Jovens artistas inspiram liberdade

Exposição conta com artistas de 77 países Foto: Aleksandr Ganiúchin

Exposição conta com artistas de 77 países Foto: Aleksandr Ganiúchin

Programação da 3ª Bienal Internacional de Moscou de Arte Jovem apresenta o absurdo como reflexão da realidade.

A Terceira Bienal Internacional de Moscou de Arte Jovem, com diversos projetos multimídia, é provavelmente a maior atração da cena artística na capital russa durante este verão.

À parte dos projetos principais e estratégicos compostos por som e vídeo, artes plásticas, instalações, fotografia e performances ao vivo, a Bienal possui programas paralelos e especiais desenvolvidos em locais diferentes.

Mais de 2.700 criadores com menos de 35 anos concorreram para participar desse evento multifacetado.

Além disso tudo, a mostra oferece uma grande variedade de atividades educacionais, incluindo duas mesas-redondas.

Lei iraniana e prisões africanas


Os trabalhos dos projetos principais e estratégicos foram selecionados por duas curadoras aclamadas, a alemã Kathrin Becker e a russa Elena Selina.

O projeto principal é chamado “Sob o sol de lantejoulas”, que, segundo Becker, é uma referência ao ambiente no qual uma nova geração vive e trabalha, onde “a realidade parece subjetiva, construída e fragmentada”.

Junto com os objetos de arte contemporânea, o projeto exibe excelentes peças de fotojornalismo.

O fotógrafo sul-africano Mikhael Subotzky levou para Moscou sua série “Die Vier Hoeke” (“Os quatro cantos”). A reportagem em fotos mostra a vida em prisões, extraída sob ângulos diferentes e aparentemente com tamanha velocidade que os presidiários não parecem notar ou se importar nem um pouco com a câmera, seja tomando banho, dormindo ou fazendo exercício.

A sessão de fotos é precedida pelas palavras de Nelson Mandela: “Uma nação não deveria ser julgada pela forma que trata seus mais ilustres cidadãos, mas como trata os seus mais simplórios”.

A série “Nollywood” do também sul-africano Pieter Hugo mistura mundos reais e imaginários incorporando mitos e símbolos da indústria cinematográfica nigeriana à vida real.

Há uma mulher sentada calmamente com um demônio, um zumbi defendendo crianças e uma mulher morta com sua mão presa à boca. As imagens parecem extremamente realistas, e o surrealismo desse “fotojornalismo” é estonteante.

O iraniano Newsha Tavakolian, por sua vez, fotografou cenas da vida da transexual Maria, que passou pela cirurgia na época do líder iraniano Ayatollah Khomeini,  morto em 1989.

Um decreto de Khomeini permitia tais cirurgias como um procedimento médico extremo, apesar da proibição do país em muitas coisas, como a prática do homossexualismo e vestir roupas do sexo oposto.

A reportagem monocromática de Tavakolian mostra uma mulher forte, porém muito solitária, que foi expulsa de sua família e não pode continuar ganhando dinheiro como motorista de caminhão, como costumava fazer quando ainda era homem.

O vídeo com sete horas de duração “Selogilwe” (“tecido”, na língua tsuana), da intérprete sul-africana Lerato Shadi, mostra a artista sentada em posição de lótus tricotando. “Quanto mais o tempo passa, maior vai se tornando o tricô, e a fadiga e a inquietação tornam-se mais acentuadas”, explica Shadi em seu site. O trabalho pretende mostrar o fluxo do tempo, a autoconsciência e a “criação da vida”.

Bomba-modelo e vida de hospício


O projeto estratégico intitulado “Análise inconclusiva” tem objetivo de mostrar as principais direções do novo movimento artístico. Alguns dos objetos da mostra são realmente perturbadores.

“Zeroing,” uma “imitação tangível da catástrofe” pela dupla de artistas russos Iron Lily, é um protótipo de uma bomba que é disparada quando uma pessoa se aproximada do objeto.

Após 10 segundos, há um barulho de explosão acompanhado por uma luz piscando. Depois disso, as luzem se apagam. De acordo com os artistas, é “um esforço para fazer o espectador se recarregar para um nova vida, fazer os visitantes se questionaram sobre coisas importantes e reavaliar o tempo que resta.”

O vídeo monocromático “Teoria da retórica melancólica”, de Hallie DeCatherine Jonesm reflete os acontecimentos de 11 de setembro e suas memórias, mostrando pessoas cobrindo seus rostos das cinzas e da fumaça.

Outra obra impressionante é de autoria da artista russa Maria Safronova, que foi a um hospital psiquiátrico para representar a vida de seus residentes. Segundo ela, trata-se um modelo da nossa sociedade, com rituais que restringem as pessoas ao cotidiano mundano.

A grafiteira e ativista social Micha Most, por exemplo, publicou artigos da legislação russa nas ruas, escrevendo trechos de leis em muros para familiarizar o povo com seus direitos.

Já o grupo artístico italiano Antonello Ghezzi levou à Bienal um dispositivo absolutamente essencial para a Rússia. A instalação “Cuidado com a porta!” é nada mais do que uma porta automática que se abre com um sorriso.

Manequins de Oleg Dou


O programa paralelo expande a estrutura formal da Bienal a formas alternativas de arte e apresenta artistas ainda mais talentosos, incluindo Oleg Dou, cujo trabalho é destaque na mais recente campanha promocional do Adobe Photoshop 6.

O artista de 28 anos mistura design com fotografia, criando retratos de pessoas reais com aspecto de aliens e manequins. Dou disse ao jornal russo “The Moscow News” que se interessa por retratos desde que se lembra por gente.

Filho de também artista, adorava folhear álbuns de arte clássica e sempre foi fascinado por rostos medievais pálidos e mórbidos. A famosa imagem de Madonna por Jean Fouquet tem aspectos muito semelhantes aos retratos de Dou, isentos de emoções, defeitos e personalidade.

Apenas o brilho dos olhos insinua a existência de uma alma humana em algum lugar lá dentro. Um artista de mídia, como ele mesmo se classifica, Dou pretende criar algo que seja “simultaneamente atraente e repulsivo”.  

A Bienal apresenta a nova série de retratos de Dou, “Outra face”, inspirada no livro “A face do outro”, do escritor japonês Kobo Abe. O tema principal é o transplante de face, que domina a mente do personagem.

Dou transforma todos os modelos em retratos ainda mais drásticos do que o habitual. As imagens são acompanhadas por fotografias da própria infância do artista, também alteradas por ele para que se parecessem com palhaços ou bonecos. A ideia, segundo Dou, vem do seu medo de infância de ser fotografado, “quando lhe davam um boneco assustador e lhe diziam para sorrir, mesmo que não quisesse”.

Uma de suas séries mais renomadas chama-se “Filhotes”, que apresenta retratos de crianças usando máscaras e atributos de animais, com o prefácio: “havia uma tradição peculiar no século 20 de fazer sessões de fotos com crianças mortas”.

Outro livro que inspirou Dou foi “O homem que ri”, de Victor Hugo. O permanente sorriso extraído do rosto de seu personagem principal pode ser visto em muitos retratos do fotógrafo.

Para conhecer a programação completa do evento, visite www.youngart.ru

Texto originalmente publicado no site do jornal on-line The Moscow News


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