Foguete lunar: entre a miragem e a realidade

Projeto soviético do veículo lançador Energuia. Sua carga útil na órbita terrestre baixa chega a 105 toneladas. Foto: Aleksandr Mokletsov / RIA Nóvosti

Projeto soviético do veículo lançador Energuia. Sua carga útil na órbita terrestre baixa chega a 105 toneladas. Foto: Aleksandr Mokletsov / RIA Nóvosti

Nova licitação aberta pela Roscosmos (agência espacial russa) para construção do veículo lançador de cargas pesadas do programa lunar poderá tanto impulsionar a cosmonáutica nacional quanto frear o seu desenvolvimento. Responsabilidade do governo é solucionar as divergências e estabilizar o trabalho dos principais concorrentes do setor.

Neste ano, a cosmonáutica nacional presenciou um acontecimento importante: a preparação para os testes de verão do novo lançador Angará no cosmódromo

O instrumento-piloto, destinado à realização de cálculos e ao treinamento de pessoal do complexo de montagem e testagem, já foi enviado ao cosmódromo na taiga de Arkhangelsk.

Se tudo correr bem, o primeiro lançamento do Angará no novo complexo será realizado já no primeiro semestre de 2013.

Cabe lembrar que, até agora, a suposta data do lançamento esteve condicionada à chamada “constante de Angará”. Em vários momentos da última década, anunciaram o lançamento para “daqui a um ano e meio ou dois”.

Agora que a montagem do equipamento no cosmódromo de Plesetsk já acontece de forma, essa constante deve ser finalmente superada.

As esperanças de êxito do Angará são alimentadas pelo bom funcionamento dos protótipos URM (módulo de foguete universal) do projeto russo em combinação com o veículo propulsor coreano KSLV-1.

As duas falhas anteriores do KSLV foram causadas por problemas justamente nos componentes coreanos. Em um dos casos, por mau funcionamento no momento da separação da carenagem frontal; no outro, por defeito no segundo estágio do modelo coreano.

Já o primeiro estágio, de fabricação russa, que serve de protótipo para o Angará, funcionou de modo satisfatório nessas duas vezes.

O motor RD-191 também está funcionando bem. Até hoje, o número de testes de fogo já passou de cem e, nessas experiências, o motor apresentou os parâmetros de efetividade exigidos, o que permite confiar no êxito do foguete-lançador como um todo.

Concorrência interna

No entanto, do Angará até o veiculo lançador lunar, há uma grande distância. Até mesmo na variante “máxima”, da família URM, ele é capaz de levar à órbita terrestre baixa não mais de 40 toneladas de carga. Isso corresponde a mais de duas vezes a capacidade do Proton [família de foguetes espaciais desenvolvidos pela União Soviética desde a década de 1960], mas não é suficiente para um voo à lua.

Inclusive na variante com dois propulsores, que prevê a colocação do ônibus espacial em órbita a partir de dois módulos de lançamento separados, é necessário o levantamento de uma carga de mais de 70 toneladas. Para erguer todo o peso necessário com um único propulsor, a capacidade não pode ser inferior a 120 t.

Esses requisitos fazem lembrar o projeto soviético do veículo lançador Energuia. Sua carga útil na órbita terrestre baixa chega a 105 toneladas; na variante projetada do Vulkan, ele podia levar 200 toneladas.

Além disso, é importante dizer que os elementos do Energuia, na versão do veículo lançador Zenit, que na verdade se apresenta como um “bloco A” (acelerador lateral), são utilizados com êxito ainda hoje. Mas, embora em grande parte o Zenit seja de origem russa, a fabricação do foguete é feita na Ucrânia.

Considerando a inconveniência de envolver um parceiro politicamente instável em um projeto de grandes dimensões, para o Complexo de Foguete Cósmico (RKK) Energuia, acompanhado do veículo lançador de mesmo nome, vale a pena refletir sobre a ampliação de suas possibilidades de construção na Rússia.

Na prática, o Complexo de Foguete Cósmico Energuia e o centro Khrunitchev são os principais candidatos à construção de um foguete lunar promissor, mas as divergências entre esses dois grupos pode arruinar o projeto inteiro, fazendo com que ele permaneça imerso em conciliações e licitações.

Prestígio X Utilidade

A principal condição do êxito do “veículo lançador lunar” não é nem mesmo a contenção da concorrência excessiva, mas a definição de uma tarefa útil para o foguete além do programa lunar. A criação de um veículo lançador de cargas superpesadas apenas por questões de prestígio não tem sentido e seria um projeto absolutamente sem perspectivas.

O futuro foguete deve ter também outras utilidades, inclusive na órbita terrestre baixa, em projetos prospectivos para Marte, em pesquisas pelo espaço etc. Para tanto, é imprescindível a combinação harmoniosa dos interesses dos exploradores comerciais da técnica espacial, dos principais centros de ciência e pesquisa da área e, obviamente, dos militares.

Se todos esses envolvidos apresentarem seus próprios interesses, as possibilidades financeiras somadas serão suficientes para criar o foguete e justificar a fabricação. Antes de “virar moda”, o veículo lançador deve ser testado, com avaliação de sua rentabilidade na solução de tarefas tradicionais do setor espacial, em comparação com outros instrumentos de menores dimensões.

Se destinado a uma única tarefa específica, um projeto tão dispendioso estará condenado irremediavelmente a uma vida curta. Nesse caso, sua concretização seria questionável, pois o Estado não dispõe hoje de recursos dessa magnitude.

Junto com a licitação para construção do novo foguete de cargas pesadas, devem ser promovidas também atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para investigar as demandas atuais de complexos cósmicos pesados em órbita. Já existem demandas objetivas nesse sentido pelo menos no campo militar. Entretanto, ainda é preciso distinguir com clareza se seria politicamente justificável a realização desse projeto apenas em embasamentos militares.

Ilia Krâmnik - analista militar da Voz da Rússia

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