Rosneft quer comprar metade da TNK-BP

Aquisição de ações britânicas na parceria TNK-BP pode transformar petrolífera russa em empresa mais poderosa do mundo no ramo. Foto: AP

Aquisição de ações britânicas na parceria TNK-BP pode transformar petrolífera russa em empresa mais poderosa do mundo no ramo. Foto: AP

Pela primeira vez após a aquisição de ativos da falida Iukos, a petrolífera russa Rosneft prepara-se para uma nova transação de vulto. Como resultado da operação de venda, cuja soma pode atingir 35 bilhões de dólares, a Rosneft pode se tornar a empresa mais poderosa do mundo no ramo do petróleo. Entretanto, segundo especialistas, isso não resolve os problemas de administração da companhia russo-britânica.

No rasto do consórcio russo AAR, a Rosneft comunicou à BP seu interesse em uma possível aquisição de sua parte na pareceria russo-britânica TNK-BP, atualmente mergulhada no conflito entre os acionistas.

Segundo as últimas informações, as duas empresas iniciaram negociações a esse respeito e assinaram um acordo de confidencialidade.

Ainda em junho, o diretor da Rosneft, Ígor Sétchin, afirmou que “nunca teria pensado nessa possibilidade. No entanto, a Rosneft e a BP teriam assinado um acordo em 24 de julho.

De acordo com uma fonte do jornal russo “RBC-Daily”, a questão ainda não foi discutida entre os governos nem no conselho de diretores da companhia.

A BP, por sua vez, confirmou ter iniciado negociações com a Rosneft e também, paralelamente, talvez até com “outras partes interessadas”.

“A BP aprova o interesse da Rosneft na possível aquisição da porcentagem do consórcio britânico na TNK-BP”, destacou a empresa britânica em nota àimprensa.

Entretanto, os dois lados advertiram que não garantem a concretização da transação. “Ainda é cedo para tratarmos da estrutura da transação; a Rosneft só confirmou que aceita negociar”, disse o representante da BP.

Em 1º de junho, a companhia BP anunciou ao seu parceiro, o consórcio AAR, formado por três empresas russas, a intenção de vender sua parte na russo-britânica TNK-BP. No último dia 18, os acionistas russos declararam que comprariam 25% ao preço atual de mercado, estimado em um total de 10 bilhões de dólares.

Burocracia à vista


A Rosneft vê muitos pontos positivos na possível aquisição. Afinal, a transação complementaria a significativa pasta de ativos da companhia e representaria um valor adicional para todos os acionistas.

A compra também iria gerar um forte impulso para o desenvolvimento de projetos de upstream (exploração, perfuração e produção) e de downstream (transporte, distribuição e comercialização), tanto de petróleo quanto de gás..

De acordo com o ministro russo do Desenvolvimento Econômico, Andrêi Beloussov, a decisão sobre aquisição de ativos por parte de empresas públicas, como é o caso da Rosneft, deve ser tomada pelo governo.

Porém, o ministro se complicou ao tentar explicar a posição do ministério em relação à possível transação. “Depende dos parâmetros da transação, pode ser ‘a favor’, mas também pode ser ‘contra’”, disse.

“Se a Rosneft consolidar os ativos para depois vendê-los, privatizá-los, será um excelente negócio”, acrescentou.

O chefe do Ministério de Minas e Energia da Rússia, Aleksandr Novak, considera a compra da parte da britânica BP pela Rosneft vantajosa para a capitalização da empresa pública, porém é contra a saída total dos estrangeiros desse mercado.

O FAS, Serviço Federal Antimonopólios, ainda não recebeu requerimento da Rosneft para compra de parte da TNK-BP, mas a posição do serviço russo sobre a questão será cautelosa, pois a “monopolização do mercado de subprodutos do petróleo não é a orientação que gostaríamos de ver”, disse nesta terça-feira, 24, o diretor do FAS, Ígor Artiomev.

Lucro, porém problemas


O analista da empresa de investimentos Troika Dialog, Valêri Nesterov, avalia a parte da BP em 20 a 35 bilhões de dólares. Se a transação se concretizar, para a Rosneft será um grande passo em direção à ampliação de seu negócio.

Além de consolidar sua posição no setor petrolífero russo, seus investimentos na exploração de petróleo serão maiores do que os índices da também russa Lukoil. Em outras palavras, a Rosneft pode se tornar a maior empresa do mundo do setor de produção de petróleo.

Entretanto, por ser uma empresa pública, a parceria pode se tornar incômoda para os russos que detém a outra parte da TNK-BP. “Por isso, pode ser que o consórcio AAR decida pela venda de suas ações. Certamente, a Rosneft pretende comandar o holding, e o consórcio pode acabar sofrendo pressões políticas”, considera Nesterov.

Cabe lembrar ainda que, caso a transação seja concluída, não haverá garantia de que a empresa conseguirá evitar a repetição dos conflitos entre os acionistas.

O esquema de administração paritária não se consolidou e há muito ficou obsoleto, reconheceu recentemente o coproprietário do consórcio AAR, Mikhail Fridman, que, no início de julho, deixou o posto de diretor-geral da TNK-BP e, segundo fontes do RBC-Daily, tem “boas relações” com Ígor Setchin.

Ninguém duvida de que a Rosneft encontrará recursos para a compra da parte da BP. A petrolífera russa tem no balanço ações próprias no total de 12,6%, que podem ser oferecidos à empresa britânica por sua parte na TNK-BP como complementação de uma soma em dinheiro, diz o analista do grupo financeiro russo IFD Capital, Vitáli Kriukov.

Desse modo, a BP participaria do capital da empresa russa e poderia pleitear participação nos projetos das plataformas. Para a empresa britânica, a venda de sua parte significaria o enfraquecimento de sua posição no mercado russo, justamente a parte de seus negócios que gerou mais lucro nos últimos anos (3,7 bilhões de dólares de dividendos apenas em 2011).

Texto originalmente publicado no site do jornal RBC-Daily

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