Conflito sírio entra em nova fase

O tema da segurança das armas químicas sírias permanece em pauta, sobretudo no caso de uma guerra civil oficial. Foto: AFP/East News

O tema da segurança das armas químicas sírias permanece em pauta, sobretudo no caso de uma guerra civil oficial. Foto: AFP/East News

O Exército Livre Sírio (ELS) anunciou que vai passar a ações de guerrilha. Embora isso indique que a principal força da oposição armada esteja reconhecendo a impossibilidade de vencer o regime de Assad, o abrandamento do conflito parece uma realidade distante. O governo, por sua vez, rebate com ameaças de armas químicas e a comunidade internacional estremece com os caminhos da crise.

“O Exército Livre Sírio vai continuar a luta contra as forças do regime até conseguir extenuá-lo, utilizando as táticas de guerrilha”, informou o representante do ELS, Malik Kurdi, nesta terça-feira, 24, em entrevista ao jornal norte-americano “Washington Post”.

“Não podemos dizer que o ELS tem controle total sobre alguma área, mas tampouco podemos dizer o mesmo sobre o exército do governo. E assim será até que o nosso exército receba armamento pesado e ocorra uma deserção em massa”, acrescentou Kurdi.

A administração do presidente dos EUA, Barack Obama, prepara-se para ajudar mais ativamente as forças sírias contrárias ao governo, inclusive com a instalação de meios de comunicação e a troca de informações estratégicas, segundo divulgou a mídia ocidental, citando fontes norte-americanas.

Porém, como não se fala em fornecimento de armas para a oposição, nada disso pressupõe uma vitória das forças anti-Assad.

Por outro lado, se o conflito interno na Síria está entrando em uma fase crônica, isso não aponta o fim das pressões políticas nem da guerra de informações contra o governo – na verdade, os dados recentes indicam exatamente o contrário.

Violência viral

Nos últimos dias, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse em entrevista ao canal de televisão norte-americano “Fox News” que teme a instalação do caos na Síria após a queda do regime atual, o que poderia levar as armas químicas às mãos de terroristas.

“Obviamente, não queremos correr o risco de que armas químicas venham parar nas mãos do Hizbollah ou de algum outro grupo radical”, ressaltou. Em contrapartida, o ministro israelense da Defesa, Ehud Barak, anunciou que o país examina a possibilidade de militar caso a ameaça se concretize.

“Acreditamos que as armas químicas encontram-se sob o controle do governo sírio. Ainda assim, estamos muito preocupados com o destino desse arsenal se houver uma escalada da violência no país e o aumento dos ataques do regime contra o próprio povo”, declarou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, a um grupo de jornalistas.

Em entrevista à imprensa em Bruxelas, o ministro israelense das Relações Exteriores, Avigdor Liberman, afirmou que “se tivermos notícia de que os sírios estão transferindo armas químicas ou biológicas para o Hizbollah, chegaremos a um ponto crítico, isto é, uma declaração de guerra”.

Tomadas literalmente, as afirmações do governo israelense foram rebatidas pelo representante oficial de Damasco, que apressou-se a anunciar a possibilidade de uso de armas químicas em resposta a agressões externas.

Como era de se esperar, os EUA e da Europa Ocidental prontamente repudiaram tal declaração.

O governo russo, por sua vez, avalia que a Síria manterá com rigor o compromisso de não usar armas químicas, conforme comunicado do Ministério das Relações Exteriores feito nesta terça-feira, 24.

“Gostaríamos de destacar que, em 1968, por ratificação, a Síria aderiu ao protocolo de Genebra de 1925, que proíbe a utilização de gases asfixiantes, venenosos ou similares como arma de guerra. Partimos do princípio de que os poderes sírios cumprirão o compromisso assumido internacionalmente”, afirmou Moscou em comunicado oficial.

Guerra de informação

O tema da segurança das armas químicas sírias permanece em pauta, sobretudo no caso de uma guerra civil oficial. As armas químicas poderiam ser usadas, por exemplo, contra as forças da oposição.

Nesse aspecto, é evidente que Damasco tem significativa vantagem sobre o ELS e o fato de Assad resistir ao golpe há um ano e meio fala por si só. No entanto, usar armas químicas contra rebeldes seria o caminho mais certeiro para a ruína do regime atual, que, nesse caso, perderia seus poucos aliados e deixaria em pé de guerra seus irreconciliáveis adversários.

Em Moscou, o especialista em questões militares Valentin Iurtchenko considerou essa possibilidade muito remota, uma vez que “esse passo levaria inevitavelmente a uma intervenção militar externa”.

Além disso, segundo ele, “o exército sírio pode entrar em contato com os americanos para discutir questões relativas à segurança desses arsenais – isso tranquilizaria os dois lados”.

O especialista lembrou também que os americanos, ainda em fevereiro, consideraram que, em caso de “mudança da guarda”, será preciso um exército de 75 mil integrantes para garantir a segurança dos depósitos de armas químicas sírias. Mas o que poderá acontecer se esses arsenais forem alvo de extremistas?

Parece que a Síria dispõe de armas binárias, ou seja, aquelas cujos componentes são guardados em locais diferentes, segundo informou um especialista russo em controle de armas de destruição em massa que preferiu se manter no anonimato.

Portanto, se um dos depósitos caísse em mãos de extremistas, isso não significaria um poder de fogo real, ainda que o evento seja visto como uma provocação.

“A retomada do tema das armas químicas sírias indica que elas podem ser usadas como motivo de uma futura intervenção”, reforça o especialista.

Segundo ele, os arsenais de destruição em massa inquietam a opinião pública. “Não se exclui também a análise, em caso de guerra civil, da proposta de deixar a guarda dessas armas a cargo de forças internacionais, inclusive com base em um mandato da ONU. E é claro que uma decisão desse tipo seria impossível sem a aprovação da Rússia”, arremata.

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