G20 deve assumir liderança nos assuntos globais, diz Pútin

Foto: TASS

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O presidente russo Vladímir Pútin fez nesta quinta-feira (21) um discurso caloroso no Fórum Econômico Internacional, em São Petersburgo. Além de falar sobre questões internacionais, abriu concessões aos manifestantes da oposição e repetiu o apelo de transformar a economia russa.

O discurso começou com um olhar sobre os tradicionais líderes mundiais e, em seguida, o presidente russo pediu ao G20 para assumir a liderança nos assuntos globais. 

Pútin disse que os Brics iriam contribuir com US$ 75 bi ao FMI (Fundo Monetário Internacional), dos quais US$ 10 bi serão provenientes da Rússia, mas ressaltou que os países do grupo deveriam ter mais poder nas decisões da organização caso isso aconteça.

Mais adiante, ele afirmou que a Rússia estava disposta a receber investimento estrangeiro, “mesmo nos setores estratégicos”, mas, para esse investimento ser concretizado, deveria fazer parte de um acordo mútuo. 

“As empresas russas que quiseram investir em outros países enfrentaram barreiras e pretextos artificiais que impediram a conclusão dos processos”, disse Pútin. “Isso está longe de ser uma parceria.”

Pútin também destacou o conceito de “responsabilidade”, em referência à fraca governança dos EUA, que colocou a economia global de joelhos. 

“Temos que acabar com o populismo mesquinho dos políticos e  com a especulação fiscal desenfreada, pois isso é perigoso”, disse Pútin, colocando a culpa da crise mundial e sua incapacidade de sair dela nos Estados Unidos.

Lição de casa

O presidente russo passou então para os assuntos da agenda interna e expôs as conquistas econômicas da Rússia nos últimos tempos, incluindo as baixas taxas de inflação e desemprego que predominam há 20 anos. Entretanto, segundo ele, um dos motivos pelos quais o desemprego é tão baixo (5,4%) se deve ao esgotamento da capacidade econômica do país. Isso significa que a Rússia precisa de investimento pesado para criar novos empregos – sobretudo nos setores de alta tecnologia, uma das prioridades do governo. 

Pútin novamente citou as promessas anteriores de fortalecer o setor de alta tecnologia, bem como a necessidade de elevar a posição russa no ranking de facilidade de se fazer negócios elaborado pelo Banco Mundial, para tornar-se um dos melhores lugares de investimento do mundo. 

Ao que tudo indica, é cada vez mais provável que diversos esforços serão feitos para alcançar esse último item, já que na sequência o presidente desfiou uma lista de mudanças necessárias para elevar a Rússia da 120ª posição em 2012 para o vigésimo lugar.

Embora isso pareça favorável, há um certo truque no manejo dessa situação. Afinal, é possível focar nos fatores sobre os quais a lista é calculada e então melhorar dramaticamente a pontuação sem promover uma grande e verdadeira diferença no modo como os negócios são realizados. 

Ainda assim, se a Rússia for capaz de uma rápida ascensão no ranking, será praticamente a primeira vez que o Kremlin tenta qualquer medida de relações públicas para melhorar o clima de investimento, o que já é por si só um progresso. 

O ex-governador regional Boris Titov ficara encarregado de certificar que os negócios estão realmente sendo facilitados em todo o território russo.

Mudança de base

Pútin prometeu ainda que haverá “em breve” uma alteração na regra orçamental. Pela nova norma, o orçamento não será definido com base nas previsões do preço de petróleo, como ocorre atualmente – ou seja, se o valor do petróleo sobe, a Duma tem mais dinheiro para gastar. 

O presidente sugeriu que o preço do petróleo será limitado e quaisquer receitas inesperadas provenientes de valores elevados de comercialização do produto serão canalizadas para os diversos fundos de reserva.

A questão principal nesse ponto se refere ao nível ao qual o preço do petróleo será limitado. Na semana passada, o estrategista-chefe do Citigroup, Kingsmill Bond, pediu para Rússia limitar a previsão do preço do petróleo no orçamento a US$ 80, garantindo que fosse calculado sobre uma base mais estável.

Sociedade em pauta

Por fim, Pútin fez algumas concessões ao movimento da oposição, que realiza protestos desde dezembro do ano passado. Ele mais uma vez se comprometeu à necessidade de desenvolver a sociedade civil na Rússia.

“Vimos uma sociedade civil começar a surgir na Rússia devido a uma década de crescimento. Isso é saudável e nós entendemos que uma economia madura não pode se tornar um país desenvolvido sem uma sociedade civil”, afirmou. 
“O Estado precisa caminhar em direção a isso, para que tenhamos não só um governo legítimo, mas também um governo no qual as pessoas possam confiar. Os interesses da minoria devem ser respeitados e atendidos na medida do possível”, completou Pútin.

Ao pé da letra, trata-se de uma iniciativa liberal que contradiz todas as reclamações contínuas sobre repressão na Rússia. Mas resta dúvida sobre o ritmo dessas transformações, já que, segundo Pútin, os passos serão dados lentamente e, é claro, sob seu comando. 

O presidente continuou o discurso, alertando que qualquer mudança deve ser realizada “dentro da lei”, onde o Kremlin detém todas as cartas.

No entanto, em uma declaração surpreendente, ele anunciou que qualquer cidadão russo que coletar mais de 100 mil assinaturas “autorizadas” pode agora propor uma lei que será avaliada pela Duma. 

Embora essa iniciativa provavelmente não leve a uma série de mudanças, oferece à incipiente oposição um instrumento real para propor políticas e leis.

Pútin parecia seguro e sob controle da situação. Como sempre, a teoria é válida, mas devemos aguardar para que as medidas sejam feitas da forma como foram anunciadas. 

Sobre a ascensão no ranking do Banco Mundial, estamos confiantes de que isso irá acontecer. Já em relação à promessa de reduzir a participação do Estado na economia por meio de privatizações abertas e transparentes, a certeza não é tão grande. 

Originalmente publicado em  Business New Europe

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