Caso Pussy Riot perto do fim: mas, valeu a pena?

Foto: Kommersant

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O Caso Pussy Riot, enfim, pode ter um desfecho. As três jovens detidas por 'hooliganismo' - a versão russa importada da Inglaterra para 'baderna' - podem pegar até sete anos de cadeia, de acordo com o bizarro e obscuro código penal da toda-poderosa Rússia. Tudo isso por fazerem uma apresentação de punk rock, ofendendo o então premiê e virtual presidente dentro do mais importante templo religioso do país: a Catedral de Cristo Salvador.

A conta parece simples: um grupo de artistas protesta contra o ditador, vai preso e pode ser punido para ser usado como exemplo. Aí todo mundo toma as dores da 'liberdade de expressão' e entra na campanha 'Free Pussy Riot'. Afinal, é preciso combater a ditadura. E, contra a ditadura, vale tudo? Não, não vale. As meninas do Pussy Riot não são, na acepção da palavra, artistas. Até tocam. Mas, sem apoio, não produzem arte. E, se para cada protesto fosse necessário cometer um ato de vandalismo gratuito e desrespeito exarcebado, o mundo hoje seria uma anarquia - e não na acepção da palavra. Eu fui, senão o primeiro, um dos primeiros a falar sobre o PR.

Admiro quem faz arte sem medo, sem receio, afinal, é disso que se trata. Mas a arte inconsequente, desafiadora, aquela que fere, essa tem consequências negativas. O PR tocou em metrôs, ônibus, perto de delegacias, em lojas, na rua, na chuva, sempre destilando virulentamente sua pregação anárquica contra um suposto ditador. Mas ainda sente falta de um objetivo mais amplo.

Derrubar o presidente... E daí? Como eu já disse aqui, Pútin não é esse terror todo. Fora assim, não teríamos pelo menos uma dezena de grupos, partidos e personalidades o atacando de todos os lados. Estariam todos os 'rebeldes' em gulags, no mínimo. Pútin orquestrou um sistema falido de tal forma que, agora, todos os músicos seguem sua batuta. E fez isso construindo uma ilusão de que o povo o apoiava.

E o povo realmente crê nisso. Mas aí você fala das fraudes, do controle de mídia... Sim, isso existe. E é aí que mora o X da questão. Não existe 'coroa na mesa'. Alguém está sempre pronto para usá-la. Alguns meses após a eleição que efetivou Pútin na presidência, a oposição segue perdida, desunida, sem propostas e sem rumo. Desorganizada, não encontra meios de transpor os duros blocos do Kremlin.

Descontrolada, organiza 'marchas de milhões' nas quais dezenas de milhares aparecem, se tanto. Ao contrário do que parece, russos não gostam de revoluções. Eles são levados a elas - e para isso eles têm vocação. Mas estão cansados. São séculos de guerras, turbulências, ditaduras sangrentas e provações. Eles querem sossego e, se isso significa tolerar Pútin, que seja. Desde que não falte dinheiro, comida e férias em algum lugar quente, a vida continua.

Voltando ao Pussy Riot, no início, elas tentavam preservar suas identidades. Mas, após a prisão na Praça Vermelha, não deu mais. Daí para a 'Oração Punk' dentro da Catedral Cristo Salvador e sua prisão, foi um pulo. Maria Alekhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich foram detidas e ficaram enjauladas, frequentando julgamentos e sendo exibidas como trofeus pela polícia russa. Seus 'fãs' eventualmente protestavam - e acabavam presos e detidos também.

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E as manifestações pró-Pussy Riot se enfileiram. Durante o Festival de Moscou, em junho, a cineasta russa Olga Darfy usou uma máscara semelhante a das meninas no tapete vermelho. Alguns dias depois, motivados por um coletivo de mais de cem intelectuais russos, milhares assinaram uma petição pedindo a liberdade das meninas. Em vão. Um pouco depois, as PRs não presos tocaram com o Faith No More em Moscou (vídeo abaixo). No dia 20 de julho, um tribunal de Moscou prolongou a detenção das meninas preventivamente até o início de 2013. Red Hot Chili Peppers e Franz Ferdinand, após a nova 'condenação', fizeram coro a favor das polêmicas meninas. Até Vladimir Pútin - o próprio - teria se manifestado contra uma pena muito dura para as meninas. E como toda farra mundial tem que passar por ela, Madonna também tirou sua casquinha e declarou ser 'injusto' o que aconteceu com as jovens.

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Na última semana, a Anistia Internacional também se pronunciou a favor do Pussy Riot, declarando-as 'prisioneiras de consciência'. O buzz é tamanho que o caso virou até exposição, no Palais de Tokyo, em Paris. Sob o nome de 'Alertes!', a mostra foi organizada pelo curador russo Andrei Erofeev e consiste em histórias em quadrinhos, um documentário e vídeos das performances ousadas da banda. Segundo ele, em entrevista ao Kommersant, o 'artista não deve ficar na cadeia. Elas cantaram baixinho, não profanaram o altar e tinha até as cabeças cobertas. Uma punição administrativa seria suficiente', diz

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O julgamento está perto do fim - enquanto eu escrevo este texto a acusação acaba de pedir pena de 3 anos de prisão para o trio de meninas. Mas a polêmica está só começando. É óbvio que protestar é válido, mas qual o limite do ato de manifestar-se? Ou tudo é válido, sob a proteção da 'arte'? Você consegue imaginar uma banda de punk fazendo um protesto semelhante na principal mesquita do Irã e saindo incólume? E na principal igreja dos Estados Unidos?

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Vale lembrar que o Brasil - bastião da democracia e da tolerância - condenou um pastor de uma seita religiosa a dois anos e dois meses de prisão por chutar uma santa numa rede de televisão, em um caso que gerou uma enorme polêmica à época. Era arte? Era protesto? Era intolerância, preconceito ou profanação? Determinar quais casos se encaixam em quais situações - sobretudo para criar caminhos legais - pode se tornar um enorme problema social.

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