O que você realmente sabe sobre Pussy Riot?

Ilustração: Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

Após condenação do grupo punk, imprensa internacional assumiu tom de defesa superficial e oportunista, assim como as redes sociais foram inundadas por mensagens de protesto.

Foi com espanto e desconfiança que assisti à notícia da condenação das ativistas do Pussy Riot ser transmitida pela BBC de Londres. Espanto diante da desproporcionalidade da pena e desconfiança em relação ao comentário veiculado na sequência, fruto não da análise de um especialista, mas do desarticulado balbuciar da cantora e celebridade local Kate Nash. Nos dias seguintes manifestações semelhantes inundariam redes sociais e imprensa e dariam o tom à defesa do Pussy Riot: superficial, oportunista ou retardatária.

 

Neta bastarda das blagues situacionistas dos anos 50 e 60, a pegadinha punk do Pussy Riot nada tem de novidade. Segundo o Situacionismo Internacional, a batalha contra a alienação deveria ser travada na mesma arena onde ela é criada, a do espetáculo. Para provar tal teoria, alguns membros do grupo, em 1950, invadiram a missa de Páscoa da igreja de Notre Dame, em Paris, e, diante de câmeras de TV que transmitiam a celebração em rede nacional, declamaram um antissermão sobre a morte de Deus.

 

Seus provocativos métodos viveriam para além do movimento, influenciando punks, cultural jammers e artistas de rua das décadas seguintes. Mas menos que a capacidade real de transformar a realidade, a principal herança do “artivismo” talvez tenha sido a qualidade das obras produzidas por gente feito Kalle Lasn, Anomie Belle, John Lydon, Jello Biafra e Mark LeVine, entre outros.

 

Caso  tivessem sido capazes de criar algo à altura de seus predecessores, as integrantes do Pussy Riot teriam vencido meu ceticismo. Arte e protesto feitos com competência têm o fenomenal poder  de, a um só tempo, atrair atenção e dispersar quaisquer alusões a possíveis golpes publicitários. Em vez disso, o Pussy Riot deu ao mundo canções medíocres e um ato público esnobe e egoísta, desses que não hesitam em pisotear a sensibilidade alheia em nome de se fazerem visíveis.

 

Paradoxalmente, seria fácil excusar-me de questionar a sinceridade do coletivo. Tenho algumas possíveis razões para identificar-me com suas integrantes: sou mulher, branca, classe média, politicamente de esquerda e culturalmente predisposta a admirar os subgêneros mais incendiários do rock.

 

No entanto, na identificação imediatista esconde-se o maior inimigo do pensamento livre: a ausência de autocrítica. Criticar os setores do sistema que nos repelem e prestar solidariedade aos que nos espelham dispensa o exercício da crítica. Desafio mesmo é fazer o oposto, mirando, em primeiro lugar, nossas próprias idiossincrasias e zonas de conforto. Ou, em outras palavras, “familiarizando o estranho e estranhando o familiar”, processo, segundo Geertz, essencial ao verdadeiro autoconhecimento.

 

Em um cenário que privilegia opinião acima de conhecimento e glorifica alianças baseadas em subculturas, a tentativa de levantar questões acerca do Pussy Riot frequentemente encalha no preguiçoso desdém com que sociedade e indivíduos defendem suas convicções, especialmente as mais frágeis.

 

Aos que, sem piscar, repetem “Free Pussy Riot” mundo afora, sugiro perguntar: que tal defenderem a liberdade de expressão em geral em vez da de um grupo em particular? Os princípios que necessitam defesa na Rússia ganham força ou se esvaziam na manisfestação deste coletivo punk? E se esses princípios fossem defendidos por um grupo menos fotogênico, sem as mesmas guitarras ou as mesmas genitálias, eles ainda teriam seu respeito?

 

A quem conseguir se libertar do fundamentalismo etnocultural e, no lugar do apoio acrítico oferecer questionamento construtivo, talvez incomode o fato de que, na imprensa ocidental, Maria Aliokhina, Ekaterina Samutsevitch e Nadejda Tolokonnikova são uma trindade na qual não há individualidade ou passado e da qual, portanto, não se cobra caráter e coerência.

 

Curiosamente, uma rápida pesquisa sobre Tolokonnikova no Google é o suficiente para projetar sombra nesses territórios. Casada com Piotr Verzilov, ambos foram expulsos do Voiná, supostamente após delação de alguns de seus membros para a polícia russa. Ainda segundo integrantes do grupo, o casal teria roubado computadores dos membros encarcerados e continuado a se apresentar como Voiná até 2011, quando a fraude foi exposta.

 

Apelidado pela agência de notícias RIA Nóvosti de “a face barbada do Pussy Riot”, Verzilov talvez tenha percebido as vantagens de permanecer temporariamente nos bastidores de uma cena na qual diversidade é contraproducente. Na era em que cromossomos estreitam mais laços que valores é mais fácil gerar empatia se cor, gênero, orientação sexual e gosto musical forem limitados.

 

Se os passos do Pussy Riot foram, de fato, calculados, há que se admirar a estratégia do rapaz. Bastou que ao gás de um protesto inane fosse adicionada a fagulha de um regime intolerante e – voilá! - antes que se conseguisse soletrar O-S-I-P-O-V-A, crédulos e espertalhões, Bjorks e Madonnas, já haviam se juntado no culto ao pussyriotismo.

 

Enquanto isso, os membros do verdadeiro Voiná continuam ameaçados, foragidos, semidesconhecidos pelo mundo ocidental. A heterogeneidade do grupo dificulta rótulos: eles são homens e mulheres, velhos e jovens, heterossexuais e gays. Seus membros talvez nem partilhem as mesmas opiniões sobre o Pussy Riot, embora, conhecendo seus integrantes, não é descabido especular que eles defendam o direito do grupo à manifestação livre do ônus da repressão estatal.

 

Caso sejam capazes dessa lucidez, os integrantes do Voiná terão colocado em prática o aspecto mais desafiador da liberdade de expressão: aquele que reconhece o direito de existência até do que nos incomoda. Do mesmo jeito, o princípio que reconhece o direito de se criticar o regime Pútin precisa permitir críticas ao Pussy Riot. Sem pontos de interrogação nossas convicções não passam de pequenos totalitarismos, não importa que sejam acompanhados de um riff de guitarra ou embalados em balaclavas coloridas.

 

Erica Prado é formada em Comunicação Social pela PUC-MG e vive em Londres, onde é integrante da equipe de press liaison da Mission Media LTD.

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