Heroína de Tolstói é hit cinematográfico

Keira Knightley estrela “Anna Karenina”, de Joe Wright Foto: Kinopoisk.ru

Keira Knightley estrela “Anna Karenina”, de Joe Wright Foto: Kinopoisk.ru

“Anna Karenina” parece ter sido escrito seguindo o cenário clássico de um filme. Não é à toa que os diretores ocidentais, incluindo o britânico Joe Wright, continuam transportando o romance de Tolstói para as grandes telas.

“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Essa é a abertura de um dos mais importantes romances épicos russos do século 19.

No entanto, diferentemente de outros épicos, tais como “Guerra e Paz” (sobre a guerra de 1812 contra Napoleão) e “O Don Silencioso” (sobre a Guerra Civil russa), de Mikhail Sholokhov, “Anna Karenina” não possui grandes acontecimentos históricos como pano de fundo. Pelo contrário, “Karenina” descreve assuntos tão íntimos quanto amor, amizade e valores familiares.

A narrativa gira em torno da simples história de uma mulher casada que se apaixona por um jovem oficial, o qual a corteja e ama profundamente. Ainda assim, suas inseguranças crescentes e a rejeição social conduzem a protagonista a um fim trágico.

Anna deixa para trás dois filhos pequenos, o marido e o amante. Ela acredita que seu amor se tornou um fardo e, logo, consumiu sua existência. Desse modo, sua vida teria perdido o sentido.

“Anna Karenina” parece ter sido escrito seguindo o cenário clássico de Hollywood. Uma bela mulher aos 30 de idade, de espírito forte, quebra os tabus sociais por amor e consegue o que deseja, mas, no final, acaba pagando com a própria vida. E a ideia de valores familiares imutáveis triunfa.

Se Tolstói estivesse vivo, ele poderia muito bem escrever um roteiro baseado em seu romance e levaria um Oscar por isso. “Seus colegas insinuariam que ele havia cinicamente previsto o sucesso de sua história e deliberadamente preenchido a história com os ingredientes certos”, disse a jovem roteirista Nina Belenitskaia à Gazeta Russa.

O escritor russo e dissidente político Zakhar Prilepin também admira o romance de Tolstói. “”As coisas mais importantes da vida acontecem entre um homem e uma mulher, pais e filhos, um indivíduo e sua pátria, o ser humano e a morte”, comenta.

Segundo o escritor, esses temas são eternos e Tolstói conseguiu representá-los de maneira profunda, sábia e mais precisa do que qualquer outro, sem recorrer ao romantismo ou misantropia. “Esse é o grande segredo!”

Heroísmo à prova

“Anna Karenina” foi publicado como série em uma revista russa popular entre 1873 e 1877. Os críticos locais foram duros com o romance, chamando-o de trivial, mas fato é que a obra influenciou gerações de escritores americanos, começando por William Faulkner. 

Até hoje, universidades de todo o mundo dão aulas sobre o romance, e existem até cursos inteiramente dedicados a ele.

Realmente, “Anna Karenina”, tão compreensível e filosófico, não poderia deixar de ganhar fama mundial fora da Rússia. Foram feitas nove adaptações para o cinema mudo, das quais somente duas são de origem nacional. Com a introdução de falas nas telas, mais 15 filmes baseados na obra foram produzidos.

O mais recente deles, dirigido por Joe Wright, que será lançado no Brasil em fevereiro do ano que vem, apresenta Keira Knightley como a problemática heroína.   

A escritora Olga Slavnikova não compartilha tamanha admiração pelo romance de Tolstói, embora admita que é fácil explicar sua popularidade.

“Não tenho tanto apreço por esse trabalho, pois considero muito melodramático. Mas talvez o sentimentalismo seja o segredo de sua popularidade. Muitas mulheres simpatizam com as dificuldades da protagonista, já que Anna perde um filho e o homem que ama”, explica.

“Muitas já fantasiaram em tomar remédios ou pular da janela. Esses pensamentos são instigantes e as pessoas têm vontade de ver como são colocados em prática”.

 

Interposição de enredos

Além do desenrolar dos fatos, o romance possui várias histórias paralelas negligenciadas pelo grande público. Uma delas é a história da família  Oblonski, à qual a frase de abertura do livro se refere.

O irmão de Karenina, Stepan “Stiva” Oblonski, um homem da cidade, ama muito sua mulher, mãe dos seus cinco filhos, mas ele continua sendo infiel a ela. Sua mulher tem verdadeira adoração pelos filhos – uma das cenas mais marcantes do romance é a passagem na qual banha as crianças.

Outro personagem digno de atenção, Konstantin Levin, é autobiográfico em muitas maneiras. Transformando seu nome cristão (Lev) no sobrenome do personagem, Lev Tolstói retrata um idealista russo que apara grama com uma foice junto com os camponeses.

Oras, Tolstói, homem rico e nobre, também juntava-se aos camponeses para fazer trabalhos agrícolas. Levin ama Kitty Stcherbatskaia e o solo russo, mas esconde pensamentos sobre suicídio.

O romance não é, portanto, apenas sobre o amor entre um homem e uma mulher. É uma história sobre o amor em uma escala universal: o amor materno, de filho, à pátria e a todos aqueles que são queridos.

Esses são os temas sublimes que encontravam espaço na imaginação e pensamentos de Tolstói. Reflexões como essas que parecem importantes em todos os tempos, especialmente em épocas de crueldade e cinismo.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.