Da periferia para o centro do mundo

Foto: Flickr

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Na última década, Brasil e Rússia (além de China e Índia) passaram da periferia para o centro do sistema financeiro global, que tem no G-20 sua instância política e de governança mais representativa.

O G-7 (EUA, Alemanha, Reino Unido, Canadá, Japão, França e Itália) perdeu peso relativo, sobretudo no pós-crise financeira de 2008, por não incluir a segunda maior economia (China), tampouco a sexta (Brasil), nona (Rússia) e décima (Índia). 


Segundo a consultoria PricewaterhouseCoopers, o G-7 vai ser ultrapassado pelo E-7 (BRIC + México, Indonésia e Turquia) em 2032.Não se tratou de vitória diplomática dos emergentes ou concessão dos industrializados, mas pura constatação dos fatos. 


O crítico literário brasileiro Roberto Schwarz publicou, em 1990, o talvez melhor estudo crítico sobre a obra de Machado de Assis, intitulado “Um mestre na periferia do capitalismo”. Essa ideia de periferia vem da Teoria da Dependência, concebida por intelectuais latino-americanos nos anos 1960, entre os quais o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para explicar a inserção do subcontinente no capitalismo global.

Nos anos 1990, vivi sete anos no exterior. Na década seguinte, quatro. E sigo fora, em Moscou. Pude testemunhar a ascensão internacional do Brasil, sobretudo com o presidente Lula e no pós-crise de 2008. 

Nunca poderia imaginar que o Brasil viesse a ser considerado “cachorro grande” no tabuleiro global, o que efetivamente aconteceu no universo dos fluxos de investimento (no comércio ainda não, pois continuamos com 1% do comércio mundial). 


O que diria Machado hoje, se visse o Brasil com o sexto PIB do mundo e com perspectivas reais de galgar ainda melhores posições no primeiro quarto deste século? Mas não nos deixemos iludir: os BRIC seguem sendo sociedades relativamente pobres, se comparadas aos países do primeiro mundo. E com imensos desafios em produtividade e qualidade de vida.

Em 2010, segundo o Banco Mundial, o PIB per capita da UE foi de US$ 31.745, enquanto o do Brasil, US$ 11.210; Rússia, US$ 19.890; China, US$ 7.599; e Índia, US$ 3.425! No caso dos Piigs, foi de US$ 25.416 (Portugal), 32.230 (Espanha), 40.464 (Irlanda), 31.954 (Itália) e 28.408 (Grécia). Pobres relativamente à Europa continuamos nós e as demais sociedades dos BRIC. Os Piigs são ricos endividados, enquanto os BRIC são países em desenvolvimento com as contas em ordem.


E, neste primeiro semestre de 2012, os investidores internacionais ficaram reticentes quanto aos BRIC. As taxas de crescimento na China têm sido as mais baixas desde 2004. A Índia poderá ser rebaixada pelas principais agências de risco de crédito. O Brasil deverá crescer menos de 3% já pelo segundo ano consecutivo. E a Rússia continua muito dependente da variação dos preços do petróleo para se manter crescendo.

Para demonstrar que o brilho dos BRIC não terá sido apenas temporário, entre 2007 e 2010, o que contribuiu para amenizar os efeitos recessivos da crise financeira de 2008, seus governos e sociedades têm uma enorme e diferenciada agenda de trabalho pela frente. Essa passagem “da periferia para o centro” é uma mudança de paradigma, mas não se trata de ponto de chegada ou de uma estável zona de conforto.

Carlos Serapião mora em Moscou e é diretor da B2U Trading. Formou-se no Instituto Rio Branco e tem mestrado em finanças pela École Nationale des Ponts et Chaussées.

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