Um milênio de histórias

Sociedade filantrópica em São Paulo acolhe idosos de origem russa que testemunharam mudanças importantes e tragédias do século 20.

Quem passa pela rua dos Cafezais, na zona sul de São Paulo, e vê a casa de muro claro e portão alto não imagina que ali dentro habitam duas dezenas de pessoas que testemunharam boa parte das transformações do século passado ao redor do mundo.


Na casa de repouso batizada Lar São Nicolau, uma placa indica que ali funciona a “Sociedade Filantrópica Paulista”.  Lá vivem 22 idosos, com idades entre 80 e 93 anos. A maior parte é de imigrantes de origem russa que vieram para o Brasil no início do século passado.


“Aqui conservamos todas as tradições russas. Há bandeiras da Rússia nos cômodos, objetos típicos do país e uma biblioteca com mais de mil livros russos”, enumera Igor Chnee, presidente da Filantrópica Paulista há 17 anos.


A Sociedade Filantrópica Paulista foi fundada em 1946 por um grupo de imigrantes russos que enriqueceram com o cultivo de café em São Paulo. 


A ideia surgiu quando um desses homens, Arkadij Selianinov, encontrou um idoso russo deitado em uma calçada no centro de São Paulo. Foi então que decidiu ajudar os compatriotas que não tiveram a mesma sorte no Brasil.


Caçula


Alexandre Rogulin, o idoso mais jovem do lar, mudou-se para o lar há dez anos. Sua mãe nasceu na Estônia e o pai na Rússia. Casaram-se em São Petersburgo e se mudaram para os Balcãs em 1917. Seu pai era oficial da monarquia russa e achou melhor se mudar do país após a revolução ocorrida naquele ano. 


Ele nasceu nos Balcãs, na antiga Iugoslávia, e se mudou para o Brasil com os pais aos 19 anos, logo depois da Segunda Guerra Mundial, quando suas duas irmãs mais velhas já moravam no país.
Alexandre naturalizou-se brasileiro nove anos depois. Antes disso, casou-se com uma brasileira de ascendência russa. O casamento durou apenas quatro anos – ele queria filhos, ela não. 


Depois da separação, nunca mais casou, mas não deixou de se encantar pelas mulheres brasileiras. Sobretudo as mineiras, que conheceu quando participou de um retiro espiritual em Juiz de Fora (MG).


“Era um menino quando conheci um velho místico, que estava de passagem pelos Balcãs. Ele tinha uma aura diferente e isso me atraiu. Ali começou meu interesse pelos assuntos místicos, que eu desenvolveria mais tarde no Brasil”, conta Alexandre. 


Ex-professor de ioga, ele parou de praticar há apenas alguns anos, mas continua se dedicando à leitura de sábios místicos.

Além de russo, sérvio e português, Alexandre fala inglês e alemão. Formado em Letras pela Universidade de Guarulhos, trabalhou durante 25 anos como professor de inglês em uma escola americana, no centro de São Paulo, e se aposentou em 1998. 


Em 2002, perto de completar 70 anos, Alexandre começou a enfrentar problemas de saúde decorrentes da idade, como hipertensão e diabetes. Como morava sozinho, decidiu mudar-se para a casa de repouso para ter um acompanhamento mais constante.


“Aos 70 anos passei por uma fase difícil. Sonhava com o aconchego de um lar ondepudesse me dedicar às minhas leituras sem me preocupar com os problemas de administrar uma casa. Aqui, tenho acompanhamento médico, tomo meus remédios e mantenho o diabetes e a pressão sob controle”, resume.


Alexandre jamais voltou para a região dos Balcãs e diz que nunca teve vontade nem mesmo de visitar o local em que nasceu, já que perdeu totalmente o contato com todas as pessoas que conheceu na Iugoslávia.


Uma de suas irmãs já faleceu, mas a outra continua morando próximo dali e Alexandre, que é um dos poucos idosos que têm a possibilidade de sair da casa de repouso sozinho, sem autorização da família, costuma visitá-la todos os sábados, quando geralmente vão a concertos. Ele tem ainda três sobrinhos, sete sobrinhos-netos e um sobrinho-bisneto, que recebeu o seu nome.


Recebe visitas de todos, principalmente em datas comemorativas, quando as famílias dos idosos são convidadas para almoços ou jantares no local. “O bufê de dona Elena é imbatível”, elogia, citando a supervisora geral do Lar São Nicolau, Elena Konovalova, que trabalha na casa de repouso desde 2004.


Café da manhã na cama


Elena mudou-se para o Brasil com a família há 18 anos e se diz muito realizada com o trabalho que desenvolve na casa de repouso. Ela assegura que todos os idosos são tratados com atenção e carinho e recebem até algumas “mordomias”, como café da manhã na cama, quando não querem ir até o refeitório.


Não é o caso de Maria Filonas Yacovlevna, de 92 anos. Ela reclama do horário do café da manhã, que é servido “muito cedo”, mas não pretende fazer o desjejum na cama em breve. “Enquanto eu estiver bem e andando, irei levantar para tomar o café na cozinha”, afirma.


Moradora do lar desde novembro passado, Maria viveu sozinha em um apartamento por 30 anos, após a morte da mãe. Aos 91 anos, começou a sentir que já não conseguia dar conta das tarefas domésticas e procurou a casa de repouso.


Filha de russos, Maria nasceu na Lituânia em 1920 e mudou-se com a família para o Brasil quando tinha seis anos de idade. “Antes de eu nascer, meu pai morou oito anos nos Estados Unidos e lá ouviu falar muito de São Paulo. Diziam que era uma cidade moderna, que havia boas oportunidades para todos, então ele decidiu que mudaríamos para o Brasil”, conta ela.


A família se instalou no bairro do Bom Retiro e Maria frequentou uma escola para imigrantes russos. “Até a morte de meu pai, em nossa casa só falávamos russo”, diz. Ainda muito jovem, começou a trabalhar em lojas de roupas como compradora, escolhendo com fornecedores as peças que seriam compradas pelos lojistas. Trabalhou em grandes lojas de departamento, como as antigas Mesbla e Mappin, sempre no setor de roupas femininas.


Maria se aposentou aos 55 anos de idade e cuidou da mãe até sua morte. Ela visitou a Lituânia, a Rússia e outros países do leste europeu cinco vezes, sempre em excursões. Apesar de gostar de rever os locais de suas origens, Maria prefere o Brasil. “Quando voltei de viagem da Europa pela primeira vez, fiquei muito emocionada ao chegar ao Brasil. A sensação era de que eu estava realmente voltando para casa. Nunca voltaria para a Lituânia, foi aqui que minha família seestabeleceu e que fomos felizes”, diz.


Maria soube da existência do Lar São Nicolau por meio de uma amiga, também descendente de russos. Hoje, ela recebe a visita dos filhos de sua irmã. “Meus sobrinhos me convidam para visitá-los, mas prefiro ficar aqui, para não dar trabalho. Aqui encontrei uma família. Agora, quando volto para minha casa me sinto estranha.”


Origem do Lar São Nicolau


A maior parte dos residentes do lar são russos, bielorrussos e ucranianos naturalizados brasileiros, mas há também idosos que nasceram no Brasil e outros que nasceram na Iugoslávia e Alemanha.

Elena conta que o asilo já recebeu entre seus moradores descendentes da aristocracia russa. “Já acolhemos uma senhora formada pela universidade de Cambridge, um idoso que falava sete línguas, uma bailarina russa e até uma prima do tsar Nicolau II. Pessoas muito cultas, que tiveram experiências muito ricas, mas, infelizmente, em alguns casos a doença acaba apagando esse passado”, diz Elena, fazendo menção ao mal de Alzheimer.


Conhecido pela comunidade russa da América do Sul, o lar já recebeu moravam na Argentina e no Paraguai, além de pessoas de outras cidades do Brasil. A casa de repouso se mantém por meio da contribuição financeira dos próprios idosos ou de suas famílias e com a ajuda de doações da comunidade russa.


A partir da sociedade filantrópica surgiu o Lar São Nicolau, que funciona até hoje na rua dos Cafezais e atualmente é a única casa de repouso para idosos de origem russa da América Latina.

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