“Ninguém esperava uma onda de revoluções ”

Segundo ex-premiê russo Evguêni Primakov, consequências das revoluções no países árabes deverão ser sentidas no mundo inteiro. Foto: RG

Segundo ex-premiê russo Evguêni Primakov, consequências das revoluções no países árabes deverão ser sentidas no mundo inteiro. Foto: RG

Em entrevista exclusiva à Rossiyskaya Gazeta, ex-premiê russo e um dos especialistas mais renomados em assuntos árabes Evguêni Primakov fala sobre a situação síria e os desdobramentos das revoluções nos países árabes. Segundo ele, o resultado do confronto entre os islamitas moderados e os radicais terá impacto sobre o futuro não só do Oriente Médio, mas do mundo inteiro.

Rossiyskaya Gazeta: A situação na Síria está cada vez mais alarmante e os sinais de pânico estão se intensificando. Como o sr. analisa os últimos fatos?

 

Evguêni Primakov: A Síria está vivendo uma verdadeira guerra civil em que muitas forças estão envolvidas, inclusive externas. O atual regime está sendo combatido não só por sírios como também por mercenários e voluntários estrangeiros de toda a espécie.

A mais recente novidade foi a ordem do presidente Obama à CIA para apoiar a oposição síria. Essa iniciativa é uma interferência grosseira nos assuntos internos de um país que não ameaça de nenhuma maneira os EUA.

Além disso, os rebeldes sírios estão sendo financiados pela Arábia Saudita e Catar, bem como apoiados pela Turquia.

RG: O que aconteceria se o regime de Bashar al-Assad fosse derrubado hoje?

EP: Se a oposição armada conseguir derrubar Assad, um regime sunita poderá ser implantado em Damasco, automaticamente resultando na perseguição aos alauitas, que constituem uma parcela significativa da população. Não só os ativistas do partido governista seriam hostilizados, mas também todos aqueles que não partilham as crenças religiosas da oposição. 

RG: A guerra na Síria é uma continuaçãoda chamada “Primavera Árabe”. Como um especialista em assuntos árabes, o sr. ficou surpreendido com os acontecimentos?

E.P.: Sim, isso para mim foi uma completa surpresa. E não só para mim, para todos. Podia-se esperar que houvesse manifestações em um país isolado contra o regime autoritário local ou se deflagrasse um golpe de Estado. Mas ninguém tinha expectativa de uma onda de revoluções por toda a região.

RG: Muitos ficaram surpresos ao ver que os islamitas radicais subiram ao poder na Tunísia e no Egito de forma democrática. A radicalização de uma região tão grande e estrategicamente importante não gera preocupação?

E.P.: Na minha opinião, seria incorreto dizer que o principal resultado dessas revoluções foi o reforço da posição dos islamitas radicais. Os “Irmãos Muçulmanos” no Egito representam uma organização bastante moderada. Os “Irmãos” sírios são mais radicais.

Devemos prestar atenção na forma como vai ser desenvolvida a relação no Egito entre a Irmandade Muçulmana e os salafistas, que são realmente extremistas. Isto é, entre o partido Liberdade e Justiça, que tinha cerca de 50% dos assentos no parlamento dissolvido pelo Tribunal Constitucional, e o partido Al-Nour, com cerca de 30% das cadeiras parlamentares.

O recém-eleito presidente egípcio, Mohammed Mursi, anunciou que iria abandonar a Irmandade Muçulmana para tornar-se o “presidente de todos os egípcios”. Suas recentes declarações e passos no cenário externo e interno permitem ter esperança de que o Egito continue a ser um Estado laico.

RG: Os talibãs no Afeganistão, os salafistas no Egito, os wahabitas no Cáucaso Setentrional. Em sua opinião, quais são as causas da crescente popularidade dos movimentos islâmicos radicais?

EP: O mundo islâmico é heterogêneo, alguns professam um islamismo moderado, outros seguem movimentos radicais. Portanto, muita coisa vai depender do resultado do confronto entre essas duas correntes. Paralelamente, o resultado de seu confronto terá impacto sobre o futuro não só do Oriente Próximo e Oriente Médio, mas também do resto do mundo.

RG: Quais são as perspectivas dos processos revolucionários nessa região?

E.P.: Acho que, em um futuro próximo, não haverá novas ondas revolucionárias.

RG: Quão provável é o cenário em que Israel, com ou sem o apoio dos EUA, atacará as instalações nucleares do Irã?

E.P.: Os EUA não querem que isso aconteça agora antes das eleições presidenciais e estão contendo Israel. Mas devemos entender que tanto no governo israelense quanto no governo dos EUA há forças e posições diferentes. É difícil dizer agora quem vai sair vitorioso.

Versão integral da entrevista em russo disponível em: http://www.rg.ru/2012/08/08/vostok.html

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