‘Ninguém pensa em Nabokov como o escritor da felicidade’

Lila Azam Zanganeh

Lila Azam Zanganeh

Escritora parisiense de ascendência iraniana assina uma sedutora homenagem ao “grande escritor da felicidade”, contrapondo a concepção moralista de “Lolita”.

São sete da noite de uma terça-feira e Lila Azam Zanganeh recebe a imprensa em uma livraria de Barcelona. Um fotógrafo discretamente aponta sua câmera e ela se mantém com um estoicismo admirável, embora seja evidente que posar diante de uma objetiva não é uma de suas atividades favoritas.

Zanganeh acaba de publicar em espanhol seu livro sobre o autor de “Lolita” intitulado “O encantador – Nabokov e a felicidade”, que já foi recebido pelo público de vários países da Europa, além dos Estados Unidos, e no ano que vem desembarcará no Brasil e na China. Nele, Zanganeh faz um mergulho pelas paisagens do universo nabokoviano.

Desde criança sonhava em ser espiã, comenta com a Gazeta Russa. “Tenho verdadeira paixão pela mistura com outras culturas e idiomas.” Apesar de já falar seis línguas com desenvoltura, a escritora conta que entre seus próximos desafios está aprender russo, cujos estudos acaba de retomar.

“Não sei qual é o vínculo misterioso entre a Rússia e mim. Talvez tenha algo a ver com minha família materna, originária do norte do Irã, na fronteira com o [mar] Cáspio. Meu avô falava russo.”

Nascida em Paris, de pais iranianos, após estudar literatura e filosofia na França se mudou para os Estados Unidos, onde lecionou da Universidade de Harvard.

Colaboradora dos jornais “The New York Times”, “The Paris Review” e “Le Monde”, entre outros veículos, deu-se conta de que seu sonho não era a docência e, depois de assistir a uma classe de redação criativa, decidiu liberar sua paixão pelo escritor russo-americano em uma folha em branco.

Gazeta Russa: Por que você escolheu o tema da felicidade em Nabokov para sua estreia como autora? Quanto tempo levou para escrever o livro?

Lila Zanganeh: Foram anos de trabalho e leituras. Optei por escrever esse ensaio criativo em vez de fazer um doutorado. Dei-me conta de que o tema da felicidade em Nabokov não havia sido explorado. Ao falar de “Lolita”, os críticos, em geral, colocam ênfase em temas sórdidos e morais. Ninguém pensa em Nabokov como o escritor da felicidade e, para mim, suas obras são, de muitas maneiras, inteligentes, complexas e paradoxais.

Certa vez entrevistei o escritor John Updike para o “Le Monde”. Eu sabia que eles haviam se conhecido em Harvard e abordei o assunto. Updike tinha escrito um artigo para a revista “The New Yorker” intitulado “The crunch of happiness” (“O estalo da felicidade”, em português).

Assim, aproveitei para comentar com ele minha intenção de escrever um livro com essa temática. Ele me disse que o êxtase e a felicidade eram questões muito importantes.

Quando me encontrei com o filho de Nabokov, Dmítri, também falei sobre a ideia e ele achou interessante. Foi então que decidi escrever o livro. Tornou-se quase uma missão para mim. No lugar do doutorado, resolvi que iria escrever um livro.

GZ: O livro traz quinze capítulos sobre a felicidade, e cada um possui um subtítulo que torna explícita a relação entre autor e leitor ideal...

LZ: Cada capítulo é uma ideia da felicidade de acordo com Nabokov, no que diz respeito à consciência, cor ou a forma particular de entender as palavras. Há também uma paródia dos livros de autoajuda.

No último romance que Nabokov escreveu em russo, “A dádiva”, o protagonista Fiódor se propõe a redigir um guia prático chamado “Como ser feliz”. No fim das contas, a dádiva é a possibilidade de captar o mundo e seus pormenores.

A felicidade nabokoviana é uma maneira de especial de ver, pensar e perceber as coisas. Cada capítulo é uma variação, uma invenção com fotografias e jogos. A ideia do leitor criativo é fundamental. Segundo Nabokov, aquele que lê com precisão e atenção máximo é capaz de inventar seu próprio romance.

GZ: O livro é precedido por um prefácio que é também um convite [Por que ler esse livro ou qualquer outro?]. Na primeira linha você diz que sempre foi aterrorizada pela literatura e pelos livros, mas logo depois faz uma homenagem ao ato da leitura. Seria uma tentativa de distanciar-se de um perfil acadêmico?

 

LZ: A verdade é que adoro literatura, mas ela também me horroriza. Agora, por exemplo, estamos em uma livraria e me sinto no céu e no inferno ao mesmo tempo, pois sei que não conseguirei ler todos os livros que preenchem as estantes. Poderia passar a vida presa em uma prisão como essa.

Além disso, leio de uma maneira particular. Eu paro em cada frase, relendo-a quatro ou cinco vezes para que sempre me acompanhe e continue vivendo dentro de mim. A primeira vez que li “Ada ou ardor”, levei cinco meses para terminar o romance.

Se quiser aprofundar a leitura, deve ler várias vezes para captar e entender tudo. É preciso ter uma concentração enorme, exige esforço...Agora temos milhares de aparatos diabólicos para viver em outros mundos. Mas, para ler, devemos nos afastar de tudo. Esse afastamento supõe um esforço.

No meu caso, quando me retiro e consigo alcançar esse estado, isso significa felicidade. No início do meu livro há um jogo nabokoviano. “Tristes trópicos”, de Lévi-Strauss, começa dizendo “odeio as viagens e os exploradores...”. E, no início de “Ada ou o ardor”, Nabokov inverte a famosa máxima de Tolstói em “Anna Karenina” e diz: “Todas as famílias felizes são mais ou menos diferentes; todas as famílias infelizes são mais ou menos parecidas”

GZ: O seu livro proporciona conhecimento sobre o trabalho de Nabokov com rigor acadêmico, mas, paralelamente, tem um espírito lúdico e criativo, com situações ficcionais, como a entrevista imaginário com Nabokov. Assim, longe de ser um estudo sisudo destinado a especialistas, parece compreensível até mesmo para quem não conhece as obras de Nabokov...

LZ: Isso realmente aconteceu. Tenho uma amiga modelo sul-africana que vive em Nova York. Ela me perguntou se podia ler o livro quando havia apenas o manuscrito. Eu disse que sim...Ela leu o livro pensando que Nabokov era um personagem de ficção. Só quando tinha lido uns dez capítulos percebeu que talvez fosse uma pessoa real. Mas ela entendeu o livro perfeitamente. Na verdade, alguém que não conhece Nabokov pode ler essa obra e captar sua mensagem.

GZ: Na biografia de Nabokov, as mudanças têm um peso enorme. Ele partiu da Rússia, viveu em vários países da Europa, depois foi para os Estados Unidos e voltou à Europa. A migração também está muito presente em sua história de vida: filha de refugiados iranianos, nascida em Paris e atual residente nos Estados Unidos. Você sente alguma afinidade particular com o autor?

LZ: Sem dúvidas. No livro não quis falar demais disso nem traçar paralelos, pois comparar-me a Nabokov teria sido terrível. As editoras norte-americanas se mostraram interessadas em um ensaio mais explícito sobre minha trajetória de vida, uma “história verídica”. No livro decidi falar de mim, mas em um nível muito subterrâneo. Na verdade, entendo bem a nostalgia, todo o esforço que pressupõe a troca de idioma. Sou iraniana, de pais iranianos, mas nasci em Paris, onde vivi vinte anos. Agora moro em Nova York...

Nesse exato momento, somos interrompidos porque a palestra sobre seu livro vai começar. Enquanto nos despedimos, ainda tem tempo de me contar que está trabalhando em uma obra intitulada “As invenções de Orlando”.

Um romance de amor sobre os diferentes Orlandos que marcaram a literatura ao longo de quatorze séculos, desde a “Chanson de Roland” e “A Loucura de Orlando” de Ariosto até o personagem de Virginia Woolf.

Com admiração, mas também irreverência e certo entusiasmo infantil, como seu admirado Nabokov, Zanganeh nos convida a participar de seu regozijo pelo livros.

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