Exportação de grãos despencará pela metade

Em sua avaliação, a safra será de 85 milhões de toneladas. Foto: Andrêi Arkhipov / RIA Nóvosti

Em sua avaliação, a safra será de 85 milhões de toneladas. Foto: Andrêi Arkhipov / RIA Nóvosti

Seca que arrasou principais regiões agrícolas da Rússia vai gerar queda brutal na safra de verão. Segundo especialistas, a colheita não será suficiente nem para suprir a demanda interna.

No início de julho, os funcionários do Ministério da Agricultura da Rússia reduziram ainda mais o limite mínimo do levantamento da safra total de grãos do país. Segundo eles, neste verão, o setor agrícola russo vai produzir apenas 80 a 85 milhões de toneladas de cereais, em comparação aos 94 milhões de toneladas no ano passado.

O principal motivo da queda é a seca que atinge, em menor ou maior grau, praticamente todas as principais regiões russas produtoras de grãos.

O presidente da Associação Russa de Cereais e representante dos exportadores, Arkádi Zlotchiévski, lamentou as perdas sofridas por celeiros tradicionais da Rússia, como Kuban, Stavropol, Volgograd, Povoljie, Rostov-na-Donu, Lipiétsk, Penza, Ulianovsk, Kurgan e Altai.

Fora do padrão latino

Embora em 2010 a Rússia tenha considerado a possibilidade de fornecimento de grãos ao mercado latino-americano, os especialistas não sabem do fechamento de nenhum contrato.

A venda de cereais para a América Latina, segundo Arkádi Zlotchiévski, é prejudicada pela distância geográfica e pela presença no continente da Argentina, grande produtor de grãos; esses fatores reduzem a competitividade do produto russo.

Além disso, por causa das diferenças nos padrões de controle sanitário, os cereais russos por enquanto não podem ser colocados nos mercados do Brasil e do Chile.

Oleg Sukhanov acrescenta ainda que os grãos russos não servem bem ao mercado latino-americano. O problema é que a Rússia desempenha um papel importante no mercado de cereais de baixa qualidade, de terceiro ou quarto tipo, deixando os grãos de melhor qualidade para o mercado interno.

Segundo Sukhanov, esse tipo de exportação atende bem os países do Norte da África e do Oriente Próximo, mas não é adequada à América Latina, onde há demanda pelo trigo duro de boa qualidade dos EUA e do Canadá.

“Nas outras regiões, eu não diria que os prejuízos serão muito sérios. Há riscos, mas pode ser que a situação melhore”, informou ele, acrescentando que a safra vai depender da concretização das previsões de tempo seco ou do abrandamento do clima, com a chegada de chuvas.

O próprio Zlotchiévski tem uma posição otimista e acredita que os funcionários do Ministério da Agricultura estão sendo simplesmente cautelosos.

Em sua avaliação, a safra será de 85 milhões de toneladas e, levando em conta as reservas de grãos de safras passadas existentes nos depósitos, o potencial de exportação ficará em torno de 18 a 20 milhões de toneladas.

Esse total ainda é menor do que o comercializado no ano passado, quando saíram do país mais de 26 milhões de toneladas. Mas, por outro lado, nem se compara com 2010, quando a seca e incêndios arrasaram cerca de um terço da safra de grãos, obrigando o então primeiro-ministro, Vladímir Pútin, a determinar o embargo das exportações.

Opiniões divergentes 

Porém, nem todos os especialistas russos compartilham o otimismo de Zlotchiévski. O chefe do departamento de análise de mercados do Instituto da Conjuntura do Mercado Agrário (IKAR), Oleg Sukhanov, calcula que neste ano a Rússia produzirá apenas 77 milhões de toneladas. “E esse não é o pior cenário de progressão dos acontecimentos”, ressalta o analista.

Essa cifra indicaria uma situação delicada, pois está muito próxima do índice anual de consumo russo de grãos – 67 a 72 milhões de toneladas.

Infográfico: Anton Pánin

A avaliação atual do IKAR é de 68,5 milhões de toneladas. Os especialistas do instituto calculam que, considerando as reservas, o potencial exportável da Rússia no novo ano comercial será de apenas 13,5 milhões de toneladas.

Os tradicionais compradores dos produtos russos são os países do Oriente Próximo e do Norte da África. No ano passado, juntaram-se a eles os parceiros do Sudeste Asiático, cujas negociações comerciais com os exportadores russos tiveram início em 2010, mas, por causa do embargo, os contratos foram congelados.

“Vamos exportar duas vezes menos em comparação com o ano passado. Mas essa não é uma tendência de longo prazo. Na próxima estação, poderemos ter uma boa safra e a Rússia ocupará de novo uma posição de liderança na classificação dos exportadores mundiais de grãos”, afirma Sukhanov.

  

Futuro próspero?

A Rússia tem planos ambiciosos de desenvolvimento da produção de cereais. De acordo com o novo texto do programa estatal de desenvolvimento da agropecuária para o período de 2013 a 2020, aprovado no início de julho, a safra total de grãos em 2020 deve alcançar 115 milhões de toneladas, aproximando a Rússia dos EUA, tradicional líder no mercado mundial.

Infográfico: Anton Pánin

É evidente que as notícias da Rússia podem afetar os preços mundiais de modo significativo. Embora não haja um déficit preocupante de grãos no mundo, grandes produtores, como EUA, Rússia, Ucrânia, Cazaquistão e China, estão enfrentando problemas semelhantes.

Isso determina o nível atual elevado dos preços mundiais, cerca de US$ 330 por tonelada de trigo processado. Na avaliação de Sukhanov, até o final do ano, é possível ainda um aumento médio de 10% nos preços dos cereais no mundo e na Rússia.

No sul da Rússia, onde se encontram os principais terminais marítimos de grãos, os preços aumentam ainda mais aceleradamente do que os mundiais. Isso porque os cereais locais são distribuídos com rapidez aos mercados interno e externo, e depois é necessário buscar carregamentos nas distantes regiões do norte do país.

O presidente da Associação Nacional dos Produtores de Grãos, Pável Skurikhin, acredita que, no decorrer do ano, haverá aumento do preço tanto interno quanto mundial.

Entretanto, isso não deve afetar de modo significativo o custo do pão, da carne e de outros produtos para a população, uma vez que, na produção total, a proporção dos grãos não é grande – no pão russo, por exemplo, é de 23%.

Batalha calorosa

 

Por enquanto, a Rússia não pode fazer nada contra a seca. Nem no período do socialismo, quando a máquina estatal dedicava muita atenção e dinheiro ao desenvolvimento agropecuário, a extensão dos campos em que se promovia o melhoramento do solo era bem pequena, isto e, pouco mais de 4 milhões  de hectares.

Atualmente, a porção dos terrenos bem irrigados é ainda menor, cerca de 2,5 milhões de hectares. E isso num quadro em que só a semeadura de primavera ocupa 44 milhões de hectares neste ano.

“Não é o clima que causa as maiores perdas, mas sim o mau uso da tecnologia em condições climáticas desfavoráveis”, lamenta Zlotchiévski.

Os próprios agricultores culpam não apenas o clima pela quebra da safra, mas também as condições econômicas. Segundo Pável Skurikhin, nos últimos quatro anos, o nível de endividamento da grande maioria dos produtores de grãos do país aumentou drasticamente.

Os recursos circulantes não são suficientes, e parte dos empreendimentos agropecuários russos encontra-se em vários estágios do processo de falência.

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