Rússia pega carona no Transiberiano 

Illustração: Dívin

Illustração: Dívin

Especialistas debatem a possibilidade de criar uma terceira capital da Rússia no Extremo Oriente, combinando, assim, a cultura europeia à evolução econômica dos países asiáticos.

Três capitais e um só pais


Rússia requer um projeto mais ambicioso do que as Olimpíadas ou um voo para Marte para estimular o desenvolvimento uniforme de sua economia. A exploração das regiões asiáticas do país e a construção ali de uma terceira capital federal permitiria ao país absorver as melhores oportunidades tanto do Ocidente como do Oriente. 

Serguêi Karaganov

 

Não é nenhuma novidade que a Rússia precisa aderir ao crescimento econômico da Ásia e começar uma nova fase de desenvolvimento da Sibéria, com destaque para as regiões subdesenvolvidas do Transbaikal.

A locomotiva asiática Ásia já é aproveitada pelos EUA, que encontraram na região novas fontes de crescimento, além de países desenvolvidos da Europa.   Só a vizinha Rússia parece ficar de braços cruzados, numa espécie de prazer masoquista perante o  despovoamento da Sibéria e o receio de maior proximidade com a China.

O porquê a Rússia age dessa maneira tem raízes históricas. No século 20, a exploração da Sibéria e do Extremo Oriente russo foi um processo marcado por métodos socialistas autoritários. Após a queda do comunismo, o impacto foi especialmente doloroso para a região.  

A isso também sobrepõe-se a incapacidade da elite russa, seja de direita ou esquerda, de abandonar o já antiquado modelo eurocêntrico e avaliar adequadamente a dimensão do poderio econômico da Ásia.  

Nos últimos dois ou três anos, o desejo de se voltar para os países asiáticos foi diversas vezes mencionado pelos governantes Vladímir Pútin e Dmítri Medvedev. O resultado disso foi uma maior cooperação comercial entre os dois lados.  

Recentemente também surgiu a ideia de criar uma corporação estatal para o desenvolvimento da Sibéria Oriental e Extremo Oriente russo, levantando extensa especulação da imprensa.  

Economistas renomados se pronunciaram contra esse plano e foram apoiados por autoridades de alto escalão. Foi então que surgiu a proposta de criar um ministério específico para lidar com o assunto.  

Princípios básicos

Independente dos instrumentos necessários à implementação de uma nova política de desenvolvimento da Sibéria, alguns princípios parecem fundamentais para sua realização.  

A iniciativa, contudo, não deve estar baseada na recuperação do passado, por mais maravilhoso que pareça, mas nas oportunidades oferecidas pelo presente e futuro.  

Antes de mais nada, não vale a pena lamentar o desiquilíbrio da balança comercial com a Ásia nem estimular um processo de industrialização do país quando a região vizinha oferece uma mão de obra muito mais barata e muito mais numerosa em qualquer setor.  

Seria mais prático entender que a industrialização asiática, acompanhada da escassez de água e alimentos na região, proporciona à Rússia vantagens competitivas e oportunidades sem precedentes para a produção e exportação de matérias-primas agrícolas com o maior valor agregado possível.   É também preciso criar condições para a maior abertura possível do Trans-Urais ao mundo externo e deixar de encarar a Sibéria como “retaguarda estratégica” no confronto com o Ocidente ou como “frente de luta” em relação à China. Esses estereótipos do passado ofuscam as perspectivas e têm impacto negativo sobre a política.  

Para o desenvolvimento da região, são necessários investimentos estrangeiros – e não só chineses –, provenientes dos EUA, Japão, Coreia do Sul, países da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e da Europa. O clima de investimento deve ser favorável possível de modo que o principal critério de avaliação de eficiência do trabalho das autoridades locais seja o volume de investimentos atraídos.  

Capital atrai capital

A fim de quebrar a visão estereotipada da Sibéria, seria interessante criar uma nova capital do país no Extremo Oriente em vez de ampliar os limites de Moscou e, assim, concentrar os melhores recursos da Rússia em um só ponto.  

As funções de centro de decisão política, militar e diplomática poderiam ser atribuídas a Moscou; São Petersburgo continuaria sendo o centro cultural e legislativo do país, e os aspectos econômicos poderiam ser avançados em uma nova cidade no Extremo Oriente.  

Se os líderes do país anunciassem a intenção de concretizar essa ideia na próxima cúpula da Apec (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico) em Vladivostok, a relevância internacional do país, que está em declínio devido à falta de perspectivas de desenvolvimento, irá aumentar significativamente.  

Estímulo social

Uma das principais medidas é o apoio a jovens especialistas locais para, assim, evitar o constante fluxo emigratório para demais regiões da Ásia e Europa.  

O Estado deve criar condições para a sociedade se desenvolver economicamente. Para tanto, será necessário investir em infraestrutura básica e diminuir a presença estatal nos assuntos econômicos. Afinal, sabemos muito bem quão eficazes são atividades econômicas exercidas pelo Estado.  

A construção de uma cidade com funções de capital federal no Extremo Oriente russo poderia atrair jovens ambiciosos e talentosos, além de empresários experientes, estreitamente os laços entre a Rússia e os países asiáticos.  

Um exemplo desse feito no passado pode ser encontrado na época do primeiro-ministro russo no início do século 20, Petr Stolipin, quando a grande migração de agricultores para a Sibéria contribuíram imensamente para o desenvolvimento da região.  

Ao acumular experiência e capital, os novos exploradores da Sibéria puderam ocupar cargos políticos, dos quais os melhores representantes são Aleksandr Khlopônin e Mikhail Prôkhorov.    

Serguêi Karaganov é presidente da mesa do Conselho para Política Externa e Defensiva da Rússia.   }

Mudança de eixo


Instabilidade na União Europeia propõe nova questão para o governo russo. Está na hora de instalar uma nova capital perto do próspero Oriente?

Evguêni Chestakov  

 

Algumas teorias sugerem que nos próximos anos a Europa irá perder o status de maior parceiro econômico da Rússia. Prova disso são alguns fatores associados à formação do novo governo russo e os levantamentos conceituais de especialistas aprovados pela liderança do país.  

Ainda há pouco, a Rússia acreditava nos frutos de seu relacionamento com a União Europeia, mas a relutância ocidental em analisar a opinião de Moscou sobre o escudo antimíssil europeu, assim como os problemas econômicos enfrentados na Europa, levam o país a reconsiderar suas relações internacionais e se voltar ao Oriente como alternativa, sobretudo por sua posição geográfica.  

O governo russo faz todo esforço possível ​​para se fixar na Ásia e, assim, promover seus interesses econômicos nos mais diversos organismos regionais. A hipótese de transferir o centro econômico para o leste do país foi reiteradas vezes por especialistas, embora nenhum resultado prático tenha resultado desses debates.  

Mesmo a realização da cúpula do Apec (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico) em Vladivostok neste ano e as eventuais perspectivas daí decorrentes não foram vistas como alternativa de diálogo com o Ocidente.  

O desenvolvimento do Extremo Oriente russo e a aproximação econômica da Rússia aos cada vez mais influentes Tigres Asiáticos, China, Coreia do Sul e Japão, caminha paralelamente às relações econômicas com a Europa.    

Mar de rosas

A situação, porém, mudou drasticamente nos últimos tempos. Ao contrário dos atritos nas relações entre União Europeia e Rússia, a parceira entre Moscou e os países asiáticos corre tranquilamente.  

A Rússia encara a Ásia como um porto seguro e recebe dos colegas orientais as garantias necessárias de que suas relações bilaterais com Moscou continuarão de vento em polpa.  

Já em relação ao continente europeu, a preocupação de Moscou é intensificada com as medidas dos ocidentais para reduzir sua dependência de matérias-primas russas e encontrar fontes de energia alternativas. Essa instabilidade nas relações associada à crise econômica que assola a UE empurra mais uma vez a Rússia para os mercados asiáticos, mais abertos e acessíveis.  

Isso sem considerar os fatores internos da Rússia. As teses de ameaça de despovoamento da Sibéria e de expansão chinesa ao Extremo Oriente russo, muito em voga na época soviética, são cada vez menos mencionadas em discursos públicos de autoridades russas.  

Ao se desligar da visão estereotipada de Sibéria como “retaguarda” no confronto com o Ocidente e “frente de luta” no conflito com a China, Moscou terá novas possibilidades econômicas. Basta, então, reorientar os investimentos e fluxos comerciais do Ocidente para o Oriente e transformar a região não só em uma base de matéria-prima, como também num centro de modernização do país.  

Alternativas possíveis

O governo vinha examinando duas estratégias viáveis. A primeira previa a criação de uma corporação estatal para o desenvolvimento do Extremo Oriente russo, e a outra baseava-se no estabelecimento de uma estrutura de governo para implementar grandes projetos econômicos na região.  

O novo governo russo optou pela segunda opção, criando um Ministério para o Desenvolvimento do Extremo Oriente russo, cujo responsável é Víktor Icháev, ex-representante plenipotenciário do presidente russo do Extremo Oriente.  

Ainda assim, a criação de um ministério responsável pelo desenvolvimento local não significa que o governo tenha desistido da ideia de  constituir uma corporação estatal para o Extremo Oriente russo.  

Diversos observadores políticos veem a nomeação de Icháev como o primeiro passo para a concretização de  um projeto ainda mais ambicioso, intensamente discutido nos últimos anos na sociedade russa. Isto é, transformar o Extremo Oriente em um centro econômico e instalar ali a uma terceira capital federal.  

Dentre as cidades citadas como possíveis candidatos para tal função, destacam-se Iekaterinburgo, Krasnoiársk e Khabárovsk. Paralelamente, Moscou continuaria sendo capital política do país e São Petersburgo, o centro cultural da Rússia.  

Os adeptos dessa redistribuição de funções como catalisador do desenvolvimento de regiões interioranas citam como exemplos bem-sucedidos o Brasil, Alemanha e Cazaquistão. No entanto, especialistas alertam que, apesar de todas as aparentes vantagens, a criação de uma terceira capital federal nos Urais poderia gerar imprevisíveis consequências sociais e políticas.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.