“É preciso distinguir ciência de ficção”

Lídia Ívchenko, curadora do Museu Panorama Batalha de Borodinó, em Moscou, fala sobre as lendas em torno da guerra de 1812, cujo bicentenário será celebrado em 2 de setembro. Segundo ela, o livro de Tolstói “Guerra e Paz” ajuda a ter uma noção da época, porém não é o mais realista do ponto de vista histórico.

Panorama Batalha de Borodinó  dá a oportunidade de testemunhar os acontecimentos históricos da Segunda Guerra Patriótica 1812 com Napoleão. Foto: Elena Pochetova

Vzgliad: Existem novas descobertas ou hipóteses relacionadas à guerra de 1812?

Lídia Ívchenko: A perestroika trouxe liberdade ao país, inclusive para interpretar fatos históricos. Entretanto, foi necessário aprender a usar essa liberdade e não correr em busca de notícias sensacionalistas ou prejudicar a verdade científica. Fiz uma dissertação sobre a Batalha de Borodinó e verifiquei que as fontes consultadas apresentavam uma cronologia da batalha diferente da aceita anteriormente.

 

Lídia Ívchenko, curadora do Museu Panorama Batalha de Borodinó. Foto: rus.ruvr.ru

Vzgliad:Quais foram os dados encontrados?

LI: Segundo esses documentos, houve apenas quatro ataques contra os bastiões de Semionov em vez de oito, como acreditava-se antes. Na época soviética, ninguém queria falar sobre isso para não prejudicar a imagem do exército russo, razão pela qual muitos dos documentos da época foram corrigidos e adaptados à visão oficial.

Mas agora não faltam versões esdrúxulas ou engraçadas também. Uma delas supõe que Kutuzov teria entregue Moscou porque ele era maçom. Por essa mesma razão, ele teria proibido os moscovitas armados de se juntar às unidades voluntárias para defender a cidade.

Vzgliad:Essas versões têm origemnas “revelações sensacionalistas” que você citou?

LI: Sem dúvida. As pessoas nem imaginam quantas publicações apresentam a fama do marechal Mikhail Kutuzov como uma criação de Stálin. E o que dizer então da primeira e segunda geração de historiadores que escreveram sobre Kutuzov? Eles sequer pressupunham relação alguma com Stálin.

De qualquer modo, o centenário da Guerra Patriótica de 1812 era celebrado muito antes de a ideologia soviética surgir em nosso país. Já naquela época, assim como, aliás, nas épocas anteriores, Kutuzov era lembrado como um grande chefe militar.

Vzgliad:É verdade que Napoleão cultivou muitos admiradores na Rússia em diferentes épocas?

LI: Entre os estereótipos espalhados, Kutuzov é visto como símbolo da Rússia patriarcal e Napoleão, como portador de tendências progressistas. Alguns consideram que nos tempos soviéticos a ciência oficial silenciava a história de Napoleão, para não podermos avaliar a grandeza de sua obra.

A primeira biografia sobre ele na URSS foi escrita pelo acadêmico Evguêni Tarle a mando de Stálin. O líder soviético pediu que Napoleão fosse apresentado como líder unipessoal e chefe militar bem sucedido.

Muitos anos depois, surgiu outra biografia escrita então pelo professor Albert  Manfred. Seguindo a instrução do Comitê Central do Partido Comunista da URSS, o autor apresentou Napoleão como um seguidor dos ideias da Revolução Francesa.

Vzgliad:A impressão de muitas pessoas sobre a guerra de 1812 é formada com base no romance “Guerra e Paz”, de Lev Tolstói. Não acha que o tom ficcional do livro acaba sendo tomado como realidade dos fatos?

LI: Existe esse risco. Se o intuito é estudar a história da Guerra de 1812, não é o livro mais adequado. Mas se o objetivo é ter uma noção daquela época e dos acontecimentos, o romance de Tolstói cumpre sua função. De qualquer maneira, é preciso distinguir ciência de ficção.

Texto originalmente publicado no site do veículo Vzgliad

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