Disputa territorial afasta Rússia e Japão

Primeiro-ministro da Rússia, Dmítri Medvedev (à dir.) e presidente do grupo Crocus Aras Agalarov (à esq.)  olhando para o Universidade Federal de Extremo Oriente Foto: TASS

Primeiro-ministro da Rússia, Dmítri Medvedev (à dir.) e presidente do grupo Crocus Aras Agalarov (à esq.) olhando para o Universidade Federal de Extremo Oriente Foto: TASS

Apesar do acordo de evitar declarações ríspidas sobre a questão territorial, acertado entre os presidente russo Vladímir Pútin e o primeiro-ministro japonês Yoshihiko Noda durante uma reunião bilateral na recente cúpula do G20, o Japão não cumpriu sua promessa. Moscou aproveitou o ensejo para lembrar que as quatro ilhas reivindicadas pelo Japão fazem parte do território russo.

Em março, às vésperas da eleição presidencial, Vladímir Pútin deu uma entrevista a jornalistas estrangeiras na qual parecia estar pronto para retomar as negociações sobre a questão territorial ilhas das Kurilas do Sul com o Japão. 


“Quando eu for presidente, vamos reunir nosso Ministério das Relações Exteriores de um lado, e do outro, o Ministério japonês, e começar uma discussão sobre o tema”, declarou Putin, dirigindo-se ao jornalista japonês presente na ocasião.


Em Tóquio, isso não passou despercebido. No final de abril, um dos líderes do Partido Democrático do Japão, Seiji Maehara, fez uma visita não oficial a Moscou. No mês seguinte, Tóquio sediou um encontro entre o porta-voz da Duma (câmara dos deputados da Rússia), Serguêi Naríchkin, e o primeiro-ministro japonês e o ministro das Relações Exteriores do Japão. 


O encontro na cúpula do G20 concluiu a troca preliminar de opiniões entre os líderes da Rússia e do Japão. Ambos concordaram em manter contato próximo e realizar uma nova reunião na cúpula da Apec (Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) em setembro deste ano.


Comentando sobre os resultados do encontro, o conselheiro do Kremlin para política exterior Iúri Uchakov afirmou a jornalistas que o diálogo deve ser construído “em um ambiente calmo e construtivo, evitando influenciar o andamento do debate por meio de declarações muitas vezes insustentáveis”.


O tema é claramente delicado. As declarações públicas sobre isso rendem pontos políticos dentro do país, mas também aumentam as chances de arruinar o diálogo, como em vezes anteriores. Ainda assim, o acordo de restrição para as declarações durou apenas uma semana.


Em 24 de junho, o secretário-geral do governo do Japão, Osamu Fujimura, disse a jornalistas que uma possível visita do primeiro-ministro russo Dmítri Medvedev às ilhas Kurilas do Sul “seria contrariar a posição dos japoneses”.


Moscou reagiu imediatamente. “Essas ilhas fazem parte da Federação Russa. Comentários vindos do exterior sobre os planos de viagem de autoridades russas no território do seu próprio país são, no mínimo, inadequados", rebateu o Ministério das Relações Exteriores da Rússia.


Na última terça-feira, 3, Medvedev chegou finalmente à região como parte de sua viagem ao Distrito Federal do Extremo Oriente (DFO). “Esta é uma parte muito importante de Sacalina e de todo território russo”, ressaltou o primeiro-ministro.


Uma nova reação partiu de Tóquio a ponto do governo emitir um protesto oficial. “A visita de Medvedev a Kunashir é um balde de água fria para as nossas relações”, disse o ministro das Relações Exteriores japonês, Koichiro Gemba. 


Após esses acontecimentos, as perspectivas da iminente visita à Rússia até o final deste mês tornam-se ainda mais duvidosas.


No entanto, a disputa territorial pode ser superada por outros interesses em comuns. Além da cooperação em energia e na garantia de segurança no nordeste da Ásia, a questão nuclear da Coréia do Norte também é um motivo para reconsiderar a parceria.


Na verdade, existem muitos temas para futuras conversações entre Pútin e o primeiro-ministro do Japão durante a próxima cúpula da Apec, em Vladivostok. 


A julgar pela declaração do ministro das Relações Exteriores russo Serguêi Lavrov, Moscou não tem a intenção de transformar a discussão sobre o problema territorial em um processo permanente. “Caminhar no sentido de um tratado de paz real é fundamental para nós, por meio de acordos em todas as esferas de cooperação bilateral e de assuntos internacionais”, declarou Lavrov nesta terça-feira durante uma coletiva de imprensa em Moscou.

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