Tradição histórica revivida por robôs

Ex-campeão mundial de xadrez relâmpago não teve vez contra o robô alemão Foto: chessdom.ru

Ex-campeão mundial de xadrez relâmpago não teve vez contra o robô alemão Foto: chessdom.ru

O centro de Moscou não é só palco de protestos, mas também um ponto de encontro para aqueles que gostam de jogar xadrez ao ar livre em um dos diversos parques da cidade, tradição que remonta ao século 19. O que os antepassados não imaginavam, contudo, é que as partidas no futuro seriam realizadas por robôs.

Na primavera, muitos moscovitas aficionados por esse jogo antigo invadiam os parques da cidade para enfrentar seus colegas ao canto dos pássaros e cheiro de lilases, jogando, não raro, até o anoitecer. 

O historiador Iúri Lótman conta que o xadrez era uma paixão geral e era jogado por todos, desde os imperadores até os plebeus. Sua popularidade era maior do que a dos jogos de cartas. Nem mesmo os sacerdotes resistiam à tentação de mover peças no tabuleiro. 

Como resultado dessa febre na Rússia, o mundo conheceu grandes mestres no jogo, como o peterburguense Mikhail Chigórin e o moscovita Aleksandr Alékhin.

Neste ano, Moscou vive um novo surto de interesse pelo xadrez. Prova disso foi o campeonato mundial de xadrez realizado no mês passado na Galeria Tretiakov, que atraiu milhares de espectadores em uma disputa entre o indiano Viswanathan Anand e o israelense Boris Gelfand, natural de Minsk, capital da Bielorrússia.

Alemão de ferro

No final do mês passado, os ânimos estavam exaltados no bulevar Strastnoi, perto do monumento ao famoso compositor russo Serguêi Rakhmaninoff. 

O ex-campeão mundial de xadrez relâmpago, modalidade em que todos os lances devem ser feitos num limite de tempo inferior a 15 minutos, Aleksandr Grichuk, enfrentou, um robô industrial alemão chamado Kuka Monstr.  

Não é difícil entender o porquê do nome. Apelidado de “Exterminador Kuka”, o  robô é capaz de manipular peças com um peso de até cinco toneladas. Para a sorte dos presentes, contudo, durante jogo em bulevar Strastnoi, o monstro foi configurado parar pegar cuidadosamente as peças e mexê-las com toda a delicadeza pelo tabuleiro.

As três primeiras partidas iniciadas por Aleksandr Grichuk terminaram em empate. Mas quando chegou a vez do Exterminador Kuka jogar com as brancas, Grichuk saiu na desvantagem. Como era de se esperar, o robô venceu o xadrezista russo por 4,5 a 1,5. 

“Ele quase me matou com seu braço de ferro”, comentou Aleksandr Grichuk após o jogo.  “Para fazer um lance, moveu seu braço de forma tão rápida e inesperada que fiquei um pouco desnorteado e tive de me esquivar.”

Segundo o jogador russo, o convite para jogar contra o robô foi experiência completamente diferente. “Mas eu sabia que não tinha nenhuma chance contra ele”, disse Grichuk.

Revanche russa

Para derrotar o robô russo, a Rússia não deixou barato: criou seu próprio jogador mecânico. E conseguiu.

O monstro alemão foi construído recentemente e, apesar de seu nome assustador, possuía uma aparência muito simpática.  Em comparação a ele, seu rival, o robô russo CHESSka, parecia mais o personagem do conto de fadas O Pequeno Polegar. 

Robô russo CHESSka (à esq) levou a melhor na revanche  Foto: chessdom.ru

Todo branco, e algumas partes laranja, o CHESSka tinha, entretanto, um currículo mais extenso, marcado pelas vitórias sobre os campeões mundiais Vladímir Krâmnik, Aleksandra  Kosteniúk e Serguêi Kariákin. 

Desenvolvido pelo pai de Aleksandra Kosteniúk, Konstantin Kosteniúk, o CHESSka consegue jogar simultaneamente em três tabuleiros, fator que o ajudou a vencer o Kuka Monstr. 

“Realizamos o primeiro jogo entre robôs para o título de campeão absoluto de xadrez relâmpago da história”, conta Konstantin Kosteniúk. 

Segundo o criador do CHESSka, outros países, como os EUA, China, Coreia do Sul, Suécia e Japão, demonstraram interesse por torneios desse tipo. “Pretendemos criar uma Super Liga de Robôs de Xadrez e realizar anualmente campeonatos mundiais. Acho que isso contribuirá para o desenvolvimento e massificação de xadrez”, arremata. 

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