Quem vai brilhar em Londres?

Foto: RIA Nóvosti

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Rússia quer ficar entre os três primeiros nos Jogos Olímpicos de 2012.

Na Rússia, por motivos bem compreensíveis, fala-se constantemente de Sôtchi (cidade no sul do país que vai receber as Olimpíadas de Inverno de 2014), e da obrigatoriedade do país de vencer os jogos em casa. Entretanto, ainda faltam dois anos para Sôtchi, enquanto o verão de Londres já está aí.

Diz-se e escreve-se constantemente nos dias atuais que o esporte russo não está em seus melhores dias. Pela primeira vez na história recente, ficamos em décimo primeiro lugar na Olímpiada de inverno de 2010, em Vancouver, atrás até mesmo da Coreia do Sul.

Com esforços titânicos, a posição vai sendo mantida e corrigida. Fundou-se a Associação Russa das Modalidades Esportivas Olímpicas de Verão, dirigida pelo milionário Vladímir Líssin, que não poupa recursos.

Parece um terrível pesadelo a lembrança da proposta, em 1990, de não participarmos dos jogos olímpicos, vinda de um alto funcionário do governo, por falta de recursos. O dinheiro foi obtido por meio de autoridades semicriminosas que, em contrapartida, pediam para conhecer uma bela patinadora artística ou sentar-se na área VIP, perto do então presidente do COI, Juan Antonio Samaranch. Nem posso imaginar o que eles, na linguagem da bandidagem, teriam conversado.

Nós prosseguimos e deixamos para trás aqueles tempos tristes, senão trágicos. Os chineses transformaram-se em nossos principais adversários, com seu espantoso potencial. E o principal pretendente ao terceiro lugar geral nas modalidades de verão, serão os britânicos, os anfitriões das Olimpíadas de 2012.

Também nós, porém, apresentamos algum progresso. No Campeonato Mundial de 2011, em Daegu (Coreia do Sul), o atletismo teve o melhor desempenho de toda a história russo-soviética, conquistando nove medalhas de ouro. Como sempre, as meninas da ginástica artística foram brilhantes. E aqui estamos nós, em terceiro lugar na contagem extraoficial por número de medalhas, atrás da China e dos EUA, bem à frente da Alemanha, a quarta colocada, e da Grã-Bretanha, sétima no ranking. Caminhamos para o mesmo nível dos americanos, perdendo para eles por quantidade de ouros.

Há modalidades esportivas em que os russos colecionam medalhas de ouro. Nem uma única vez em toda a história dos Jogos Olímpicos de Verão, as belas atletas russas do nado sincronizado cederam o primeiro lugar no pódio.

Juntamente com essas, estão as representantes da ginástica rítmica. Há boas chances no boxe, na luta livre e na greco-romana. Ficou para trás a crise dos atletas da ginástica, esgrima, tiro, halterofilismo, dos saltos ornamentais simples e no trampolim.

Se os esportistas do atletismo chegarem ao final, serão acrescentadas às incríveis nove medalhas ainda mais três (Elena Issinbaeva no salto com vara, Ivan Ekhov nos saltos em altura e  a equipe feminina no revezamento 4x400m). Graças a vitórias nessa modalidade podemos ir ainda mais longe.

De repente, os gênios do judô, inspirados por Ezio Gamba, dão o troco ou então os ciclistas conseguem uma boa arrancada. Mas isso já são prognósticos de um otimista. De qualquer modo, a neblina de Londres, que parecia tão densa, dissipou-se. Temos o que pescar no Tâmisa e seus arredores.

Em que modalidade a posição já parece incorrigível? Na natação, segundo programa olímpico em número de medalhas disputadas, depois do atletismo. E dificilmente será possível corrigir bem alguma coisa. Um ouro no Campeonato Mundial e o surgimento da China nessas águas leva a reflexões nada animadoras.

O remo acadêmico e o ciclismo também não imprimem nenhum otimismo. Em muitas modalidades de equipe, até mesmo no futebol e no polo aquático masculino, nem conseguimos chegar a Londres. Sabemos que no tênis masculino não há nada de bom, e é difícil prever como se apresentarão na grama de Wimbledon as nossas damas imprevisíveis, que, em Pequim, ocuparam todo o pódio.

Nós não temos muitas chances garantidas de medalha de ouro. Mas há algumas. Os esportistas do atletismo se prepararam nos campos de treinamento da região da cidade de Sôtchi e de Portugal, e a campeã mundial dos 800 m, Maria Savinova, ainda queria ir para as montanhas.

Os lutadores passaram muito tempo em Sôtchi, no centro de treinamentos cujo nome homenageia o tricampeão olímpico Aleksandr Karelin, com comodações comparáveis às de um hotel cinco estrelas, e comida ainda melhor. Já os ginastas prefereriram o centro próximo ao lago Krugloe, perto de Moscou.

O grande esporte russo entrou em uma nova era. Agora é hora de enormes contribuições particulares. É ótimo que alguns ricaços gostem dessa ou daquela modalidade olímpica, contribuam para o seu desenvolvimento, mimem os esportistas russos, prometam e paguem a eles enormes prêmios. Assim é na luta feminina, que, pela primeira vez na história, tem a promessa de uma grande recompensa pela vitória. Motivação? Talvez. Embora talvez vencessem simplesmente por vencer, de graça.

Quando o barão Pierre de Coubertin fundou as Olimpíadas, ninguém se lembrava da contagem por equipe, nem em números extraoficiais. Atualmente, essa contagem pesa sobre muitas nações. A medalha conquistada nos Jogos Olímpicos transformou-se em indicador da capacidade de concorrência, do desenvolvimento do país. Quando as medalhas são muitas, o Estado que as conquistou se considera uma verdadeira potência, e não apenas esportiva.

O ministro russo do Esporte, do Turismo e da Política para a Juventude, Vitáli Mutko, tem certeza de que, se a equipe olímpica ocupar o terceiro lugar em Londres na contagem extraoficial, isso já será um sucesso. É difícil concorrer com os chineses. É complicado concorrer com os americanos. E não será fácil concorrer com os orgulhosos britânicos em sua própria terra.

Entretanto, ao participar de uma reunião olímpica junto com dirigentes de todas as federações esportivas russas, fiquei surpreso com o consenso entre eles. Todos, em uníssono, apoiavam a seguinte ideia: nossa posição geral em Londres deve ser no mínimo o terceiro lugar. Na medida de nossas forças, até mais.

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