‘Do Teatro’, direto do russo

Obra foi o único texto concebido como livro pelo teórico Vsévolod Meyerhold, diretor de teatro que cultivava amizade com Tchekhov, Stanislávski e Eisenstein. O ator e pesquisador de teatro Diego Moschkovich, que traduziu o texto, fala com exclusividade sobre a iniciativa à Gazeta Russa.

Será lançado neste mês o primeiro e único texto concebido como livro pelo ator e diretor teatral Vsévolod Meyerhold. Trata-se da primeira tradução feita diretamente do russo do teórico que sofreu perseguições políticas e foi executado por stalinistas em 1940. 

Meyerhold colaborou no Teatro de Arte de Moscou com o criador do sistema de preparação de atores Konstantin Stanislávski, foi amigo do escritor Anton Tchekhov e mestre do cineasta soviético Serguêi Eisenstein, responsável pela preservação de seus arquivos.

“Do Teatro” sai pela editora Iluminuras e reúne as concepções do diretor sobre a essência da arte teatral. 

A iniciativa de traduzir a obra veio do ator, pesquisador do teatro e formado em artes cênicas pela Academia Estatal de Artes Cênicas de São Petersburgo, Diego Moschcovich, que falou com exclusividade à Gazeta Russa.

Gazeta Russa: Como surgiu a ideia da tradução?

Diego Moschkovich: Sou ator e tenho estudado direção. Esse projeto começou num encontro em Belo Horizonte em que estava presente a francesa Béatrice Picon-Vallin, uma das maiores autoridades em Meyerhold no mundo e tradutora dele para o francês. Ela me sugeriu a tradução para o português e acabou como prefaciadora da edição brasileira.

No total, foram três anos de trabalho. É a primeira tradução direta do russo. Antes desta, houve a edição de alguns textos na década de 1970, mas a partir do francês. 

GR: Mais ou menos como aconteceu com o Stanislávski?

DM: Com Stanislávski a editora norte-americana que detinha os direitos só permitia traduções a partir da versão em inglês, feita sobre rascunhos das décadas de 1920/1930. A versão é incompleta.
Com Meyerhold foi um pouco mais problemático porque, depois que ele foi morto, ficou 16 anos proibido na União Soviética. A edição que havia era de 1913 e se destinava a poucas pessoas, porque a taxa de alfabetizados na Rússia era mínima. Apenas a elite pesquisava teatro. 

“Do Teatro” só foi redescoberto dentro da própria União Soviética em 1968. Aí já estamos no período da Guerra Fria e ficou muito mais difícil as coisas virem para cá. 

GR: Existem outros escritos dele que ainda podem ser traduzidos?

DM: Sim. Este volume é o único livro planejado por ele enquanto autor e se limita a um período muito específico, que vai até 1912. Ele morreu em 1940.

Meyerhold era um diretor com uma vida dedicada a pesquisas de teatro, tem artigos, notas e cartas publicados principalmente nas revistas simbolistas do começo do século 20 na Rússia. Muitas coisas sequer foram publicadas em russo.

As obras completas estão saindo na Rússia aos poucos. Nos últimos anos já saíram três volumes.

GR: Qual a maior dificuldade na tradução?

DM: O teatro depende da prática, da transmissão viva, oral. E quando você tem um período onde essa transmissão é interrompida, fica muito difícil voltar depois. Com Meyerhold isso é um grande problema. 

Em Moscou, uma equipe especializada só trabalha com esses materiais. Muitas coisas são cifradas, são anotações de ensaios, escritas com palavras que hoje em dia ninguém sabe mais o que significavam. Era uma terminologia que pertencia ao teatro que ele praticava, que depois foi proibido, desapareceu.

GR: Que partes do livro você destacaria?

DM: Duas. A primeira parte, em que ele desenvolve a teoria do que é teatro de convenção a partir da crítica ao naturalismo do Teatro de Arte de Moscou. E a terceira, o artigo chamado “Balagan”, um manifesto onde lança todas as bases teóricas do tipo de teatro que ele achava que deveria aparecer depois de uma reforma teatral. 

GR: Por que você acharia Meyerhold um revolucionário do teatro?

DM: Boa pergunta. Porque ele é. O que a revolução copernicana foi para a ciência, a revolução ou reforma teatral de Stanislávski e de Meyerhold foi para o teatro, que, antes, era feito sob o ponto de vista do espetáculo, para agradar o público. A reforma acaba com isso, o espectador deixa de ser o alvo e passa ser testemunha do fenômeno teatral.

GR: Seria uma marcada diferença entre teatro e entretenimento?

DM: Exatamente, embora Meyerhold tivesse muita consideração pelo público. Ele tem textos falando da troca de energia entre o ator e o público.

GR: Era nisso que ele divergia de Stanislávski?

DM: Eles nunca foram inimigos, mas sempre divergiram ferrenhamente a respeito dos métodos para alcançar aquilo que para eles era o fenômeno teatral. Os caminhos foram sempre muito diversos, mas o objetivo sempre foi o mesmo. 

GR: E as relações que Meyerhold desenvolveu com o cinema?

DM: Esse é um tomo que está para ser escrito, porque neste livro que estamos publicando ele ainda é contra o cinema. Em 1912, o cinema era visto como documentação do real, e isso Meyerhold detestava, dizia que retirava a possibilidade de imaginação do espectador. Ao longo do tempo, ele vai mudando de posição.

GR: Você tem contato com o diretor teatral russo Adolf Shapiro, no Brasil e na Rússia. Como vê o teatro aqui e lá? Meyerhold já foi assimilado?

DM: Conheço muito bem o Shapiro e noto um maravilhamento gigante quando ele fala do nosso teatro jovem. Estou completamente de acordo, é uma vantagem não ter toda a amarra da tradição cultural que a Europa tem.

Sobre Meyerhold, especificamente, a questão é muito complicada, porque a transmissão foi cortada quando ele foi assassinado. De todo modo, nos últimos anos eu fiquei muito pouco tempo no Brasil, muitas coisas eu não conheço.

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