Diálogo imaginário com Púchkin

Ilustração: RIA Nóvosti

Ilustração: RIA Nóvosti

Duzentos e trezes anos atrás nascia o homem que traduziu como ninguém a realidade da sociedade russa até os dias de hoje.

Poeta incomparável e criador da língua russa moderna, Aleksandr Púchkin teve uma vida fantástica, porém inusitada aos olhos de algumas pessoas.


Faleceu aos 36 anos, deixando uma dívida de 92.500 rublos, quatro filhos e uma linda esposa da alta sociedade – tão bela quanto fútil. 


Para muitos, a vida de Púchkin é um paradoxo e mistério. O paradoxo está no fato de um jovem baixinho e aparência retraída ter criado a linguagem e pensamento absolutamente necessários à Rússia moderna. O mistério, por sua vez, é o fato continuar a ser para os russos uma figura mais relevante do que qualquer rei, mártir ou estrela de rock. Costumo não confiar em meus contemporâneos quando se trata de questões importantes. Por isso, ocorre-me várias vezes a ideia de ter conversas imaginárias com o grandioso Púchkin:

EU: Não posso deixar de me lembrar de sua palavras. “Chamamos a nós mesmos de escritores enquanto não sabemos metade das palavras russas.” Quando o senhor escreveu isso, deve ter imaginado que aprenderíamos com o passado. Mas desde então a situação só piorou. Pois bem, cada vez mais entendo quando diz que “a ciência, a política e a filosofia ainda não falam russo”.

PÚCHKIN: Agora é minha vez de perguntar. Como é a atual situação do país nessa área? 

EU: Quase a mesma. Não respeitamos nossa língua nem a filosofia de vida nela baseada. Portanto, não respeitamos nossa cultura nem a nós mesmos. 

PÚCHKIN: Hum...Certa vez, eu disse que o mundo “me ensina a principal lição: respeitar a mim mesmo”.

 EU: E pior, nós somos ensinados a respeitar os outros. Formas de governo alheias, hábitos há tempo muito obsoletos e até mesmo a arrogância étnica.

PÚCHKIN: Mas a Rússia hoje tem governantes tão conhecidos. Agrada-me saber que eles podem se assemelhar, em alguns aspectos, a Pedro, o Grande, e lidar com as coisas como ele:  “Animou, de repente, a Rússia Com uma guerra, esperanças, obras...”

EU: Psiu! Não fica bem dizer aqui “animar com uma guerra”, embora os outros nunca tenham controlado militarmente contra nós. Mas a guerra, tudo bem, esqueça... O mais importante é não termos uma ideia suficientemente grande para animar o povo russo. Pessoas com pensamento autônomo existem, só que estão afastadas do governo à distância de um tiro de canhão. A mediocridade e a pressão espiritual estão sufocando o patrimônio intelectual do país! 

PÚCHKIN: Sério? Pensei que as gerações futuras seguiriam meus versos: “Ai de um país onde só o servo e o aduladorTem acesso ao trono...”

Poderia levar horas a fio conversando com Púchkin. Afinal, ele tem respostas para a maioria dos problemas que enfrentamos hoje. 


Mito em debate

No entanto, em vez de refletir sobre a poesia, romances e artigos de Púchkin, aprendemos apenas algumas teses padronizadas sobre sua obra. 


Na Rússia é comum ouvir que Púchkin era brigão e escandaloso. O que não se fala é que, na maioria dos casos, ele era provocado. Seus duelos não eram consequência de sua natureza agressiva, mas sim de uma dor aguda. 


Compelido pelas convenções vigentes, Púchkin era alvo de jornais de toda espécie de São Petersburgo. No final de sua vida, as calúnias e difamações contra ele viraram um novo gênero literário da alta sociedade. 


No entanto, as tentativas de fazer de Púchkin um motivo de piada falharam. Pelo contrário, sua figura foi se tornando cada vez mais inspiradora. 


Aliás, a ideia de que não sabia lidar com dinheiro é também um mito. Suas cartas estão repletas de cálculos financeiros precisos. Púchkin foi propositadamente colocado em uma situação em que era obrigado a gastar mais do que ganhava com suas obras literárias e recebia de suas propriedades. 


Embora tenha sido considerado ateu, o poeta indicava claramente sua fidelidade aos valores cristãos. Lenta, mas seguramente, o poeta seguia rumo à purificação radical por meio da beleza e do senso de bondade. 


Púchkin, o Admirável


Os romances de Púchkin eram a continuação de seus atos. Sua poesia representavam o cume de seus desejos fortes, mas sinceros. Ele escrevia conforme vivia, ao contrário de muitos escritores contemporâneos, cujas vidas não passam de uma reprodução de suas próprias obras.


A língua russa é um oceano de ações e pensamentos predeterminados por nossa história. Nem os políticos nem os escritores conseguiram se encontrar em nosso idioma. Púchkin realizou tal façanha e é aí que reside sua grandeza histórica. 


Com o tempo, o poeta deixou de ser criticado. Em vez de “Púchkin se esgotou”, a sociedade passou a se referir a ele como “o sol de nossa poesia”. 


A vida de Púchkin foi certamente o melhor romance russo escrito por ele. Uma história sobre as imposições do destino e a oposição à vontade própria. Um romance sobre a liberdade e a escravidão, o amor e a experiência espiritual. 


Vencedor do Prêmio Búnin, Boris Ievseev é romancista e poeta.

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