Entre a arte e a ciência

A paixão de um homem pela física e pela pintura pode representar o fim do mercado bilionário de falsificações de obras de arte, mas também gerar uma onda de revolta por parte de compradores enganados e falsificadores.

Físico de ascendência russa que vive no Canadá, Roman Maev ajudou a criar um método de diagnóstico de imagem que pode ser usado para identificar uma verdadeira obra de arte antiga, assim como revelar falsificações.

“Conseguimos visualizar os mínimos detalhes de ícones que ficaram escondidos da civilização por séculos”, explica.

Ele está atualmente focado em revolucionar o mercado mundial de arte, estimado em 40 bilhões de dólares ou, mais precisamente, os 15% desse montante que correspondem às falsificações.

De acordo com o FBI, 6 bilhões de dólares são gastos anualmente com obras falsificadas ou roubadas.

Agora, Maev está em busca de recursos das principais organizações de financiamento científico e empresas de engenharia da Europa para construir seu laboratório.

“Os museus gostam de ideia de laboratórios móveis, pois eles mantêm as obras no local. A gente vai lá e analisa os quadros para estabelecer a autenticidade e danos por meio de elementos químicos e análise de imagem.”

“Cerca de 1.300 quadros do Rembrandt foram importados legalmente para os Estados Unidos, mas ele pintou apenas 400”, explica Maev, referindo-se aos últimos dados do Projeto de Pesquisa Rembrandt.

Aplicar técnicas como microscopia acústica e ultrassonografia de alta resolução, que eram antes somente usados em setores aeroespaciais ou de defesa, para gerar imagens em 3D dos quadros nos permite construir modelos matemáticos que preveem precisamente o nível de deterioração de uma obra de arte antiga.

“Ao aperfeiçoarmos esse modelo, teremos uma espécie de DNA que pode ser usado para determinar com precisão se um quadro é falso ou não”, explica.

Combinando ciência e arte 

Maev conta que quando era adolescente adorava arte. Na década de 1970, porém, quando estava escolhendo o que estudar na faculdade, o filme soviético “Nove dias em um ano”, que retratava um grupo de jovens físicos que salvavam o mundo o fez mudar de ideia.

Mas a paixão pela arte nunca foi esquecida, mesmo depois que, em meio à decadência da infraestrutura científica russa nos anos 1990, o trabalho de Maev o levou a viver permanentemente na cidade canadense de Windsor.

“Em determinado momento percebi que o trabalho desenvolvido na faculdade de física, analisando vidro, madeira e praticamente todos os tipos de material sólido, poderia ser aplicado ao mundo da arte”, explica.

Em 2007, Maev recebeu um auxílio de 200 mil dólares do governo canadense, e mais 50 mil dólares do Museu Púchkin de Moscou em 2010, para testar sua ideia.

“Chamamos um restaurador de primeira linha para o nosso laboratório em Windsor, para alterar um quadro. Na sequência, checamos se era possível determinar o que ele havia mudado”, conta.

“Usando diversas técnicas, inclusive reflectografia térmica, infravermelho de ondas curtas e métodos inovadores de ultrassonografia, conseguimos identificar cada uma das alterações, até mesmo a assinatura falsa que ele havia acrescentado.” 

Maev resolveu então expor sua tecnologia em conferências de arte na Itália, Inglaterra, Dinamarca e Israel, e acabou encontrando parceiros interessados em determinar se suas coleções eram genuínas.

“Assinamos acordos confidenciais com colecionadores riquíssimos. Eu explicava a eles de modo bem simples: ‘Não posso afirmar se você possui um verdadeiro Rubens ou não, mas posso dizer com extrema precisão se o quadro corresponde ao período histórico, se há sinais evidentes de falsificação e se obedece à ‘assinatura’ do autor ou às cores e materiais presentes em toda sua obra”, explica.    

Com o tempo, o método de Maev atraiu o interesse da recém-inaugurada Galeria Príncipe de Liechtenstein, em Viena.

“A cidade possui centenas de galerias, e os proprietários queriam provar que estavam oferecendo obras exclusivas”, conta.

Maev tinha acabado de aprimorar uma técnica que lhe permitia determinar a origem geográfica de uma obra de arte.

“Eles costumavam ter essas confrarias de artistas em praticamente todos os países europeus que determinavam que tipo de pigmentos e tintas eram utilizados nos quadros. Ao analisar essas informações, podemos de cara determinar o país de procedência da obra. Indo um passo adiante, devemos conseguir em breve identificar de qual vilarejo a obra veio.”

 

Depois de patentear sua técnica nos Estados Unidos e em outros 15 países, o objetivo de Maev é criar um laboratório móvel que possa seguir a qualquer parte do mundo.

“Muitas pessoas não sabem que os artistas costumavam oferecer seus serviços por um custo variável, cobravam um certo valor para pintar o rosto de um cliente e seus pupilos finalizarem o resto do retrato. Por um preço mais alto, eles pintavam o corpo todo, e assim por diante. Nossa técnica permite aos museus determinar o quanto de suas obras de arte foram realmente pintadas pelo grande mestre”, explica.

Críticas à parte

Mas Maev tem também uma coleção de críticos.

“Sou um pouco cético em relação a esse tipo de perícia técnica. Vi tantos trabalhos desse tipo relacionados à vanguarda russa que são imprecisos. Ainda não há nada tão bom quanto a certificação de origem da obra e o histórico de exposição de um museu”, explica James Butterwick, notável colecionador e negociador de arte em Londres.

 “Vários museus, especialmente os menores, não querem saber se as peças de seus acervos não são autênticas”, explica Maev. “Alguns deles pagaram quantias fabulosas para adquirir quadros raríssimos que hoje atraem multidões. Ninguém vai ganhar sendo rotulado como falso.”

Na Rússia, já existe o interesse de analisar as principais obras de arte do país por meio das técnicas de Maev.

Existe grande preocupação de que uma onda de violência possa eclodir caso colecionadores endinheirados comecem a descobrir a verdadeira dimensão de falsificação à qual foram submetidos. E a reação contra Maev pode vir dos próprios falsificadores.

Embora a Rússia não esteja pronta para dar um veredito final, Maev está convencido de que, devidamente aplicada, sua técnica poderia alcançar exatamente isso.

“Se a gente conseguir completar o modelo matemático e finalizar nosso entendimento sobre o DNA de um quadro, vamos ficar bem à frente dos melhores falsificadores”, arremata. 

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