Para analista russo, mesmo com crise vindoura Brics serão potências

Fiódor Lukianov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e um dos principais nomes na análise da política externa russa. Foto: Divulgação Fiesp

Fiódor Lukianov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e um dos principais nomes na análise da política externa russa. Foto: Divulgação Fiesp

Para Fiódor Lukianov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs, Brics é fruto de crescente descontentamento de países-membros com condução de temas de interesse mútuo em órgãos internacionais.

Se a economia seguisse como o fator de união dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em um grupo de nações, provavelmente ele já não mais existira.

Esta é a opinião do cientista político russo Fiódor Lukianov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e um dos principais nomes na análise da política externa russa.

“Para entender os Brics, é preciso olhar para o grupo não pelo prisma econômico, como foi inventado pelo Goldman Sachs e ainda é discutido na Europa e nos Estados Unidos, mas pelo político e até geopolítico”, afirma.

Lukianov esteve em São Paulo na última terça-feira (31) para participar de uma mesa redonda promovida pela Fundação Alexandre de Gusmão, entidade ligada ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Na ocasião, estudiosos dos cinco países, além de ex-diplomatas brasileiros, discutiram maneiras de melhorar a cooperação entre os membros do bloco. Lukianov falou com exclusividade à Gazeta Russa:

- O que, afinal, ainda reúne os Brics em um grupo?

A ideia inicial lançada pelo Goldman Sachs e apropriada pelos analistas do ocidente era a de que este tratava de um grupo de economias emergentes. Mas, de repente, os Brics ganharam uma nova dimensão: o mais importante não era o fato de serem emergentes, mas de serem países grandes e autônomos.

Isso se tornou a força sustentadora do bloco e foi como a Rússia viu o grupo desde o início. Mesmo que as agendas não coincidam em muitos pontos, os Brics são importantes pois são agentes que podem e têm o que dizer no cenário internacional. Isso vale para todos os membros.

É por isso que afirmo que a visão da Rússia dos Brics, que era absolutamente não-econômica, se tornou mais conveniente a todos, não apenas para a agenda russa. O componente político se tornou o único que mantém os países juntos.

- Existe alguma chance de as agendas desses países se aproximarem em temas discordantes como a reforma do Conselhos de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) no curto prazo?

Francamente, eu não acredito que nada possa ser feito para aproximar mais as agendas dos países no curto prazo. O que tento colocar é que o Brics foi criado não porque esses países precisavam, mas como produto do declínio da ordem mundial existente.

Ao observar este declínio, os países que não fazem parte das instituições de liderança mundiais, ou que ficam nas margens delas, tentam encontrar algo novo. É por isso que afirmo que os Brics são o protótipo para algo alternativo.

Não sabemos o que  vai acontecer. Mas, ao meu ver, a configuração global vai mudar profundamente nos próximos dez anos. Com esta mudança, os Brics vão reagir.

- E o caso específico do aumento do número de assentos permanentes no Conselho de Segurança, que opõe Rússia e China aos demais membros?

Esta discussão será sempre um assunto de oposição dentro dos Brics porque Rússia e China, sendo os países com privilégios, nunca irão querer perdê-los. Historicamente, você não verá países compartilhando benefícios voluntariamente com outros.

Eu acho que o que pode ser discutido entre os Brics é a questão da estabilidade internacional e de como resolver situações de crise. É óbvio que o regime de Bashar Assad na Síria, por exemplo, cairá em breve, o que não levará o país a uma situação de estabilidade. Pelo contrário, vai gerar mais caos. Líbia é outro exemplo.

Observamos que os Brics ainda não têm a mesma opinião em assuntos delicados como esses. Em temas vitais, eles preferem se acertar bilateralmente com países do ocidente.

Um caso característico foi a discussão da sucessão de Dominique Strauss-Kahn na direção do FMI (Fundo Monetário Internacional) no ano passado.De início, o bloco afirmou que apoiara seu próprio candidato. Mas logo todos começaram a negociar separadamente com os europeus e com os americanos. A Rússia, inclusive, foi a primeira a quebrar essa solidariedade.

- Os Brics parecem até então imunes à crise internacional. Recentemente, o ex-ministro das finanças português Luis Campos e Cunha afirmou que os países do bloco enfrentarão uma crise em breve. O sr. acredita nisso?

Por que não? Crises em economias globalizadas são cíclicas e todos devem estar preparados para sofrer com elas. Vemos sinais disso em todos os países, incluindo a China.

Eu acho que uma crise não terá um grande impacto no que diz respeito ao conceito dos Brics pelo fato deste não se tratar de um agrupamento econômico, mas sim político. Mesmo atingidos por uma crise, Rússia, Brasil, China, Índia e África do Sul seguirão como forças.

Nos ano 1990, por exemplo, a Rússia era um país com capacidade muito reduzida, mas mesmo assim permaneceu como uma potência - menos do que na época da União Soviética e do que agora, mas uma potência. 

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