Em casa na desgraça

Em sua mais recente obra “Dia de Opritchnik”, Vladímir Sorókin satiriza as tendências autoritárias do governo russo Foto: AFP / East News

Em sua mais recente obra “Dia de Opritchnik”, Vladímir Sorókin satiriza as tendências autoritárias do governo russo Foto: AFP / East News

Escritores russos contemporâneos exploram catástrofes e desventuras de forma criativas. Cenários variam de barbárie feudal a pesadelos tecnológicos.

Desde que se iniciou o século 21, os russos publicaram um impressionante número de romances futurísticos e pós-apocalípticos. Os cenários variam de barbárie feudal a pesadelos tecnológicos.

Livros proibidos, mutantes vivendo em cabanas primitivas e se alimentando de ratos, uma polícia secreta que comete atrocidades durante o dia e se distrai à noite em orgias regadas a drogas, reencarnações, máscaras de espelho, e facções de guerra que sobrevivem em túneis de passagens subterrâneas já não mais utilizadas.

Esses são apenas alguns dos muitos cenários previstos na última década por escritores russos contemporâneos (respectivamente, Tatiana Tolstáia, Vladímir Sorókin, Anna Starobinets e Dmítri Glukhóvski).

“Encontro muitas distopias, apocalipses e mundos paralelos nos livros que leio, e muitos outros incluem passagens místicas ou fantasiosas que podem ser vistas como uma realidade objetiva”, diz Lisa Hayden, escritora do blog sobre ficção contemporânea russa “Estante de Lizok”. 

Desde que Ievguêni Zamiátin escreveu “Nós”, em 1921, criando uma inspiração para a obra “1984”, de George Orwell, os romancistas produzem visões satíricas do futuro.

Mas recentemente o gênero passou a se comportar como um alienígena dos filmes de terror, gerando incontáveis descendentes.

Sexo, drogas e ditadura

Leitores, escritores, críticos e blogueiros têm inúmeras teorias sobre esse surto de distopias. Também chamadas de antiutopias, as distopias desenvolvem a ficção como antítese da utopia ou uma "utopia negativa"

Os excessos do capitalismo, por exemplo, levaram o mestre russo da ficção científica pós-moderna, Víktor Pelévin, a imaginar uma boate subterrânea onde mulheres nuas, induzidas ao consumo de droga, são usadas como decoração viva.

Enquanto isso, o bad boy Vladímir Sorókin tornou-se famoso por uma cena de gay entre os clones dos ex-estadistas soviéticos Khruschov e Stálin, tornou-se uma figura popular. Já em sua convincente sátira “Dia de Opritchnik”, Sorókin ressuscita os assassinos de Ivan, o Terrível, e os envia para a Rússia em 2028 saqueando pelo país.  

Pelo volume de sexo na ficção russa contemporânea, nada mais justo que um ex-editor da revista “Playboy” estar entre os mais influentes críticos literários do país. Lev Danilkin, atual colunista para a revista cultural “Aficha”, escreve resenhas anuais sobre a cena literária russa há anos, e tem um talento especial para identificar as tendências dominantes. Seu relato oficial dos romances de início do século destaca, entre outras coisas, uma “obsessão pelas ideias de governo, império e ditadura”.

Dmítri Bikov, autor e jornalista premiado, além de personagem extravagante da mídia, escreveu um dos mais notáveis e recentes exemplos do gênero, traduzido para o inglês como “Almas vivas” e publicado no dia 1°de abril – o mundialmente conhecido "dia da mentira". Esse romance rico e ambicioso propõe uma interminável guerra civil entre nacionalistas e liberais na Rússia.

Bikov tem total ciência de que seu trabalho faz parte de uma tradição, atribuindo a nova onda de ficção distópica à estabilidade sufocantedo mandato anterior de Vladímir Pútin - ou estagnação, como muitos diriam.

“Eles nos prometeram que as coisas terríveis - liberalização, guerra - acabaram, e agora todos estão conservados em formol, incapazes de qualquer mudança”, diz Bikov.

Danílkin descreve a citação como um próximo novo gênero: “o que poderia ter sido”. O crítico acrescenta também que, por algum tempo, “a catástrofe foi o tema número um da literatura”.


Dmítri Bikov, premiado autor e jornalista Foto: ITAR-TASS

Apocalipse now

 

Grande vencedora do Prêmio Booker russo em 2006, a obra “2017”, de Olga Slavnikova, faz parte dessa avalanche de romances que descrevem futuros alternativos.

É um trabalho cheio de novas ideias, denso e complexo, que combina ficção científica, romance e suspense. Discorre, entre outros temas, sobre a exploração humana dos recursos naturais e a natureza cíclica da história.

Em uma recente entrevista de rádio, Slavnikova descreveu “2017” como “em primeiro lugar, uma distopia”. “Tenho muito interesse em escrever sobre o futuro, porque nos meus textos posso desenvolver as tendências que observo no presente”, disse então.

Para ela, hoje é quase impossível escrever uma fantasia utópica com final feliz porque “o mundo está à espera de uma catástrofe”. 

Sua representação da agitação nas ruas encontrou eco em acontecimentos da vida real quando milhares de pessoas saíram em protesto contra a fraude eleitoral, e vários blogueiros se referiram a “2017” como uma profecia revolucionária.

“Se você escreve sobre turbulência política, é inevitável se tornar um profeta”, admite, embora com receio de interpretações estritamente ideológicas. “Um monte de obras literárias lançadas na Rússia são vistas pelos críticos como sátira política”, completa.

Anna Starobinets também voltou sua atenção para o impacto social das novas tecnologias.

Seus perturbadores contos de terror já foram traduzidos para o inglês, mas até o momento apenas um trecho de seu último romance, “The living one” (2011), foi publicado na língua, como parte de uma antologia da Academia Rossica chamada “Textos russos do século 21”.

A obra seduz o leitor com uma visão de um futuro imaginário verossímil, onde as pessoas são automaticamente extintas aos 60 anos.

Outros romances apocalípticos, como o extremamente popular “Metro 2033”, de Dmítri Glukhóvski, apresentam simplesmente um desastre genérico, prevendo os efeitos póstumos na sobrevivência humana.

Hereges, sonhadores, rebeldes e céticos 

Na outra ponta do espectro, Vladímir Sorókin se compromete a satirizar as tendências autoritárias do governo russo.

Em uma entrevista para a revista Spiegel, Sorókin descreve “Dia de Opritchnik” como a busca por “uma resposta à pergunta sobre o que distingue a Rússia das verdadeiras democracias”.

A habitual violência de suas romances, ele argumenta, é reflexo da “energia assombrosa” da opressão, que ainda permeia a sociedade russa.

Leitora assídua de ficção contemporânea russa, Iúlia Sukhánova atribui o predominante pessimismo à origem de muitos escritores.

“Os escritores contemporâneos cresceram em famílias com boa formação cultural – professores e mestres –, em ambientes com discussões liberais conduzidas até tarde da noite em cozinhas minúsculas, e todos viram seus pais e amigos serem duramente atingidos pelos últimos 20 anos de mudanças econômicas na Rússia. Não é de se admirar que essas pessoas sejam críticas em relação ao Estado, suas morais e futuro”, diz Sukhánova.

Sukánova também aponta que, tradicionalmente, a expectativa é que “um escritor russo tenha uma forte posição política e uma visão do futuro”.

Muitos dos escritores mais instigantes estão envolvidos com a oposição. “A verdadeira literatura só pode existir onde for criada, não por servidores confiáveis ou aplicados, mas por loucos, hereges, sonhadores, rebeldes e céticos”, escreveu Evguêni Zamiátin, avô do gênero distópico

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