugar apenas à Singapura e à Jamaica; por volta de 2010, ao superávit seguiu-se um déficit (essa mesma mudança ocorreu na África do Sul, Equador, Venezuela e Bulgária).

Embora, em torno de 2010, na relação entre o déficit orçamentário e o PIB, a Rússia tivesse sido ultrapassada por países como Índia, Ucrânia, Eslováquia, Lituânia e Polônia, a drástica transformação do superavit em déficit causou má impressão no mercado financeiro mundial.

A influência dos choques financeiros globais sobre os mercados em desenvolvimento manifesta-se na movimentação do PIB nacional. É possível falar de perdas no PIB em diferentes situações: às vezes o crescimento econômico não é tão grande quanto apontavam as previsões ou então, em lugar de aumento, há queda.

Segundo cálculos de especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), no decorrer dos choques financeiros verificados de 1990 a 2008, a Rússia foi o país que mais sofreu, tendo perdido ao todo 2% do PIB. Ao longo do choque iniciado em setembro de 2008, a Rússia de novo ficou entre os líderes, com perdas muito maiores – 12% do PIB. A Turquia perdeu 9% do PIB, a Tailândia e o Brasil, 8%; a Índia não foi afetada.

Chama a atenção o fato de que, no decorrer do choque financeiro global seguinte, quando, em maio de 2010, os participantes do mercado de capitais mundial pela primeira vez entraram em pânico por causa da longa crise na Grécia, a Rússia não sentiu os efeitos da recessão mundial.

Isso pode ser explicado claramente pelo fato de que, em 2008, os preços mundiais do petróleo despencaram de modo inacreditável, enquanto em 2010 não foi observada queda alguma.

Na comparação da Rússia com outros mercados em desenvolvimento fica fácil compreender que a questão não está apenas no grau de integração financeira ou na qualidade dos indicadores macroeconômicos. O diferencial da Rússia está em que, ao contrário de seus concorrentes, ela é um dos principais produtores de petróleo do mundo.

Originalmente publicado no site do Kommersant Vlast

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