“Férias espaciais em órbita serão moda”

Serguêi Jukov Foto: Kommersant

Serguêi Jukov Foto: Kommersant

Com o desenvolvimento tecnológico, empresas privadas apostam em viagens intergalácticas e a ideia de férias e extração mineral no espaço se torna uma realidade cada vez menos distante.

Diretor do departamento de tecnologia espacial do centro de inovação Skôlkovo, Serguêi Jukov falou à Gazeta Russa sobre o futuro do espaço e o papel da Rússia nesse cenário.


Gazeta Russa: Como o senhor avalia importância do setor espacial na política global ao longo das últimas décadas?


Serguêi Jukov: A economia mundial está se tornando cada vez mais dependente do volume de atividades espaciais. 


O mercado para produção de serviços e tecnologia espacial está estimado entre 300 e 400 bilhões de dólares por ano, dividido em vários segmentos. Os maiores deles são o de comunicação via satélite (com mais de 100 bilhões de dólares), navegação e sensores à distância. 


A participação da Rússia nesses segmentos é de menos de 1%. Na produção de satélites de vários tipos, nossa participação é de 7 a 10%. Nossa cota é movimenta cerca de 3 bilhões de dólares anuais.   

GR: O que impede a Rússia de aumentar sua participação no mercado espacial internacional? 


SZ: Por um lado, o financiamento estatal de atividades espaciais na Rússia mais que triplicou ao longo dos últimos cinco anos, e ainda está crescendo. A nova estratégia espacial é amplamente discutida. 


Por outro, não há praticamente indústria privada nesse setor, enquanto a tendência mundial tem um envolvimento nunca antes visto do setor privado na exploração espacial. 


Além disso, existe uma divisão internacional de trabalho em setores de alta tecnologia, e a Rússia não deveria hesitar em formar alianças com os principais produtores mundiais.


GR:  Os norte-americanos conquistaram a liderança das atividades espaciais no mundo devido às alianças com o setor privado? 


SZ: Os EUA são hoje o único país envolvido em quase todos os tipos de atividade espacial. Isso não é à toa. Se juntarmos seus orçamentos civil e militar, a soma certamente excede o gasto total do resto do mundo em atividades espaciais. 


Quanto ao desenvolvimento do setor privado, a política norte-americana segue uma estrita divisão de responsabilidades: o estudo do sistema solar, incluindo planetas e asteroides, é negócio do Estado, enquanto o desenvolvimento do espaço próximo à Terra está no domínio das companhias privadas. 


É preciso lembrar que os grandes contratos da agência espacial norte-americana hoje, seja com Boeing, Lockheed Martin ou Orbital, são com empresas privadas. Elas garantem a liderança tecnológica dos Estados Unidos. 

GR: O sr. acredita que algum dia as pessoas vão preferir passar férias em órbita invés de ir a praias ensolaradas? 


SZ: O caso da Virgin Galactic, que recebeu pagamentos de centenas de pessoas para um futuro voo sub-orbital, mostra que o mercado turismo espacial tem futuro. 


Não fico surpreso em ver que muitos estão dispostos a pagar uma bolada para vivenciar a ausência de gravidade por alguns minutos e ver a Terra de fora. Quando a tecnologia se tornar segura e barata, esse tipo de viagem pode virar moda. 


A Rússia planeja entrar nesse mercado, mas também temos outros projetos promissores. 

GR: Qual tipo de projetos a Rússia tem em mente no momento?


SZ: No ano passado, o sistema Glonass finalmente foi implantando. Ele é o segundo sistema de navegação do mundo. O primeiro [GPS] foi concebido pelos americanos. 


A Fundação Skôlkovo apoia atualmente diversos projetos ligados de navegação e acreditamos que esse é o caminho para comercialização do Glonass.


GR: Existem produtos domésticos inovadores prontos para o mercado?


SZ: Essa é uma pergunta difícil. As tecnologias de energia e engenharia russas têm boas chances. Quero dizer, engenharia de foguetes e usinas nucleares espaciais. 


Cabe também lembrar de soluções técnicas menos espetaculares, mas igualmente importantes, na área de plataformas espaciais e sistemas de serviço de bordo. Os membros do projeto Skôlkovo estão trabalhando em tais projetos.  


GR: Quem apoia iniciativas privadas na Rússia além da Fundação Skôlkovo?  


SZ: Outras instituições de desenvolvimento começaram a apoiar o setor comercial antes de nós. Dentre elas, podemos citar a Russian Ventura Company e a Rosnano. O banco Vnesheconombank também investe ativamente em grandes projetos.


GR: Como é a posição dos empresários russos ao setor espacial? 


SZ: A Rússia praticamente não possui uma legislação sobre atividades espaciais comerciais. A legislação federal nessa área foi aprovada em 1993 e, desde então, recebeu várias emendas. 


As empresas privadas simplesmente não entendem as regras do jogo e os empresários têm medo de investir no setor. Além disso, existem muitas restrições, como, por exemplo, para fotografias espaciais de alta resolução e a obtenção de licenças para atividades espaciais.  


GR: O sr. acha que no futuro o homem poderá de extrair minerais na Lua e talvez em outros planetas? 


SZ: Por enquanto isso é ficção científica. Mas não descarto que isso possa acontecer em algumas décadas. Existe água, magnésio e alumínio na Lua, bem como asteroides apropriados para produzir combustível e estruturas de espaçonaves e estações permanentes. 


O empresariado norte-americano tem planos ambiciosos para extrair elementos de solos raros e transportá-los à Terra. Refiro-me ao empresário Peter Diamandis e alguns de seus colegas, que fundaram o consórcio Planetary Resources Inc. no final de abril deste ano. 


Os negócios espaciais mundiais estão se desenvolvendo rapidamente e temos que aguardar os resultados. 

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