“Sem ajuda internacional, Irã pode abrir caminho para narcotráfico”

Vice-secretário-geral da ONU, Iúri Fedotov. Foto: TASS

Vice-secretário-geral da ONU, Iúri Fedotov. Foto: TASS

Vice-secretário-geral da ONU, Iúri Fedotov, fala do papel do Irã na luta contra as drogas.

As organizações internacionais Human Rights Watch e Harm Reduction International propuseram à ONU (Organização das Nações Unidas) e a outras associações internacionais o congelamento do financiamento de programas iranianos de controle da circulação de narcóticos. 

A justificativa é que a justiça iraniana tem ignorado o direito dos traficantes a um julgamento legítimo. Já Iúri Fedotov, vice-secretário-geral da ONU e diretor-executivo do UNODC (Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime), afirma que a ajuda financeira internacional ao Irã não deve ser cortada.

Izvéstia:Qual é o montante dos recursos destinados ao Irã pela ONU e organizações internacionais?

Iúri Fedotov: A verba do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes de 2011 a 2014 é de US$ 13 milhões. Essa soma provém de contribuições voluntárias de diversos países, principalmente dos ocidentais. Em geral, esse dinheiro é destinado a desestimular a demanda, tratar dependentes, fortalecer o sistema judiciário como um todo e promover ações anticorrupção. 

Mas esse valor é uma gota no oceano em comparação com os recursos próprios que o Irã emprega na luta contra as drogas. Além disso, nos últimos dez anos, mais de três mil militares iranianos foram assassinados no combate a “mulas” [pessoas que transportam as drogas] e mais de dez mil ficaram inválidos.

Izvéstia: Que resultado pode ter o congelamento dos recursos?

I.F.: O próprio Irã sofre com o crescimento do número de dependentes de drogas. No país, são quase 1,5 milhões (segundo lugar, após o Afeganistão). As autoridades, juntamente com organizações não-governamentais iranianas lutam ativamente contra essa situação. Nesse campo são aplicados os recursos da ONU. Se interrompermos a ajuda, mais pessoas morrerão no Irã.

Izvéstia:Em resposta ao corte, o Irã poderia permitir a livre passagem de “mulas” por seu território?

I.F.: Se a ajuda internacional for interrompida, é claro que Teerã poderá rever a sua posição e abrir caminho para o narcotráfico. Então as drogas hoje interceptadas, passariam pela Turquia, chegando aos mercados europeus e americanos e à Rússia. Eu gostaria de lembrar que 100 mil pessoas morrem no mundo, diariamente, por causa da heroína.

Izvéstia: É grande a quantidade de narcóticos retida nas fronteiras iranianas?

I.F.: Os iranianos apreendem cerca de 30 toneladas de narcóticos, o que corresponde a 33% do total interceptado no mundo. Ao todo, cerca de 140 toneladas são levadas anualmente do Afeganistão e do Paquistão através do território do Irã. 

Isso é muito mais do que a quantidade que vai do Afeganistão para a Ásia Central (aproximadamente 90 toneladas por ano) e mais do que chega à Rússia (cerca de 70 toneladas por ano). 

Ou seja, o Irã é a rota mais perigosa, e esse país é líder na apreensão de drogas. Para comparar, o Paquistão intercepta ao todo 4,5 toneladas anuais; a Rússia, 2 toneladas; o Tajiquistão, 0,5 toneladas.

Izvéstia: Mas há também o problema do tratamento brutal dos suspeitos na república islâmica, não é verdade?

I.F.: É verdade. E já levantei essa questão mais de uma vez em vários encontros. Os iranianos afirmam que todas as sentenças de morte se referem apenas a quem mata militares em choques na fronteira. Mas aí está o ponto fraco da posição iraniana: eles não apresentam estatísticas nem dados oficiais próprios, falta-lhes transparência. 

Teerã responde que tudo ocorre de acordo com a lei da sharia [islâmica]. A ONU manifesta-se a favor da redução, ou melhor, da completa suspensão da pena de morte e da observação dos direitos humanos. Nós acreditamos que é preciso manter a parceria com o Irã e, ao mesmo tempo, convencê-lo da necessidade de seguir as normas do direito internacional e do tratamento humanitário aos detidos.

Originalmente publicado no site do Izvéstia

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