Brics resgatam cultura aurífera

Pepita de ouro em forma de coração encontrada na região de Irkutsk Foto: rusgeology.ru

Pepita de ouro em forma de coração encontrada na região de Irkutsk Foto: rusgeology.ru

A história humanidade está intimamente relacionada à procura de ouro, cuja demanda ajuda até a sustentar crises na economia global. Os parceiros do Brics têm planos próprios para o desenvolvimento da exploração de ouro. O Brasil planeja ocupar a sétima posição na classificação dos produtores mundiais, e a Rússia disputa a quarta posição com a África do Sul.

No início de julho, a assessoria de imprensa da estatal russa Rosgueologia, um novo gigante econômico criado para estimular a pesquisa geológica no país, anunciou uma descoberta excepcional. Na região siberiana de Irkutsk foi encontrada uma pepita de ouro com peso de 1,1 kg.

Embora o seixo de ouro de 13x6 cm não seja grande, sua forma de coração fez com que a informação sobre o achado logo chegasse às agências de notícias.

Na área em que foi encontrado o “coraçãozinho de ouro” fica a província aurífera Leno-Vitimskaia, onde se concentram quase 95% do ouro de superfície e de mina de Irkutsk. No ano passado, as empresas da região aumentaram a extração para 17 t (um crescimento de 6,3%).

Apenas em 2011, a extração e a produção de ouro no território da Rússia subiram para 208.976 kg, o que representou um aumento de 3,6% em relação ao ano anterior. O maior produtor é a região de Krasnoiarsk (39,3 t).

A história mundial da exploração do ouro conhece exemplos de pepitas maiores do que a de Irkutsk. As duas maiores foram encontradas no século 19, na Austrália, e pesavam dezenas de quilos. Mas ambas acabaram na fundição.

A Rússia ainda é detentora de uma das mais ricas coleções de pepitas de ouro. Um dos exemplos dessa preservação é a pedra de 36 kg “Grande Triângulo”, encontrada nos montes Urais também no século 19.

Perspectivas de mercado

Neste ano, a demanda mundial de ouro vai aumentar 3,2%, chegando a 4.628 t, calculam os especialistas da Thomson Reuters GFMS. Está claro que a produção não atenderá à demanda, já que são esperadas apenas 2.892 t (um pequeno aumento em relação aos 2.819 anteriores).

Os especialistas não excluem que 2011 pode ter fechado o ciclo de onze anos de aumento do valor desse metal nobre, e esse seria o período de crescimento mais prolongado desde 1920.

No início deste ano, os preços ainda continuaram a subir por inércia, mas no segundo trimestre despencaram 4%.

Os resultados da extração e produção de ouro na Rússia nos cinco primeiros meses de 2012 refletiram plenamente essas tendências. O crescimento da extração do ouro caiu para 1,2%, enquanto a produção bruta e beneficiada teve quedas maiores, de 16,4% e 33%, respectivamente.

“A desaceleração do crescimento se deve ao esgotamento natural de jazidas antigas e a alterações na composição do minério na rocha, sobretudo na jazida de ouro e prata de Kupol, na Tchukotka [explorada pela Companhia Geológica e Mineradora de Tchukotka, pertencente à corporação canadense Kinross Gold], em função da redução do conteúdo do metal”, informa o analista sênior da Zerich Capital Management, Oleg Duchin.

O analista relaciona a queda da produção de ouro bruta e beneficiada à deterioração da conjuntura dos preços do metal em comparação com 2011.

“A demanda de ouro caiu por causa dos problemas financeiros, ou seja, a longa crise na Europa e a redução do ritmo de crescimento na China”, completa outro analista, Pável Emeliantsev, da Investcafe.

Tesouro russo

A tendência de diminuição do ritmo de crescimento da extração russa deve mudar nos próximos meses. “Está acontecendo uma intensificação da produção na Rússia”, avisa a analista sênior da empresa URALSIB Capital, Valentina Bogomolova.

Parte dos projetos pode ser lançada já neste ano e promoverá um crescimento bastante sério da produção em pouco tempo.

Assim, no quarto trimestre de 2012, espera-se a primeira leva de ouro da jazida da Maiskoe, na Tchukotka (a empresa pertence à Polymetal).

Em 2014 terá início a extração da maior jazida de ouro descoberta no território russo – a Natalka. Ela foi identificada ainda na época da Segunda Guerra Mundial, mas, por causa de sua localização, distante dos centros com infraestrutura, permaneceu muito tempo inativa.

O complexo de mineração e enriquecimento Natalka produzirá anualmente 10 milhões de toneladas de minério e 15 a 20 t de ouro. Ao longo do desenvolvimento do projeto, serão criados 2.260 postos de trabalho.

No rastro do Brasil

 

Paralelamente, a Rússia acompanha com atenção os planos do Brasil de reorganizar o setor aurífero e ocupar, até 2017, a sétima posição entre os produtores. No final de 2011, a Rússia estava em quinto lugar no ranking mundial de extração de ouro, um pouco atrás da África do Sul, outro parceiro do Brics.

Na opinião geral dos analistas russos entrevistados, os planos do maior país da América do Sul ainda não afetam os projetos dos produtores russos. O analista da Rye, Man & Gor, Andrêi Tretelnikov diz acreditar que, diante do nível atual da extração mundial e da crescente demanda, o aumento da produção planejado pelo Brasil é uma gota no oceano. “O Brasil apenas compensa a queda na extração de ouro da África”, completa Oleg Duchin.

Pável Emeliantsev, da Investcafe, é ainda mais categórico. “A elevada margem do negócio obriga os participantes a ampliar o volume da produção, o que, no final, acaba reduzindo a rentabilidade do setor”, explica.

Segundo o especialista, o fortalecimento do Brasil, assim como de outros participantes, levará a um aumento significativo da oferta. “Mas o volume de investimentos pode não ser suficiente para processar essa oferta, pois atualmente os investidores a contragosto aplicam seus recursos em metais nobres de risco”, ressalta  Emeliantsev.

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